O início de 2026 entrou para a história da B3. Em poucas semanas, o Ibovespa superou com folga a marca de 180 mil pontos, acumulando uma alta expressiva logo em janeiro. O mais impressionante não foi apenas a valorização do índice, mas a intensidade do fluxo estrangeiro, que concentrou em poucas semanas quase três quartos de todo o capital externo que havia ingressado na Bolsa ao longo de 2025.
Esse movimento reacendeu uma dúvida clássica entre investidores: depois de uma alta tão forte, ainda existem ações baratas para investir ou o mercado ficou caro demais?
A resposta, olhando dados atualizados de 2026, é menos óbvia do que parece.
Fluxo estrangeiro recorde, mas Bolsa ainda pequena
Mesmo após o rali recente, a Bolsa brasileira continua relativamente pequena em termos globais. Movimentos de poucos bilhões de dólares já são suficientes para provocar fortes oscilações nos preços — tanto para cima quanto para baixo.
Em 2026, o ingresso acelerado de capital externo ocorreu em um ambiente em que:
O Brasil segue classificado como mercado emergente descontado em relação a pares globais
A diversificação internacional favorece países fora do eixo EUA–Europa
O valuation agregado da Bolsa, apesar da alta, não atingiu níveis historicamente esticados
O resultado é um mercado em bull market técnico, mas ainda longe dos excessos vistos em ciclos anteriores.
O Ibovespa está caro? Os números dizem que não
Mesmo com a valorização recente, o múltiplo preço/lucro médio do Ibovespa permanece próximo da média histórica, em torno de 11 a 12 vezes. Em ciclos anteriores de forte otimismo, esse indicador chegou a operar entre 15 e 18 vezes.
Isso significa que:
A Bolsa subiu mais pelo preço, mas ainda conta com crescimento de lucros projetado
Caso os resultados corporativos avancem nos próximos anos, há espaço para o índice continuar subindo sem necessariamente encarecer
Em termos simples: subir não é sinônimo de ficar caro, desde que os lucros acompanhem.
Onde o mercado ainda não chegou
Um dos pontos centrais de 2026 é a desconcentração da alta. Grande parte do rali recente ficou restrita a empresas de maior peso no índice, especialmente ligadas a commodities e bancos. Enquanto isso:
Small caps não acompanharam o movimento na mesma intensidade
Empresas de crescimento previsível ficaram esquecidas
Setores sensíveis ao ciclo de juros ainda não foram totalmente reprecificados
Esse descompasso explica por que ainda existem ações negociadas abaixo do valor intrínseco, mesmo com o índice em máxima histórica.
Ações que ainda negociam com desconto em 2026
Mesmo após a alta generalizada, alguns papéis continuam apresentando valuation atrativo, seja por fundamentos, geração de caixa ou crescimento estrutural.
Entre os destaques do mercado brasileiro em 2026 estão:
1. Petrobras
Mesmo após a forte valorização recente, a estatal segue com geração de caixa robusta, baixa alavancagem e valuation abaixo de grandes petroleiras globais. A ação deixou parte da margem de segurança, mas não pode ser considerada cara diante da capacidade de geração de fluxo de caixa e da relevância estratégica da companhia.
2. Klabin
O mercado ainda não incorporou totalmente a expansão esperada da geração de caixa até 2027, em um setor que passou por forte ajuste de preços. A companhia mantém diversificação de produtos, disciplina financeira e potencial de melhora significativa de resultados com a normalização do ciclo da celulose.
3. Suzano
Negociada a múltiplos descontados após um ciclo negativo do preço da celulose, a empresa permanece com posição dominante no setor, eficiência operacional elevada e potencial de valorização à medida que o mercado reprecifique o cenário de médio prazo para a commodity.
4. Vivara
Negociada a múltiplos historicamente baixos, mesmo apresentando ROE elevado, crescimento consistente do lucro líquido e um modelo de negócio resiliente, com forte controle de margens e expansão orgânica. O mercado ainda não precificou plenamente a capacidade da companhia de manter crescimento acima da média do varejo brasileiro.
5. Vulcabras
Apesar da recente mudança na política de dividendos, os fundamentos operacionais seguem sólidos. A companhia mantém elevada rentabilidade, marcas fortes e geração de caixa consistente. A reação negativa do mercado abriu espaço para um valuation mais atrativo em relação à qualidade do negócio.
6. Arezzo&Co
Ação negociada abaixo do valor patrimonial, mesmo com histórico de rentabilidade elevada em ciclos favoráveis ao consumo. O mercado ainda não precificou completamente os efeitos da recuperação gradual do varejo e da capacidade da empresa de gerar valor no longo prazo.
7. Positivo Tecnologia
Negociada com forte desconto em relação ao patrimônio líquido, mesmo apresentando lucro recorrente e modelo de negócios ajustado ao mercado doméstico. A baixa liquidez afasta parte dos investidores, mas o valuation reflete um nível de pessimismo que não acompanha os números operacionais.
Esses exemplos reforçam que nem toda alta do índice se traduz em alta uniforme das ações.
Small caps e o ciclo de juros: o próximo gatilho?
Historicamente, empresas de menor capitalização tendem a se beneficiar mais de ciclos de queda de juros, algo que começa a entrar no radar de 2026 em diante. Com grande parte do capital doméstico ainda concentrada em renda fixa, o deslocamento gradual para a renda variável pode favorecer justamente os papéis que ficaram para trás.
Esse movimento costuma ocorrer de forma lenta e seletiva, o que exige mais critério na escolha dos ativos.
O risco de achar que “tudo ficou caro”
Um dos erros mais comuns em bull markets é assumir que a alta do índice elimina oportunidades. Em ciclos anteriores, grande parte do retorno veio justamente de ações ignoradas no início do movimento, enquanto o investidor médio aguardava correções que nem sempre vieram.
O mercado brasileiro em 2026 mostra um cenário claro:
O fluxo estrangeiro foi intenso
O índice subiu forte
Mas o valuation médio ainda não entrou em zona de euforia
Isso cria um ambiente em que seletividade importa mais do que timing.
Ainda existem ações baratas na Bolsa em 2026?
Apesar do rali histórico impulsionado pelo capital estrangeiro, a Bolsa brasileira ainda não esgotou suas oportunidades. A alta foi concentrada, o valuation segue dentro da média e vários setores permanecem subavaliados.
Para quem busca investir em 2026, o cenário não é de compra indiscriminada, mas também não é de mercado excessivamente caro. A diferença está na filtragem: menos euforia, mais análise de fundamentos e foco em empresas que não acompanharam o índice.
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