As ações da Braskem chamaram a atenção do mercado após registrarem alta superior a 18% em um único pregão, logo após a divulgação do resultado trimestral. Apesar do forte movimento, os números ainda revelam um cenário financeiro delicado, marcado por margens comprimidas, geração de caixa negativa e alavancagem elevada. A reação positiva do mercado está mais ligada à comparação com o trimestre imediatamente anterior do que ao desempenho anual da companhia.
Na comparação entre o terceiro trimestre e o mesmo período do ano anterior, os resultados foram fracos. A receita líquida caiu cerca de 19%, saindo de aproximadamente R$ 21 bilhões para R$ 17 bilhões. O EBITDA recorrente, principal métrica analisada no caso da Braskem por excluir efeitos extraordinários como as provisões relacionadas ao caso de Alagoas, recuou cerca de 66%, passando de cerca de R$ 2,4 bilhões para R$ 818 milhões.
Além disso, a geração de caixa permaneceu negativa e a alavancagem financeira se deteriorou de forma relevante. A relação dívida líquida sobre EBITDA saltou de cerca de 5,7 vezes para aproximadamente 14,7 vezes, um nível considerado extremamente elevado para padrões de mercado.
Por que as ações subiram mesmo com números fracos?
A valorização expressiva das ações não foi motivada pela comparação anual, mas sim pela melhora significativa frente ao segundo trimestre. Na análise sequencial, os dados mostram um quadro menos negativo.
A receita líquida apresentou queda mais moderada, de cerca de 3%, recuando de aproximadamente R$ 17,8 bilhões para R$ 17,3 bilhões. Já o EBITDA recorrente praticamente dobrou, subindo de cerca de R$ 427 milhões para R$ 818 milhões, um avanço próximo de 91%. O prejuízo líquido também foi drasticamente reduzido, passando de aproximadamente R$ 267 milhões para cerca de R$ 26 milhões.
Esse conjunto de dados levou o mercado a interpretar que o segundo trimestre pode ter representado o fundo do poço operacional, com o terceiro trimestre sinalizando o início de uma possível recuperação.
Fatores que ajudaram na percepção positiva do mercado
Além da melhora sequencial dos números, outros fatores contribuíram para o movimento de alta das ações. O mercado passou a enxergar maior clareza sobre as indenizações relacionadas ao caso de Alagoas, reduzindo incertezas jurídicas e contábeis que pesavam sobre o papel. Também houve expectativa positiva em relação a medidas de proteção à indústria nacional, que ajudam a conter a concorrência externa em um cenário de margens pressionadas.
A empresa também reforçou sua estratégia de aumentar volumes vendidos, melhorar o mix de produtos com maior valor agregado e avançar em programas de redução de custos. Mesmo assim, o ambiente para o setor petroquímico segue desafiador, especialmente para produtos como polietileno e polipropileno, cujas margens continuam comprimidas.
Indicadores financeiros reforçam cautela
A Braskem possui atualmente um valor de mercado em torno de R$ 6,1 bilhões, sendo classificada como uma empresa de pequeno a médio porte. A alavancagem permanece como o principal ponto de atenção, com dívida líquida sobre EBITDA em torno de 14,7 vezes, mesmo após ajustes, um patamar considerado elevado.
A liquidez corrente gira em torno de 1,18, o que indica que, no curto prazo, a empresa consegue honrar seus compromissos. Ainda assim, a estrutura de capital segue pressionada. A companhia não distribui dividendos, o que é coerente com o momento financeiro e com a necessidade de preservação de caixa.
As margens seguem em níveis baixos. Considerando o EBITDA contábil, a margem está próxima de 1%. Já no EBITDA ajustado dos últimos 12 meses, a margem fica em torno de 4%, ainda distante de níveis considerados saudáveis. No valuation, o múltiplo EV/EBITDA chega a cerca de 65 vezes no critério contábil e a aproximadamente 14 vezes no critério ajustado, o que não caracteriza um ativo barato, especialmente em um ciclo desfavorável.
Um negócio altamente cíclico
O histórico da Braskem mostra um comportamento altamente cíclico. Em períodos favoráveis, a empresa já operou com margens acima de 20%, gerando bilhões em caixa. Em ciclos negativos, como o atual, as margens caem para níveis muito baixos, pressionando resultados, fluxo de caixa e endividamento.
Caso a companhia consiga retomar margens próximas de 10% ou mais, o potencial de geração de EBITDA pode mudar significativamente a percepção de valor das ações. No entanto, ainda não há visibilidade clara sobre quando esse cenário pode se concretizar.
Vale investir agora?
No momento, a avaliação é de que existe potencial, mas com risco elevado. A recente alta das ações reflete mais uma expectativa de virada de ciclo do que uma melhora estrutural consolidada. Para investidores mais conservadores, o papel tende a gerar desconforto devido à alta volatilidade, baixa previsibilidade de resultados e endividamento elevado.
Para investidores mais experientes, que compreendem ciclos de commodities e aceitam maior risco, a ação pode entrar no radar como uma aposta tática, desde que acompanhada de perto nos próximos resultados. O mercado agora aguarda os próximos balanços para confirmar se a melhora recente é sustentável ou apenas um alívio temporário em um cenário ainda adverso.
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