Nas últimas semanas, dois fundos imobiliários passaram a operar na contramão do mercado: GARE11 e TRXF11 registraram quedas relevantes nas cotações, enquanto boa parte dos FIIs vinha mostrando recuperação.
O movimento gerou dúvida entre investidores porque, ao analisar os relatórios gerenciais, os fundamentos continuam consistentes.
GARE11: portfólio robusto e contratos longos
O GARE11 apresenta características que, em tese, não justificariam uma queda acentuada:
33 imóveis no portfólio
Prazo médio de contratos superior a 10 anos
Vacância física e financeira zerada
Atuação híbrida (logístico, corporativo e outros segmentos)
Forte presença em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul
Endividamento administrável
Caixa superior às obrigações de curto prazo
Todos os inquilinos seguem adimplentes e os contratos são majoritariamente de longo prazo.
Além disso, o fundo anunciou que poderá ampliar o portfólio para 39 ativos com novas aquisições já encaminhadas.
TRXF11: contratos atípicos e grandes inquilinos
O TRXF11 também mantém fundamentos considerados sólidos:
Contratos com prazo médio acima de 12 anos
Predominância de contratos atípicos
Vacância inferior a 0,5%
Inquilinos de grande porte como Grupo Mateus, Assaí e Grupo Pão de Açúcar
Alavancagem dentro de níveis controlados
Não há indícios de deterioração operacional, aumento de inadimplência ou risco de colapso financeiro.
O verdadeiro motivo da queda: emissão de cotas para pagar aquisições
O que provocou o movimento negativo não foi problema estrutural — foi estratégia financeira.
Durante dezembro, ambos os fundos realizaram aquisições relevantes pagas majoritariamente por meio de integralização em cotas.
Como funciona essa operação?
O fundo emite novas cotas
Entrega essas cotas ao vendedor do imóvel
O vendedor passa a ser cotista
Isso evita:
Financiamento com juros elevados
Uso excessivo de caixa
Aumento da dívida
É uma estratégia comum em cenários de Selic elevada.
O efeito colateral: pressão vendedora temporária
Quando as cotas emitidas ficam liberadas para negociação, os antigos proprietários podem vender no mercado.
Esse aumento de oferta gera pressão nos preços.
Linha do tempo – GARE11
| Evento | Impacto |
|---|---|
| Final de dezembro | Anúncio de aquisições via cotas |
| Cotação na época | R$ 9,11 |
| 14 de janeiro | Liberação das cotas da emissão |
| Após liberação | Intensificação da queda |
O fundo ainda sinalizou novas aquisições, o que pode manter a pressão no curto prazo caso sejam novamente pagas via cotas.
Linha do tempo – TRXF11
| Evento | Impacto |
|---|---|
| 1º de dezembro | Início dos anúncios de aquisições |
| Cotação inicial | R$ 98,35 |
| Mínima aproximada | R$ 91 |
| 12 de janeiro | Liberação da 12ª emissão |
| Pós-liberação | Nova queda de aproximadamente 3% |
A reação do mercado ocorreu principalmente após a liberação das cotas para negociação.
Por que essa estratégia pode ser positiva no longo prazo?
Apesar do impacto no curto prazo, a estratégia pode trazer benefícios:
Expansão do patrimônio
Aumento da geração potencial de renda
Crescimento da base de ativos
Preservação da estrutura financeira
Redução do risco de dívida cara
Se os novos imóveis entregarem renda consistente, o efeito dilutivo tende a ser absorvido com o tempo.
O que pode acontecer agora?
No curto prazo:
Pode haver continuidade da pressão vendedora
Novas aquisições via cotas podem gerar nova diluição
No médio e longo prazo:
Aumento da receita pode fortalecer dividendos
Fim da pressão técnica pode permitir recuperação das cotas
Eventual queda da Selic tende a beneficiar FIIs
A queda de GARE11 e TRXF11 não está relacionada a vacância, inadimplência ou descontrole financeiro. O fator central é técnico: aumento temporário da oferta de cotas após aquisições pagas via emissão.
Se a pressão diminuir e os ativos incorporados entregarem resultado operacional sólido, o movimento atual pode representar uma oportunidade estratégica para investidores atentos.
A questão agora não é se os fundos têm problema estrutural — mas se o mercado está antecipando um excesso de oferta momentâneo ou abrindo espaço para posicionamento a preços mais atrativos.
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