Se tem algo que investidor gosta é dividendo alto na conta. Mas dividendos acima de 20% não significam, automaticamente, uma boa empresa para o longo prazo.
Nos últimos 12 meses, três companhias chamaram atenção na Bolsa brasileira por pagamentos extremamente elevados:
- Marcopolo (POMO3/POMO4)
- JSL (JSLG3)
- Grendene (GRND3)
Mas será que esses dividendos são sustentáveis? Há risco escondido? Ou estamos diante de oportunidades reais?
Vamos à análise completa.
1. Marcopolo (POMO3): liderança industrial e dividendo elevado
A Marcopolo é líder na fabricação de carrocerias de ônibus no Brasil e tem forte atuação no transporte urbano e rodoviário, inclusive em grandes capitais como Salvador.
Destaques recentes:
- Dividend yield próximo de 21% nos últimos 12 meses
- Forte valorização no fim de 2025 e início de 2026
- Recomendação majoritária de compra por analistas
- Preço-alvo próximo de R$ 9,60
Pontos positivos:
Dívida líquida muito controlada (abaixo de 1x EBITDA)
ROE próximo de 28%
Operação sólida e lucrativa
Boa geração de caixa
Ponto de atenção:
A empresa não tem histórico consistente de dividendos elevados. Antes de 2024, os pagamentos eram modestos (3% a 4%). O salto recente foi impulsionado por dividendos extraordinários — movimento comum no fim de 2025, quando diversas empresas anteciparam pagamentos para evitar nova tributação.
Projeção futura:
Dividendos esperados próximos de 9% a 10% ao ano, patamar ainda interessante, mas bem abaixo dos 20% recentes.
Boa empresa, preço atrativo, mas o yield acima de 20% não deve se repetir com frequência.
2. JSL: dividendos altos, mas risco elevado
A JSL é uma gigante da logística rodoviária no Brasil e pertence ao grupo Simpar. É uma empresa operacionalmente relevante e com grande market share.
Dividendos recentes:
Yield acima de 20% nos últimos 12 meses.
Mas aqui mora o problema.
Endividamento elevado:
- Dívida líquida superior a 3x o patrimônio
- Dívida líquida/EBITDA próxima de 6x
- Despesa financeira superior a R$ 1 bilhão
O lucro caiu drasticamente nos últimos anos, pressionado pelo alto custo da dívida em um cenário de Selic elevada.
Resultado:
O pagamento de dividendos foi extraordinário e acima do lucro gerado, com payout superior a 100%.
Ou seja: parte relevante veio de reservas de caixa, não de geração operacional sustentável.
Projeção:
Dividendos futuros tendem a ser baixos caso a estrutura de dívida continue pressionando o lucro.
Não é uma empresa ruim, mas não é adequada para estratégia focada em dividendos recorrentes.
3. Grendene: previsibilidade e caixa forte
A Grendene é fabricante de calçados e atua fortemente no varejo e exportação.
Foi a que mais impressionou nos últimos anos.
Destaques:
- Dividendos próximos de 30% nos últimos 12 meses
- Pagamentos elevados também em 2023 e 2024
- Histórico mais consistente entre as três
Estrutura financeira:
Empresa opera com caixa líquido
Baixíssimo endividamento histórico
Forte capacidade de pagamento
ROE próximo de 18%
Diferente da JSL, aqui não há pressão financeira.
Crescimento:
O lucro não explode, mas é estável. Cresce pouco, mas entrega previsibilidade.
Projeção de dividendos recorrentes ao redor de 9% a 10%, mesmo sem extraordinários.
Para quem busca renda e previsibilidade, é a mais equilibrada das três.
Comparativo final
| Empresa | Dividendos >20% | Endividamento | Sustentabilidade | Perfil |
| Marcopolo | Sim | Baixo | Moderada | Industrial sólida |
| JSL | Sim | Muito alto | Baixa | Cíclica e alavancada |
| Grendene | Sim | Muito baixo | Alta | Pagadora consistente |
Vale a pena investir só pelo dividendo?
O investidor que olha apenas o dividend yield corre risco de cair em armadilhas.
É essencial avaliar:
- Constância histórica
- Capacidade real de pagamento
- Estrutura de dívida
- Projeção futura
- Preço justo e margem de segurança
Dividendos extraordinários são bem-vindos. Mas o que constrói patrimônio é recorrência sustentável.
Entre as três ações que pagaram mais de 20% nos últimos 12 meses:
- Marcopolo: boa empresa, yield pontual elevado.
- JSL: dividendo alto, mas estrutura financeira frágil.
- Grendene: melhor equilíbrio entre segurança e previsibilidade.
O mercado vive um momento de queda gradual da Selic e possível retomada de fluxo estrangeiro para a Bolsa. Empresas sólidas e bem precificadas tendem a se beneficiar.
Mas lembre-se: dividendos elevados no passado não garantem dividendos elevados no futuro.
E no longo prazo, disciplina e análise superam empolgação com números chamativos.
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