A Itaúsa segue sendo uma das ações mais tradicionais da Bolsa brasileira. Mas os dados atualizados de 2025 mostram que, por trás da aparência de previsibilidade, existe um detalhe que pode transformar completamente a leitura sobre a ação: o tamanho do desconto entre o valor real dos ativos e o preço da empresa na Bolsa.
Hoje, a Itaúsa é avaliada em cerca de R$ 128 bilhões no mercado. Já a soma das participações que a empresa possui ultrapassa R$ 170 bilhões. Isso significa que a holding negocia com um desconto acima de 25%, algo elevado para uma empresa com lucros consistentes, forte geração de caixa e baixíssimo risco financeiro.
Lucro recorde em 2025 e rentabilidade ainda elevada
Nos nove primeiros meses de 2025, a Itaúsa acumulou aproximadamente R$ 12,2 bilhões de lucro recorrente, com expectativa de encerrar o ano com mais de R$ 16 bilhões no resultado final.
O retorno sobre o patrimônio (ROE) permanece na faixa de 18%, patamar elevado para uma holding. Mesmo assim, ainda fica abaixo do retorno do Banco Itaú, que continua sendo o grande motor de geração de valor da empresa.
Dependência extrema do Banco Itaú: força ou risco?
Um dado chama atenção: entre 90% e 95% de todo o lucro da Itaúsa vem do Banco Itaú. Na prática, isso significa que o desempenho da ação da holding está quase totalmente ligado:
À qualidade da carteira de crédito
À inadimplência
Ao spread bancário
Ao nível de juros
À política de dividendos do banco
Isso transforma a Itaúsa em uma ação extremamente previsível — mas também altamente concentrada em apenas um grande ativo.
As empresas do portfólio ajudam… mas ainda não mudam o jogo
A Itaúsa tem participações relevantes em vários setores:
Indústria de madeira e revestimentos
Calçados
Saneamento
Energia
Infraestrutura de mobilidade
Transporte e distribuição de gás
No entanto, apesar da diversificação aparente, a maior parte dessas empresas ainda entrega retornos inferiores ao do Banco Itaú. Isso puxa para baixo o ROE consolidado da holding e ajuda a explicar por que a Itaúsa negocia com desconto estrutural.
Duas joias escondidas que sustentam o caixa da Itaúsa
Mesmo nesse cenário, duas participações se destacam fortemente na geração de valor:
Distribuição de gás (GLP): empresa líder no setor, com forte geração de caixa, baixa dívida e margens elevadas.
Transporte de gás natural: contratos de longo prazo, receitas indexadas à inflação, margens operacionais extremamente altas e previsibilidade de lucro rara no mercado.
Esses ativos ajudam a manter a Itaúsa com excelente fluxo de caixa mesmo fora do setor financeiro.
Dívida controlada e conforto financeiro raro entre holdings
Um dos maiores diferenciais da Itaúsa hoje é sua estrutura de capital extremamente conservadora:
Baixíssimo risco de liquidez
Cobertura de juros muito elevada
Poucas amortizações de dívida no curto e médio prazo
Forte previsibilidade de caixa via dividendos das investidas
Isso protege a empresa mesmo em cenários de juros elevados.
O gatilho silencioso que pode destravar o valor da ação
Atualmente, a Itaúsa sofre com uma ineficiência tributária sobre os juros sobre capital próprio recebidos, o que reduz o lucro líquido anual em centenas de milhões de reais.
A partir de 2027, esse custo deixa de existir. Esse fator, por si só, pode:
Aumentar o lucro líquido automaticamente
Elevar o volume de dividendos pagos
Reduzir o desconto de holding
Tornar a Itaúsa mais competitiva frente ao próprio Banco Itaú
Esse é hoje o principal gatilho estrutural de valorização de médio prazo da ação.
Dividendos seguem fortes e previsíveis
A Itaúsa mantém uma característica rara: repassa praticamente 100% dos proventos que recebe do Banco Itaú aos seus acionistas. Com isso:
O fluxo de dividendos é previsível
A empresa funciona como uma “replicadora” de dividendos do Itaú
O investidor tem renda sem precisar comprar o banco diretamente
Com os proventos já anunciados em 2025, o dividend yield anualizado gira na faixa de 8%, patamar elevado para uma ação de grande porte e baixo risco.
A ação da Itaúsa está cara, justa ou barata hoje?
Hoje, a Itaúsa entrega ao investidor:
Lucros bilionários
Dividendos previsíveis
Baixa dívida
Forte proteção patrimonial
Desconto acima de 25% sobre o valor dos ativos
Gatilho de redução de custos a partir de 2027
Mas também carrega:
Dependência quase total do Banco Itaú
Crescimento limitado fora do setor financeiro
Parte do portfólio ainda com rentabilidade abaixo do ideal
Na prática, a Itaúsa não é uma ação para multiplicação rápida, mas segue como uma das opções mais sólidas para construção de patrimônio e geração de renda no longo prazo.
A Itaúsa continua “chata”, previsível — e talvez mais estratégica do que nunca
A Itaúsa continua sendo aquela ação que:
Não gera euforia
Não costuma derreter nas crises
Paga dividendos com regularidade
E constrói patrimônio de forma silenciosa ao longo dos anos
Com o desconto elevado, os lucros em alta e o fim da ineficiência tributária no horizonte, o atual momento pode ser mais relevante do que parece para quem investe pensando em renda e preservação de capital.
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