Quem acompanhou a Vale (VALE3) negociada abaixo dos R$ 50 no início de abril de 2025 talvez não imaginasse o movimento que viria pela frente. Em menos de 12 meses, a ação saiu da mínima próxima a R$ 49,20 para patamares acima de R$ 80, acumulando valorização superior a 80%, desconsiderando os dividendos pagos no período.
O mais curioso é que essa alta não foi impulsionada por uma explosão no preço do minério de ferro.
Em 2025, a commodity oscilou entre US$ 92 e US$ 108 por tonelada — faixa relativamente estável e inferior aos picos de 2024, quando chegou a bater US$ 143. Ainda assim, o mercado optou por olhar além da commodity e focar nos fundamentos da companhia.
Produção recorde e eficiência operacional impulsionam resultados
Mesmo com o minério mais comportado, a Vale entregou um desempenho operacional sólido em 2025:
Receita líquida: alta de 1% ano contra ano
EBITDA ajustado: avanço de 4%
Lucro líquido atribuível: US$ 7 bilhões (considerando ajustes)
O preço realizado do minério de ferro teve leve alta, mas o destaque veio da eficiência operacional e do recorde de produção, fruto do ramp-up de projetos como Capanema e Vargem Grande.
Além disso, projetos estratégicos como Serra Azul já atingem mais de 80% de execução e devem começar a contribuir de forma relevante no segundo semestre.
Metais básicos ganham protagonismo
Embora o minério de ferro siga como principal motor da companhia, os chamados “metais para transição energética” ganham espaço.
Cobre: +20% ano contra ano no preço realizado
Níquel: queda nos preços, mas com reavaliação contábil
O cobre e o níquel são insumos fundamentais para baterias, veículos elétricos e infraestrutura elétrica. Essa diversificação fortalece a tese de longo prazo da companhia, reduzindo a dependência exclusiva do minério de ferro.
O segredo está nos custos: commodity vive de eficiência
Em empresas de commodities, custo é determinante. E a Vale mostrou disciplina.
Custo caixa C1 (extração): US$ 21,3 por tonelada
Preço médio do minério: cerca de US$ 100
Custo all-in sustentável: US$ 54,3
Quanto menor o custo, maior a geração de caixa quando os preços se mantêm elevados. E a empresa ainda avança em automação, com caminhões autônomos e otimização logística, o que pode reduzir ainda mais despesas operacionais nos próximos anos.
Lucro “estranho”? Entenda o efeito contábil
O lucro líquido reportado foi impactado por um impairment de US$ 3,5 bilhões na operação de metais básicos no Canadá, após revisão para baixo das premissas de preço de longo prazo do níquel.
Esse efeito é contábil e não representa saída de caixa. Ajustando esse impacto, o lucro recorrente ficaria próximo de US$ 5,8 bilhões, ainda superior ao ano anterior.
Esse detalhe é crucial para entender que o desempenho operacional segue robusto, mesmo com ajustes contábeis.
Endividamento baixo e caixa forte sustentam dividendos
Mesmo com capex próximo de US$ 5,5 bilhões no ano, a companhia encerrou 2025 com:
Dívida líquida / EBITDA ajustado: 0,7x
Prazo médio da dívida: 8,4 anos
Geração de caixa livre crescente
A empresa anunciou aproximadamente US$ 1,8 bilhão em dividendos adicionais, além de valores já pagos ao longo do ano.
Para quem investe via Bradespar (BRAP4), holding que detém participação relevante na Vale, o dividend yield foi ainda mais elevado, superando 13% em determinados momentos, com risco operacional semelhante.
O mercado ignorou o minério e focou no essencial
O que explica a valorização superior a 80%?
Produção recorde
Redução de custos
Forte geração de caixa
Dívida controlada
Dividendos consistentes
Diversificação em metais estratégicos
Mesmo com o minério lateralizado, os fundamentos falaram mais alto.
Vale (VALE3) ainda vale a pena agora?
Após a forte valorização, a ação já precifica boa parte das melhorias operacionais. Em empresas de commodities, o ciclo é determinante: comprar no topo pode comprometer retornos futuros.
Com a empresa financeiramente saudável e operacionalmente eficiente, a tese estrutural permanece forte. No entanto, o momento de entrada exige atenção ao ciclo do minério e às expectativas globais de demanda, especialmente da China.
A Vale mostrou que consegue gerar valor mesmo sem euforia na commodity. A dúvida agora é se o investidor encontrará uma nova janela de oportunidade ou se o mercado já antecipou o melhor cenário.
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