As ações da Marcopolo voltaram ao centro das atenções depois que o balanço do segundo trimestre de 2026 revelou uma combinação que desagradou ao mercado: a fabricante aumentou produção e receita, mas terminou o período com lucro menor e margens mais apertadas.
A reação atingiu principalmente POMO4, ação preferencial da companhia, que sofreu forte pressão após a divulgação dos resultados. O movimento reforçou as dúvidas sobre até onde pode ir a desaceleração da lucratividade da Marcopolo, principalmente em um cenário de juros elevados e custos maiores para as empresas de transporte.
Receita cresce, mas lucro da Marcopolo recua
A Marcopolo registrou receita operacional líquida de R$ 2,37 bilhões no 2T26, alta de aproximadamente 3% na comparação anual.
A produção consolidada também avançou, chegando a 4.105 unidades, crescimento de 8%. No Brasil, a fabricação aumentou cerca de 19,4%.
Apesar do aumento da atividade, o resultado final piorou.
O lucro líquido ficou em aproximadamente R$ 271,2 milhões, queda de 15,5% sobre o mesmo trimestre do ano anterior. O EBITDA atingiu cerca de R$ 338,6 milhões, enquanto a margem EBITDA recuou para aproximadamente 14,3%.
Foi justamente essa queda da rentabilidade que aumentou a preocupação dos investidores.
Micro-ônibus mudam o mix de vendas
Um dos principais motivos para a redução das margens foi a mudança no tipo de veículo vendido pela empresa.
A produção de micro-ônibus cresceu fortemente, impulsionada principalmente por entregas relacionadas a programas governamentais. Esse segmento ganhou peso relevante no faturamento da companhia.
Por outro lado, modelos rodoviários, normalmente associados a maior valor agregado e margens mais elevadas, perderam participação.
Na prática, a Marcopolo produziu e vendeu mais veículos, mas uma parcela maior das vendas ficou concentrada em produtos menos rentáveis.
Mesmo nesse cenário, a companhia manteve uma posição dominante no mercado brasileiro, com participação próxima de 48,3%.
Juros elevados dificultam renovação das frotas
Além do mix de produtos, o ambiente econômico também representa um desafio.
Ônibus são bens de alto valor e normalmente dependem de financiamento. Com os juros elevados, empresas de transporte encontram maior dificuldade para renovar suas frotas.
O aumento dos custos operacionais também pesa.
Combustível, manutenção e mão de obra representam despesas relevantes para empresas de transporte urbano e rodoviário. Quando esses custos sobem e as tarifas não acompanham no mesmo ritmo, novos investimentos podem ser adiados.
Esse cenário acaba afetando diretamente a demanda pelos veículos produzidos pela Marcopolo.
Operações internacionais também exigem atenção
A companhia possui operações importantes fora do Brasil, especialmente na Austrália, Argentina, México e África do Sul.
A Austrália continuou apresentando desempenho mais resiliente, enquanto outras operações enfrentaram um ambiente mais difícil.
Esse comportamento aumenta a importância da diversificação geográfica da empresa, mas também mostra que a desaceleração não está concentrada apenas no mercado brasileiro.
POMO4 está barata depois da queda?
A forte correção das ações fez os múltiplos da Marcopolo diminuírem significativamente.
Após o balanço, estimativas de mercado indicavam que POMO4 negociava próxima de 5 vezes o lucro projetado para 2026, nível considerado baixo quando comparado a períodos anteriores da companhia.
Esse desconto, porém, precisa ser analisado com cautela.
Se as projeções de lucro continuarem sendo revisadas para baixo, o múltiplo aparentemente barato pode deixar de ser tão atrativo.
Esse é um dos principais pontos observados pelo mercado atualmente: saber se a redução das margens é temporária ou representa o início de um período mais prolongado de rentabilidade menor.
Dividendos continuam no radar
Os dividendos também seguem como um dos principais atrativos de POMO4.
Algumas estimativas apontam para um dividend yield próximo de 10%, considerando resultados normalizados e uma política de distribuição mais próxima do padrão histórico.
O investidor, entretanto, não deve utilizar pagamentos extraordinários realizados anteriormente como referência automática para os próximos anos.
Dividendos dependem diretamente da geração de lucro e caixa. Caso os resultados continuem enfraquecendo, a capacidade de distribuição também pode diminuir.
Segundo semestre pode trazer melhora
Apesar das preocupações, existem fatores que podem favorecer a Marcopolo nos próximos meses.
Uma recuperação das vendas de ônibus rodoviários e de veículos com maior valor agregado poderia melhorar o mix de produtos e ajudar na recuperação das margens.
A idade elevada da frota brasileira também representa uma possível demanda reprimida para os próximos anos, já que empresas e governos precisarão substituir veículos mais antigos.
O problema é que essa renovação depende diretamente das condições de financiamento e da situação financeira dos operadores.
Queda de POMO4 coloca investidores diante de novo cenário
A Marcopolo continua sendo líder de mercado, mantém baixo endividamento e possui presença internacional relevante.
O balanço do 2T26, porém, mostrou que crescimento de produção e receita não são suficientes quando as margens estão diminuindo.
Por isso, os próximos resultados serão decisivos para POMO4.
O mercado deverá acompanhar principalmente a evolução das margens, o volume de ônibus rodoviários, a demanda doméstica, o desempenho internacional e a capacidade da companhia de sustentar lucros e dividendos.
A forte queda das ações tornou o valuation mais baixo, mas também mostrou que os investidores passaram a exigir sinais mais claros de estabilização antes de voltar a precificar um novo ciclo de crescimento.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não representa recomendação de compra ou venda de investimentos.
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