A Itaúsa (ITSA4) voltou ao centro das atenções após a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026. O desempenho foi sustentado principalmente pelo Itaú Unibanco, principal ativo da holding e responsável por mais de 90% de seu resultado recorrente.
Ao mesmo tempo, a diferença entre o valor de mercado da Itaúsa e o valor de suas participações permanece relevante. Pelas estimativas apresentadas, o chamado desconto de holding estaria próximo de 21,3% para ITSA4 e de aproximadamente 20,9% para ITSA3.
Esse desconto, somado à geração de caixa proveniente do Itaú e à perspectiva de crescimento dos dividendos, tornou novamente relevante uma pergunta recorrente entre investidores: comprar ITSA4 ainda oferece vantagem em relação a investir diretamente em ações do Itaú, como ITUB4?
A resposta depende não apenas do dividendo, mas da composição da holding, do desempenho das empresas investidas e do tamanho do desconto aplicado pelo mercado.
Itaú registra resultado recorde e sustenta lucro da Itaúsa
O principal motor do resultado continua sendo o Itaú Unibanco.
No segundo trimestre de 2026, conforme os números apresentados, o banco alcançou lucro líquido recorrente próximo de R$ 4,84 bilhões, com crescimento anual superior a 7%. Considerando outras métricas de lucro sem determinados ajustes, o resultado teria superado R$ 5 bilhões.
O desempenho reforça uma tendência observada nos últimos balanços do banco: expansão das receitas financeiras, maior geração de receitas com serviços, seguros e previdência e crescimento da carteira de crédito.
O produto bancário teria avançado aproximadamente 17,1%, enquanto o lucro recorrente continuou crescendo mesmo diante de provisões maiores.
Para a Itaúsa, isso é particularmente importante porque os dividendos e juros sobre capital próprio recebidos do Itaú representam uma parcela significativa do caixa utilizado para remunerar seus próprios acionistas.
Empresas não financeiras limitaram avanço do resultado
Apesar do desempenho do banco, as empresas não financeiras da carteira tiveram resultado mais irregular.
No conjunto, esse segmento teria registrado redução aproximada de 26,5% no resultado frente ao mesmo período do ano anterior, o que ajudou a explicar por que o crescimento consolidado da holding foi menor que o avanço observado no Itaú.
A Itaúsa possui investimentos em setores bastante diferentes, incluindo materiais de construção, infraestrutura, saneamento, energia, gás e bens de consumo.
Essa diversificação reduz a dependência exclusiva do setor financeiro, mas também adiciona riscos e necessidades de capital que não existem para quem compra diretamente ITUB4.
Dexco tem pressão sobre lucro
A Dexco foi um dos investimentos que apresentaram maior pressão.
Apesar da evolução de indicadores operacionais, o lucro líquido recorrente teria recuado de aproximadamente R$ 23 milhões para R$ 6 milhões, uma queda próxima de 74%.
Parte da deterioração foi associada à menor contribuição das operações relacionadas ao mercado de celulose.
A companhia, no entanto, registrou crescimento de receita e avanço de aproximadamente 7,4% no EBITDA ajustado recorrente.
Alpargatas confirma recuperação operacional
A Alpargatas apresentou uma dinâmica diferente.
O volume vendido avançou aproximadamente 9%, enquanto a receita cresceu cerca de 11,3%.
Com melhora operacional e expansão de margens, o lucro líquido recorrente teria registrado crescimento superior a 80%.
A alavancagem também permanece relativamente baixa, próxima de 0,5 vez, segundo os números considerados na análise.
Depois de atravessar um longo período de reestruturação e resultados mais fracos, a fabricante demonstra sinais mais consistentes de recuperação.
Motiva cresce, mas investimentos continuam elevados
A Motiva também apresentou expansão significativa.
A receita teria avançado aproximadamente 20,5%, enquanto o EBIT cresceu perto de 29,1%. Já o lucro líquido recorrente apresentou alta próxima de 67%.
O ponto de atenção permanece na necessidade de investimentos.
O capex avançou cerca de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto a relação entre dívida e EBITDA ficou próxima de 3,6 vezes.
Empresas de infraestrutura exigem grandes volumes de capital para expansão e manutenção dos ativos, o que pode limitar temporariamente a distribuição de dividendos.
Aegea cresce, mas ainda enfrenta prejuízos
O investimento em saneamento representa outra frente de crescimento da Itaúsa.
A operação apresentou aumento próximo de 15,2% na receita e aproximadamente 45,4% no EBITDA, indicando expansão operacional relevante.
O lucro, entretanto, permanece pressionado.
No semestre, o prejuízo informado ficou próximo de R$ 274 milhões, enquanto a alavancagem chegou a aproximadamente 3,87 vezes.
A estratégia nesse segmento é de longo prazo. O setor de saneamento exige investimentos elevados antes que novas concessões e ativos atinjam plena capacidade de geração de caixa.
Copa Energia aumenta rentabilidade
A Copa Energia apresentou desempenho mais estável.
Embora a receita tenha registrado pequena retração, o EBITDA cresceu aproximadamente 19,8%, beneficiado por uma estratégia comercial voltada à preservação das margens.
O lucro teria aumentado cerca de 17,2%, enquanto a alavancagem permaneceu controlada, em torno de 0,6 vez.
O resultado ajuda a equilibrar a carteira não financeira da holding.
NTS pesa negativamente, mas efeitos incluem fatores não recorrentes
A Nova Transportadora do Sudeste, a NTS, foi um dos principais pontos negativos.
A participação saiu de um lucro aproximado de R$ 45 milhões para prejuízo de R$ 68 milhões, de acordo com os números analisados.
Parte da piora foi relacionada a despesas financeiras provocadas pela marcação a mercado de instrumentos derivativos ligados a moedas estrangeiras.
Trata-se de um efeito predominantemente contábil e sem impacto imediato sobre o caixa.
Também foram registrados custos de rebalanceamento e uma comparação mais difícil com o segundo trimestre do ano anterior, período que havia sido beneficiado por recuperação extraordinária de créditos tributários.
Dívida cresce, mas alavancagem da Itaúsa permanece baixa
Outro número que chama atenção é o aumento do endividamento nominal da Itaúsa.
O avanço ocorreu principalmente após novos investimentos e aportes nas empresas da carteira.
Entretanto, quando analisada proporcionalmente à geração de caixa da holding, a dívida ainda permanece controlada.
A relação entre dívida bruta e proventos recebidos estaria próxima de apenas 0,3 vez, mantendo a companhia em posição financeira confortável.
Isso permite à Itaúsa continuar investindo em suas participadas sem comprometer, no curto prazo, a capacidade de distribuir recursos aos acionistas.
Desconto de ITSA4 chega a aproximadamente 21,3%
O chamado desconto de holding é um dos principais argumentos utilizados por quem compara ITSA4 com ITUB4.
A lógica é relativamente simples.
A Itaúsa possui participações em várias empresas. Somando o valor de mercado dessas participações, descontando dívidas e outras obrigações e comparando o resultado com o valor de mercado da própria holding, é possível estimar quanto o investidor está pagando abaixo do valor dos ativos.
Pelos cálculos apresentados:
ITSA4: desconto aproximado de 21,3%
ITSA3: desconto aproximado de 20,9%
O percentual está próximo da média histórica da companhia.
Entretanto, uma parcela desse desconto existe por razões estruturais.
Uma holding possui despesas administrativas próprias, custos financeiros e algumas ineficiências tributárias. Por isso, não é razoável esperar que ITSA4 seja negociada exatamente pelo valor integral de todos os ativos de sua carteira.
Reforma tributária pode mudar desconto da Itaúsa
Um fator que pode alterar essa relação ao longo dos próximos anos é a reforma tributária.
Atualmente, determinadas transferências de recursos dentro de grupos empresariais podem gerar custos tributários adicionais.
Caso mudanças previstas para transações entre empresas de um mesmo grupo reduzam essa ineficiência, a Itaúsa poderá reter parcela maior dos recursos recebidos de suas investidas.
Em um cenário desse tipo, a diferença estrutural entre o valor da holding e o de suas participações poderia diminuir.
Nas estimativas apresentadas, um desconto considerado estruturalmente aceitável poderia cair de cerca de 15% para algo próximo de 8%, embora esse cenário dependa da regulamentação definitiva e da forma como as novas regras tributárias serão implementadas.
ITSA4 ou ITUB4: onde está a principal diferença?
Investir em ITUB4 significa comprar diretamente participação no Itaú Unibanco.
Já quem compra ITSA4 recebe exposição indireta ao banco e, adicionalmente, participação em empresas como Dexco, Alpargatas, Motiva, Aegea, Copa Energia e NTS.
Como mais de 90% do resultado da holding ainda está associado ao Itaú, o comportamento das duas ações permanece bastante relacionado.
A diferença está principalmente no desconto de holding e no destino do capital.
O Itaú distribui recursos à Itaúsa, que utiliza parte para pagar dividendos aos acionistas e outra parcela para ampliar investimentos nas demais empresas do portfólio.
Por isso, comprar ITSA4 representa também apostar na capacidade de alocação de capital da holding.
Dividendos da Itaúsa permanecem entre principais atrativos
A distribuição de proventos continua sendo uma das características mais observadas em ITSA4.
A projeção apresentada para 2026 aponta para aproximadamente R$ 1,14 por ação em dividendos e juros sobre capital próprio.
Considerando os preços utilizados na análise, isso representaria um dividend yield próximo de 8,65%.
O valor é uma estimativa e pode variar de acordo com os resultados efetivamente apresentados pelas empresas investidas, decisões do conselho de administração e eventuais mudanças tributárias.
Como o Itaú continua aumentando seus lucros e distribuindo recursos para a holding, existe espaço para expansão dos proventos caso o desempenho operacional seja mantido.
ITSA4 segue como alternativa para exposição ao Itaú com desconto
O balanço reforça a posição peculiar da Itaúsa na Bolsa.
Por um lado, o investidor recebe exposição a um dos bancos mais lucrativos do país. Por outro, precisa acompanhar empresas de infraestrutura, saneamento, energia e indústria que ainda demandam volumes relevantes de investimento.
O atual desconto próximo de 21% cria uma margem adicional entre o valor da ação e o valor estimado das participações da holding.
Mas esse desconto não deve ser analisado isoladamente.
O crescimento do Itaú, a evolução das empresas não financeiras, o endividamento da Itaúsa, o ritmo de distribuição de dividendos e os efeitos da reforma tributária serão determinantes para saber se essa diferença poderá diminuir nos próximos anos.
Para quem acompanha ITSA4, portanto, o resultado recorde do Itaú é apenas uma parte da história. A outra está na capacidade da holding de transformar os dividendos recebidos do banco e os investimentos feitos nas demais empresas em crescimento consistente de valor para seus acionistas.
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