O Ibovespa voltou a ganhar força no fim de agosto, mas a recuperação da Bolsa não aconteceu de maneira uniforme. Enquanto parte das grandes empresas avançou, algumas ações de menor visibilidade continuaram negociando abaixo das máximas recentes ou sem acompanhar o mesmo ritmo do índice.
Entre elas estão Marcopolo (POMO3), Mahle Metal Leve (LEVE3), Banco ABC Brasil (ABCB4), AXIA Energia (AXIA3) e Schulz (SHUL4).
As cinco empresas pertencem a setores muito diferentes e, portanto, não devem ser analisadas como alternativas equivalentes. Algumas carregam uma tese mais ligada a crescimento e recuperação operacional, enquanto outras chamam atenção pela geração de caixa ou possibilidade de distribuição de dividendos.
Os resultados mais recentes também mostram que preço baixo, sozinho, não significa oportunidade. Há companhias enfrentando pressão de margens, exposição a ciclos industriais ou necessidade de entregar crescimento futuro já esperado pelo mercado.
POMO3 ficou mais barata, mas Marcopolo enfrenta pressão nas margens
A Marcopolo terminou o segundo trimestre de 2026 com crescimento de produção e receita, mas apresentou deterioração da rentabilidade.
A receita operacional líquida atingiu R$ 2,37 bilhões, alta de 3% sobre o mesmo período de 2025. A produção mundial chegou a 4.105 unidades, avanço anual de 8%, enquanto a participação da empresa no mercado brasileiro subiu de 47,7% para 48,3%.
O problema apareceu nas margens.
| Indicador | 2T26 | Variação anual |
| Receita líquida | R$ 2,37 bilhões | +3,0% |
| EBITDA | R$ 338,6 milhões | -15,0% |
| Lucro líquido | R$ 271,2 milhões | -15,5% |
| Margem EBITDA | 14,3% | -3,0 p.p. |
O aumento da participação de micro-ônibus, produto de menor valor agregado, a valorização do real e custos relacionados às operações internacionais pressionaram a rentabilidade.
Esse é justamente o ponto central da tese de POMO3: a Marcopolo continua sendo uma empresa relevante em seu segmento, mas está inserida em uma indústria cíclica.
Depois de anos de resultados fortes, o investidor precisa observar se a redução das margens representa apenas uma mudança temporária no mix de vendas ou o início de um período de rentabilidade mais normalizada.
Em 31 de agosto de 2026, POMO3 terminou negociada perto de R$ 4,08.
A Marcopolo também anunciou dividendos de aproximadamente R$ 0,13 por ação, com pagamento previsto para 9 de setembro e posição acionária considerada em 25 de agosto.
O que acompanhar em POMO3
O investidor deve prestar atenção principalmente à recuperação da demanda por ônibus rodoviários e urbanos, evolução do mix de produtos, custos de matérias-primas e desempenho das operações internacionais.
O potencial existe, mas POMO3 tende a apresentar uma oscilação maior do que companhias de setores tradicionalmente considerados mais previsíveis.
LEVE3 combina lucro crescente com exposição ao ciclo automotivo
A Mahle Metal Leve aparece em uma situação diferente.
A companhia registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 159,5 milhões no segundo trimestre, crescimento próximo de 26% na comparação anual.
O EBITDA alcançou R$ 277,3 milhões, alta de 6,3%. Já a receita líquida caiu 2,7%, para aproximadamente R$ 1,33 bilhão.
No primeiro semestre inteiro, o lucro líquido atingiu cerca de R$ 373,8 milhões, ante R$ 285,4 milhões no mesmo período de 2025.
A combinação merece atenção: mesmo enfrentando menor receita, a empresa conseguiu aumentar o lucro.
Isso reforça a importância das margens, do mix de produtos e da disciplina operacional na avaliação de LEVE3.
Em 31 de agosto, a ação era negociada ao redor de R$ 32,4 a R$ 32,7, dependendo do horário e da fonte de cotação.
A empresa possui ainda presença tanto no fornecimento para montadoras quanto no mercado de reposição de peças, o chamado aftermarket. Essa diversificação reduz parcialmente a dependência exclusiva da produção de veículos novos.
Dividendos continuam importantes para LEVE3
A Metal Leve construiu nos últimos anos uma reputação relevante entre investidores de dividendos.
Isso, porém, exige cuidado ao projetar pagamentos futuros.
Distribuições extraordinárias realizadas em determinados períodos não devem ser automaticamente utilizadas para estimar o dividend yield dos anos seguintes.
O ponto mais importante para a tese permanece sendo a capacidade da companhia de preservar lucros e geração de caixa em um setor diretamente relacionado ao ciclo automotivo.
ABCB4 tem inadimplência baixa e lucro de R$ 257 milhões
Entre as cinco empresas, o Banco ABC Brasil apresenta uma tese menos industrial e mais relacionada à previsibilidade da operação financeira.
O banco fechou o segundo trimestre com lucro líquido de R$ 257,3 milhões, avanço de 11,8% em relação ao primeiro trimestre.
A carteira de crédito expandida chegou a R$ 56,5 bilhões, crescimento de 8,3% em 12 meses.
Outro número que merece destaque é a inadimplência.
As operações com atraso superior a 90 dias representavam apenas 0,6% da carteira expandida. O índice de Basileia estava em 16,2%.
| Indicador do ABC Brasil | 2T26 |
| Lucro líquido | R$ 257,3 milhões |
| Carteira expandida | R$ 56,5 bilhões |
| Margem financeira gerencial | R$ 659,2 milhões |
| Receita de serviços | R$ 102,8 milhões |
| ROAE anualizado | 14,3% |
| Atrasos acima de 90 dias | 0,6% |
| Basileia | 16,2% |
A instituição atua principalmente no segmento corporativo, característica que diferencia seu perfil de risco de bancos muito expostos ao crédito de varejo.
O ROAE anualizado ficou em 14,3%, mostrando melhora na rentabilidade do patrimônio.
ABCB4 encerrou 31 de agosto negociada perto de R$ 23,2.
Onde está o risco de ABCB4
Apesar da baixa inadimplência atual, banco algum está imune ao ciclo de crédito.
Uma deterioração das condições financeiras das empresas, aumento relevante das provisões ou desaceleração da carteira pode reduzir a rentabilidade.
Por isso, o acompanhamento do custo de crédito e da inadimplência é tão importante quanto observar o dividend yield.
Para 2026, o guidance do ABC Brasil prevê expansão de 6% a 10% na carteira de crédito expandida e de 12% a 18% no segmento Middle.
AXIA3 é uma aposta na transformação de uma gigante elétrica
A AXIA Energia possui a tese mais ligada a uma transformação estrutural.
A antiga Eletrobras vem passando por um processo de reorganização desde a privatização, buscando maior eficiência operacional, racionalização de custos e otimização de seu extenso portfólio de ativos.
Os números do segundo trimestre mostram a escala da companhia.
A AXIA investiu R$ 3,117 bilhões entre abril e junho, aumento de 53% sobre o mesmo período de 2025.
O EBITDA chegou a aproximadamente R$ 6,6 bilhões, enquanto o lucro líquido IFRS foi de R$ 1,6 bilhão no trimestre.
No primeiro semestre, o lucro líquido ajustado alcançou R$ 5,31 bilhões, avanço de 282% em comparação aos R$ 1,39 bilhão registrados no primeiro semestre de 2025.
A companhia também possui projetos de transmissão que, segundo a própria AXIA, podem adicionar cerca de R$ 2 bilhões em Receita Anual Permitida até 2030.
AXIA3 não é uma tese apenas de preço baixo
Esse ponto é particularmente importante.
Comprar AXIA3 significa apostar que a companhia conseguirá continuar aumentando eficiência, melhorar a monetização de seus ativos e transformar esse processo em geração de caixa sustentável.
Portanto, parte relevante do potencial depende de resultados que ainda precisarão ser entregues nos próximos anos.
O BTG Pactual já vinha mantendo visão construtiva para a companhia e recomendação de compra, destacando que o reconhecimento de créditos fiscais poderia favorecer a geração futura de caixa e eventualmente ampliar a capacidade de distribuição aos acionistas.
Em 31 de agosto, AXIA3 fechou em R$ 53,12.
SHUL4 tem caixa líquido e uma nova avenida de crescimento
A Schulz é provavelmente o nome menos conhecido entre as cinco empresas.
A companhia atua principalmente em dois grandes segmentos: autopeças e compressores.
Além desses negócios, passou a desenvolver a vertical Schulz Gases, criando mais uma possível fonte de crescimento no longo prazo.
Uma característica relevante da companhia é sua estrutura financeira.
Dados posteriores aos resultados do segundo trimestre mostram dívida líquida negativa, equivalente a aproximadamente -0,60 vez o EBITDA, indicando posição de caixa líquido.
Essa condição ganha importância em um ambiente de juros elevados, pois empresas pouco alavancadas enfrentam menor pressão de despesas financeiras.
Por outro lado, a Schulz também está exposta ao ciclo industrial e automotivo.
A companhia apresentou retração de receita nos últimos 12 meses, segundo dados consolidados após o 2T26, embora mantenha margem EBITDA próxima de 16%.
Em 31 de agosto, SHUL4 encerrou negociada perto de R$ 4,52.
Qual das cinco ações apresenta a tese mais defensiva?
Não existe uma resposta única porque as empresas apresentam características diferentes.
| Ação | Principal atrativo | Principal risco |
| POMO3 | Liderança e exposição internacional | Ciclo de ônibus e pressão nas margens |
| LEVE3 | Lucro, geração de caixa e histórico de proventos | Ciclo automotivo |
| ABCB4 | Baixa inadimplência e operação corporate | Deterioração do crédito |
| AXIA3 | Eficiência, ativos elétricos e potencial de caixa | Crescimento futuro já esperado pelo mercado |
| SHUL4 | Caixa líquido e novas frentes de negócio | Ciclo industrial e menor liquidez |
ABCB4 tende a apresentar características mais previsíveis pela natureza do negócio bancário corporate, embora permaneça exposto ao ciclo de crédito.
LEVE3 combina rentabilidade elevada com histórico relevante de remuneração aos acionistas, mas atua em um setor cíclico.
POMO3 e SHUL4 oferecem exposição maior à indústria, enquanto AXIA3 representa uma tese de longo prazo baseada na transformação operacional de uma das maiores companhias elétricas do país.
Preço baixo não elimina os riscos
A principal conclusão é que POMO3, LEVE3, ABCB4, AXIA3 e SHUL4 podem merecer espaço no radar, mas por motivos completamente diferentes.
O fato de uma ação ter recuado ou negociar a múltiplos aparentemente baixos não é suficiente para determinar se ela está barata.
No caso de empresas cíclicas, o lucro utilizado no cálculo do preço/lucro pode estar próximo de um pico. Nas empresas em transformação, o mercado pode antecipar vários anos de melhora operacional. Já nos bancos, a qualidade da carteira de crédito pode mudar rapidamente conforme a economia desacelera.
Por isso, indicadores como lucro, geração de caixa, dívida, margem, retorno sobre patrimônio e sustentabilidade dos dividendos precisam ser analisados em conjunto.
Para quem procura empresas menos óbvias dentro da B3, essas cinco ações oferecem teses distintas que justificam acompanhamento — mas não substituem uma carteira diversificada nem uma análise adequada ao perfil de risco de cada investidor.
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