Com a aproximação da divulgação dos resultados do quarto trimestre, investidores voltam a observar duas companhias conhecidas pelo pagamento recorrente de proventos: Gerdau e Irani.
Ambas possuem histórico de dividendos trimestrais e podem anunciar novos pagamentos em março. No entanto, a estratégia mais eficiente não é simplesmente comprar a ação esperando o dividendo, mas entender o conceito de dividendo inteligente.
Essa estratégia envolve:
- Mapear o histórico de anúncios da empresa;
- Identificar padrões de data-com e data-ex;
- Avaliar fundamentos como dívida, geração de caixa e preço justo;
- Evitar compras motivadas apenas pela expectativa de proventos.
O dividendo deve ser consequência de uma empresa lucrativa e bem gerida não o único motivo para investir.
O alerta da data-com: cuidado com a euforia
Um erro comum no mercado é comprar a ação próxima da data-com e vendê-la após a data-ex, acreditando que o dividendo garantirá lucro.
O mercado, porém, costuma antecipar movimentos. Em muitos casos, a ação sobe antes do anúncio e pode corrigir após a data-com.
Situações semelhantes já foram observadas em empresas como a BB Seguridade, quando a ação valorizou antes do anúncio e depois recuou parte dos ganhos.
Assim, quem compra apenas pela expectativa do dividendo pode:
- Pagar mais caro pelo ativo;
- Receber o provento;
- Sofrer queda superior ao valor recebido.
O timing é importante, mas fundamentos são ainda mais decisivos.
Gerdau: eficiência operacional e geração de caixa sólida
A Gerdau (GGBR4/GGBR3) é uma das maiores produtoras de aço do Brasil, com valor de mercado na casa dos R$ 40 bilhões e operação verticalizada, que vai da mineração até o produto final.
Presença internacional estratégica
A companhia atua no Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, Peru, Uruguai e Argentina. Atualmente, a América do Norte tem peso relevante na geração de resultado e fluxo de caixa do grupo.
Nos últimos anos, a empresa reduziu sua presença internacional (de 16 para 7 países), vendeu ativos não estratégicos e focou em eficiência operacional.
Evolução financeira
Entre os avanços observados:
- Receita saltou de aproximadamente R$ 43 bilhões para cerca de R$ 70 bilhões;
- Despesas administrativas foram reduzidas proporcionalmente;
- Margens operacionais melhoraram;
- Alavancagem caiu para patamar próximo de 0,8 vez dívida líquida/EBITDA;
- Caixa na casa dos R$ 10 bilhões, suficiente para cobrir amortizações por vários anos.
A política de dividendos prevê payout mínimo de 30% do lucro ajustado, com pagamentos frequentes via dividendos ou JCP. Além disso, a companhia utiliza programas de recompra de ações, o que amplia o retorno total ao acionista.
Importante destacar que o setor do aço é cíclico. Em períodos de alta demanda e preços elevados, lucros e dividendos tendem a crescer. Já em fases de retração, resultados e proventos podem diminuir.
Irani: crescimento consistente e foco no mercado interno
A Irani (RANI3) atua no segmento de papel para embalagens e papelão ondulado, diferenciando-se de empresas como Klabin e Suzano, pois não depende da venda de celulose.
Receita concentrada e resiliente
- Cerca de 99% da receita vem de papéis e embalagens;
- Aproximadamente 91% das vendas são destinadas ao mercado interno;
- Forte presença no setor alimentício, que representa parcela significativa da receita.
O segmento de alimentos no Brasil é historicamente resiliente, inclusive em períodos de crise econômica, o que traz previsibilidade à empresa.
Crescimento estrutural
Desde os anos 2000, a companhia apresentou:
- Crescimento médio anual de produção próximo de 5,5%;
- Expansão relevante da receita líquida;
- Preços médios acompanhando inflação (5% a 6% ao ano).
A combinação de aumento de volume com reajuste de preços explica o crescimento consistente ao longo dos anos.
Verticalização e redução de custos
A empresa já gera cerca de 63% da energia que consome e busca atingir 100% de autossuficiência por meio de investimentos em pequenas centrais hidrelétricas. Essa estratégia pode reduzir custos e melhorar margens no médio e longo prazo.
Recompra de ações e retorno ao acionista
A Irani tem histórico agressivo de recompra de ações, cancelando 100% dos papéis recomprados. Desde o IPO, já retirou do mercado parcela relevante das ações.
Isso significa que, além do dividendo tradicional (payout próximo de 50%), o investidor também é beneficiado pela redução do número total de ações em circulação, elevando o lucro por ação.
Quando se considera dividendos mais recompra, o retorno total ao acionista (shareholder yield) pode superar o dividend yield isolado divulgado por alguns portais.
Março no radar do mercado
Historicamente, tanto Gerdau quanto Irani:
- Anunciam proventos próximos à divulgação dos resultados;
- Mantêm frequência trimestral;
- Realizam pagamentos pouco tempo após a data-com.
Caso os resultados do quarto trimestre confirmem boa geração de caixa, o mercado pode reagir antes mesmo da oficialização dos dividendos.
Estratégia acima da emoção
A expectativa por dividendos em março coloca Gerdau e Irani novamente no radar do investidor de renda passiva.
No entanto, a principal mensagem é clara: dividendos são consequência de empresas sólidas, lucrativas e bem geridas. Antecipar anúncios com base em fundamentos pode gerar melhores resultados do que seguir a euforia da data-com.
Março pode trazer novos proventos mas o verdadeiro diferencial estará na disciplina e na estratégia de quem investe.
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