A PetroRecôncavo (RECV3) passou a ser vista como uma das ações mais descontadas do setor de petróleo na Bolsa brasileira. Negociando abaixo do valor patrimonial e com múltiplos comprimidos, a tese de que se trata da “petroleira mais barata da Bolsa” ganhou força entre investidores focados em valor.
Em 2026, a ação é negociada próxima de 0,7 vez o valor patrimonial (P/VP) e cerca de 5,5 vezes o lucro (P/L), patamares considerados baixos quando comparados ao histórico do setor.
No entanto, múltiplos isolados não contam toda a história.
A companhia opera exclusivamente no onshore (produção em terra), com foco em campos maduros na Bahia e no Rio Grande do Norte. Sua produção atual gira entre 24 mil e 25 mil barris de óleo equivalente por dia (boe/d), abaixo do que era projetado em certificações anteriores de reservas.
Produção abaixo do esperado pressiona a tese
De acordo com projeções anteriores baseadas em reservas 1P e 2P, a companhia deveria estar produzindo algo próximo de 31 mil a 34 mil barris por dia em 2026. O número atual revela defasagem relevante.
Além disso, a empresa enfrentou:
Paradas operacionais programadas no fim de 2025
Campanhas de revitalização com óleo de baixa permeabilidade
Necessidade de maior investimento (capex) para extrair novos volumes
Pressão de aumento no lifting cost (custo de extração por barril)
Esse conjunto de fatores reduz previsibilidade e aumenta risco operacional no curto prazo.
PRIO3 acelera crescimento e amplia vantagem operacional
Enquanto RECV3 enfrenta desafios operacionais, a PRIO (PRIO3) consolida posição como principal “junior oil” da Bolsa.
A companhia, focada no offshore (produção no mar), opera estratégia agressiva de aquisição e revitalização de campos maduros, elevando produção e geração de caixa.
Para 2026, a expectativa é que a produção da PRIO3 atinja próximo de 200 mil barris por dia, impulsionada por:
Entrada do campo de Wahoo
Expansão em Albacora Leste
Consolidação de novos clusters operacionais
O crescimento projetado é significativamente superior ao da PetroRecôncavo.
Comparativo RECV3 x PRIO3 – Cenário 2026
| Indicador | PRIO3 | RECV3 |
|---|---|---|
| Produção estimada 2026 | ~200 mil bpd | ~25 mil bpd |
| Perfil operacional | Offshore | Onshore |
| Crescimento esperado | Forte expansão | Estagnação |
| P/L aproximado | Superior ao setor | ~5,5x |
| P/VP aproximado | Próximo a 1x | ~0,7x |
| Tese principal | Crescimento | Dividendos/Valor |
| Risco operacional | Execução de projetos | Queda de produção |
Dividendos: RECV3 pode compensar?
A tese pró-RECV3 se sustenta principalmente na geração de caixa e potencial de dividendos. Com estrutura mais enxuta e campos maduros, a empresa tende a distribuir parte relevante do fluxo de caixa quando o petróleo permanece na faixa de US$ 60–70 por barril, patamar esperado para 2026.
No entanto, aumento de capex e possível elevação do lifting cost podem reduzir espaço para dividendos extraordinários.
PRIO3, por sua vez, tradicionalmente reinveste mais no crescimento da produção, priorizando valorização do capital no longo prazo.
O erro de olhar apenas múltiplos
A comparação mostra que RECV3 é mais barata sob ótica de múltiplos. Porém, crescimento estrutural importa.
Empresas de petróleo enfrentam declínio natural das reservas ao longo do tempo. Para manter valor, precisam:
Aumentar produção organicamente
Comprar novos ativos
Substituir reservas consumidas
Nesse ponto, PRIO3 apresenta vantagem clara, com pipeline robusto de expansão e maior escala operacional.
Cenário do petróleo em 2026
O barril do Brent deve permanecer na faixa de US$ 60 a US$ 70, mantendo margens positivas para ambas as empresas.
Empresas com menor custo de produção tendem a ser mais resilientes em cenários de volatilidade. PRIO3 apresenta maior escala e diluição de custos fixos, enquanto RECV3 depende mais da eficiência individual de cada campo.
RECV3 ou PRIO3: qual comprar?
A decisão envolve perfil de investidor:
Foco em crescimento e valorização de capital: PRIO3 apresenta melhor dinâmica operacional e maior expansão projetada.
Foco em dividendos e desconto patrimonial: RECV3 pode atrair investidores de valor, mas exige tolerância a risco operacional.
No cenário atual de 2026, a leitura estratégica indica que PRIO3 possui tese operacional mais robusta, enquanto RECV3 precisa provar retomada consistente de produção para destravar valor.
RECV3 não pode ser considerada automaticamente a maior oportunidade do setor apenas por negociar a múltiplos baixos. O mercado tende a precificar riscos operacionais e desaceleração produtiva.
PRIO3, embora negociando a múltiplos mais elevados, entrega crescimento, escala e maior geração de caixa estrutural.
A diferença central não está apenas no preço atual da ação, mas na capacidade de crescimento e reposição de reservas ao longo do tempo.
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