A Itaúsa voltou ao centro das atenções do mercado após uma sequência de movimentos relevantes envolvendo aquisições estratégicas, antecipação de dividendos e expectativas para 2026. O destaque recente ficou por conta do aumento de participação na Alpargatas (ALPA4), realizado em um momento de forte ruído de mercado.
No dia 22 de dezembro, quando as ações da Alpargatas sofreram pressão após uma campanha publicitária mal recebida, a Itaúsa aproveitou a queda para adquirir 16% adicionais do capital social, elevando sua participação total para aproximadamente 40% da companhia. A operação foi considerada estratégica justamente por ter ocorrido em um momento de desvalorização, permitindo a ampliação da posição a preços mais atrativos.
Esse tipo de movimento dificilmente seria possível em dias de negociação normal, já que uma compra dessa magnitude tenderia a impulsionar as cotações. Ao agir em um momento de estresse do mercado, a holding conseguiu absorver um volume relevante sem provocar distorções adicionais no preço.
Alpargatas: empresa cíclica, mas com sinais de recuperação
Embora o setor de varejo seja historicamente mais sensível ao ciclo econômico e à taxa de juros, a Alpargatas apresenta sinais de recuperação operacional após um período marcado por decisões estratégicas mais agressivas, incluindo aquisições que pressionaram resultados no passado.
No horizonte de dez anos, a ação acumula desempenho superior ao CDI e ao IPCA, mesmo após uma queda expressiva desde os picos históricos. A partir do fundo mais recente, a recuperação já supera 100%, acompanhada de melhora gradual nos resultados operacionais.
A aposta da Itaúsa parece considerar não apenas a normalização da empresa, mas também um possível cenário de queda de juros nos próximos anos, o que tende a favorecer companhias do setor de consumo.
Portfólio diversificado e ativos fora da Bolsa reforçam a tese da holding
Um dos principais diferenciais da Itaúsa é a composição do seu portfólio. Além das participações listadas, a holding controla ativos relevantes fora da Bolsa que apresentaram desempenho expressivo desde a aquisição:
NTS (Nova Transportadora do Sudeste): valorização acumulada próxima de 410%
Copa Energia: retorno superior a 200%
Aegea Saneamento: valorização acima de 100%
Esses ativos não refletem integralmente seu valor de mercado nas cotações da Itaúsa, o que contribui para a manutenção de um desconto holding estruturalmente elevado.
Desconto holding segue acima do razoável e embute prêmio relevante
Ao analisar o valor total das participações da holding — e não apenas a ação mais líquida — o desconto holding da Itaúsa permanece significativo:
ITSA4: desconto aproximado de 23,5%
ITSA3: desconto em torno de 21,7%
Considerando um desconto estrutural mais conservador, na faixa de 15%, ainda haveria um excedente de cerca de 8,5%, o que representa uma margem de segurança adicional ao investidor. Na prática, parte relevante do portfólio da Itaúsa estaria sendo adquirida “a custo zero” dentro da cotação atual.
A expectativa de reforma tributária, ao reduzir ineficiências fiscais típicas de holdings, também pode contribuir para uma redução gradual desse desconto ao longo do tempo.
IPO da Aegea Saneamento pode destravar valor relevante
Outro ponto no radar do mercado é a possibilidade de IPO da Aegea Saneamento, atualmente controlada pela Itaúsa. A empresa busca assessoria para a abertura de capital em um momento em que o setor vive forte ciclo de investimentos para atender ao marco legal do saneamento.
A abertura de capital teria como objetivo principal a captação de recursos para expansão, redução de endividamento e fortalecimento da estrutura financeira, e não necessariamente a venda de participação relevante por parte da Itaúsa. A tendência mais provável seria uma emissão primária de ações, com diluição controlada.
Estimativas de mercado apontam que a oferta poderia movimentar entre R$ 7 bilhões e R$ 10 bilhões, dependendo do percentual inicial colocado em free float, geralmente próximo de 20%. A operação teria potencial para destravar valor oculto no portfólio da holding e, indiretamente, reduzir ainda mais o desconto patrimonial da Itaúsa.
Dividendos da Itaúsa em 2026: projeção segue robusta
Apesar da antecipação parcial de dividendos em 2025, o que pode causar confusão na análise de curto prazo, o ponto central para o investidor é o resultado do exercício. Para 2026, a expectativa de mercado segue apontando para R$ 1,15 por ação em dividendos.
Esse valor deve ser considerado integralmente no cálculo de preço justo e preço teto, independentemente do calendário de pagamento. Utilizando um dividend yield alvo de 6%, o preço teto estimado ficaria próximo de:
R$ 19,10 por ação
Modelos mais sofisticados, como o Modelo de Gordon, podem indicar valores distintos, a depender das premissas de crescimento e custo de capital.
Potencial de valorização e consenso de mercado
Com base em projeções consolidadas até o fim de 2025, os preços-alvo indicam um potencial de valorização próximo de 15%, sem considerar ganhos adicionais provenientes de dividendos, destravamento de valor via IPO ou redução do desconto holding.
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