A relação entre o governo Lula e o Congresso entrou em um dos momentos mais tensos desde o início do mandato. Após a derrubada da MP 1.303, conhecida como “MP dos impostos”, o Palácio do Planalto adotou uma postura de confronto direto com o Legislativo, apostando todas as fichas na construção de uma base sólida e ideologicamente alinhada para as eleições de 2026.
A decisão de retirar indicados de partidos como PP, União Brasil, PSD, MDB e Republicanos de cargos estratégicos em estatais e ministérios expõe uma reconfiguração política em curso: o governo quer afastar aliados infiéis e manter apenas os que permanecerão ao seu lado na próxima campanha presidencial.
Segundo avaliação interna, Lula acredita ter mais a ganhar do que a perder ao endurecer o jogo político. Com quase todas as pautas estruturais já aprovadas, o presidente aposta que o momento é propício para consolidar o discurso de “justiça social” e transformar o embate com o Congresso em narrativa eleitoral.
A queda da MP 1.303 e o revés fiscal
A Medida Provisória 1.303, chamada de “MP dos impostos”, previa mudanças no IOF, na tributação de fintechs e apostas online (bets), além de ajustes nas regras de compensação de créditos tributários.
A proposta poderia gerar até R$ 17 bilhões em receitas extras, ajudando a cobrir o rombo fiscal estimado em R$ 5 bilhões para o orçamento de 2026.
Com a derrubada da MP na Câmara, o governo perdeu uma das principais peças da sua estratégia de arrecadação e, agora, busca alternativas para recompor a receita, como novos aumentos de impostos e reedição de projetos de lei com conteúdo semelhante.
O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reagiu com firmeza, afirmando que o governo seguirá defendendo a taxação dos “BBBs” — bancos, bets e bilionários — e que “só é injusta na cabeça de quem não entende a desigualdade fiscal do país”.
Entretanto, críticos argumentam que o governo insiste em aumentar receitas em vez de cortar gastos, o que gera desconfiança no mercado e risco de nova pressão inflacionária.
Um jogo político calculado
O endurecimento com o Congresso não é visto como um gesto de autossabotagem, mas como movimento estratégico para 2026. Lula sabe que, com Jair Bolsonaro inelegível e sob restrições judiciais, a direita ainda não tem um nome forte e unificado para enfrentá-lo.
Enquanto isso, o governo tenta recompor sua base política, priorizando ministros e líderes que mantêm fidelidade nas votações.
Partidos que se distanciaram do Planalto, como o União Brasil e o PP, já sentem o impacto da retaliação, com cortes de cargos e emendas.
Internamente, o Planalto avalia que essa postura pode gerar turbulência momentânea, mas garante maior coesão para a próxima disputa eleitoral.
A estratégia é clara: limpar o terreno agora para evitar traições em 2026.
O discurso da justiça tributária ganha força
Com a derrota da MP 1.303, o governo intensificou o discurso de “justiça tributária”, que vem sendo construído por Haddad e pelo próprio presidente.
A ideia é reposicionar a narrativa econômica como uma luta entre ricos e pobres, reforçando que “quem tem mais deve pagar mais”.
Essa retórica tem dupla função:
Mobilizar a base social e os eleitores que enxergam Lula como defensor da redistribuição de renda.
Pressionar o Congresso, que, segundo o Planalto, atua em defesa de grupos empresariais e bilionários.
O Partido dos Trabalhadores (PT) acredita que essa narrativa pode ser transformada em capital político nos próximos meses, principalmente com o início das discussões sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e o Orçamento de 2026.
Congresso sob desgaste e governo em busca de protagonismo
O embate acontece em um momento em que o Congresso enfrenta desgaste público após a polêmica PEC da Blindagem, criticada por limitar a atuação do Supremo Tribunal Federal e ampliar privilégios de parlamentares.
Enquanto o Parlamento tenta recuperar sua imagem, Lula surge nas pesquisas com favoritismo em cenários de primeiro e segundo turno, favorecido pela divisão interna da direita e pelo desgaste de figuras do centrão.
Analistas políticos afirmam que o governo aposta em polarizar o debate: de um lado, o “governo da inclusão e da justiça social”; do outro, um Congresso desacreditado e dominado por interesses corporativos.
O contexto internacional e o reflexo nos mercados
Enquanto a tensão política cresce em Brasília, o cenário internacional adiciona volatilidade. A guerra comercial entre China e Estados Unidos se intensifica, impactando commodities e bolsas globais.
Trump, de volta ao centro da cena, recebeu o argentino Javier Milei na Casa Branca e anunciou que manterá o swap cambial de US$ 20 bilhões com Buenos Aires apenas se o aliado vencer as eleições legislativas.
Esses movimentos aumentam a instabilidade global e reforçam a importância de uma agenda fiscal crível no Brasil, algo que o Planalto tenta equilibrar em meio à turbulência doméstica.
O risco da aposta
Ao optar pelo confronto direto com o Congresso, o governo Lula assume o risco de agravar a paralisia política em um momento delicado da economia.
Se vencer, consolidará uma base leal e ampliará sua força rumo a 2026.
Se perder, pode enfrentar isolamento institucional, fuga de apoio parlamentar e novo desgaste fiscal.
A estratégia é arriscada — mas, para Lula, vale o tudo ou nada.
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