As ações da Méliuz (CASH3) seguem entre os papéis mais pressionados da B3 em 2026. Desde o pico histórico registrado em 2021, o papel acumula uma desvalorização próxima de 95%, mesmo após uma série de mudanças estratégicas profundas e melhora operacional nos resultados mais recentes.
Enquanto o Ibovespa opera próximo de máximas históricas, impulsionado por fluxo estrangeiro e commodities, a CASH3 permanece negociada em patamares historicamente baixos, girando em torno de R$ 4, faixa próxima dos menores níveis ajustados por grupamentos já registrados pela companhia.
Esse descolamento em relação ao mercado reacende a principal dúvida entre investidores: a ação já caiu além do razoável ou ainda carrega riscos relevantes em 2026?
Da empresa de cashback à tese de Bitcoin por ação
O ponto central da reprecificação da Méliuz está na mudança completa do seu modelo de negócios. Após anos tentando se consolidar como uma plataforma de cashback com expansão para serviços financeiros, a companhia abandonou essa estratégia e passou a adotar uma tese inédita no mercado brasileiro: alocação do caixa majoritariamente em Bitcoin.
A empresa assumiu oficialmente como objetivo estratégico maximizar a quantidade de Bitcoin por ação ao longo do tempo, transformando-se, na prática, em uma empresa listada com exposição direta ao criptoativo.
Em 2026, a Méliuz já acumula mais de 600 bitcoins em caixa, contra pouco mais de 40 unidades no início de 2025. A ampliação da posição foi feita de forma acelerada, inclusive em momentos de alta do ativo digital, elevando o preço médio de aquisição para a faixa acima de US$ 100 mil por Bitcoin.
Com isso, o desempenho da CASH3 passou a ter correlação direta com a volatilidade do Bitcoin, ampliando riscos e também o potencial de assimetria.
Exposição ao Bitcoin: alavanca ou fragilidade?
A nova estratégia transformou o perfil de risco da companhia. Diferentemente de empresas operacionais tradicionais, parte relevante do valor da Méliuz hoje depende:
Da cotação do Bitcoin
Do ciclo de mercado cripto
Da capacidade de sustentar caixa e liquidez
Da percepção do mercado sobre essa tese híbrida
Em momentos de queda do Bitcoin, o valor implícito da empresa sofre pressão adicional, mesmo com resultados operacionais em melhora. Em contrapartida, ciclos de alta do criptoativo podem gerar reprecificação rápida da ação.
Esse fator explica, em grande parte, a alta volatilidade da CASH3 em 2026, mesmo com indicadores financeiros mais sólidos do que nos anos anteriores.
Resultados financeiros: virada operacional em andamento
Apesar das incertezas estratégicas, os números operacionais mostram uma virada relevante a partir de 2025, que se consolida em 2026.
A companhia:
Registrou receita trimestral recorde, superando R$ 120 milhões
Encerrrou 2025 com receita anual acima de R$ 320 milhões
Reverteu anos de prejuízo operacional e passou a gerar EBITDA positivo, acima de R$ 50 milhões no acumulado
Voltou ao lucro líquido, com resultado positivo na casa de R$ 15 milhões
Mantém estrutura sem endividamento, com caixa líquido
O core business de cashback segue representando a maior parte da receita, enquanto a vertical de serviços financeiros perdeu relevância após o encerramento de parcerias estratégicas. Em 2026, essa vertical representa menos de 10% da receita total.
Mesmo operando com margens ainda apertadas, a empresa conseguiu reduzir ineficiências e estabilizar custos em relação ao crescimento da receita.
Encerramento de parcerias e impacto limitado na receita
O fim do acordo comercial com instituições financeiras marcou o abandono definitivo da estratégia de banco digital. Em 2026, esse impacto já está praticamente absorvido nos números.
A perda de receitas recorrentes dessa frente não comprometeu a sustentabilidade do negócio principal, uma vez que a maior parte do faturamento segue concentrada no marketplace de cashback e publicidade transacional.
Com isso, o risco operacional passou a ser menos relevante do que o risco estratégico ligado à alocação em criptoativos.
Passivo tributário adiciona incerteza ao valuation
Outro ponto de atenção em 2026 é o auto de infração tributário relacionado a PIS e Cofins, referente a exercícios anteriores. O valor total atualizado gira em torno de R$ 30 milhões, entre principal, juros e multas.
Embora o montante não represente risco imediato de liquidez, ele adiciona incerteza ao valuation, especialmente para uma empresa que busca se posicionar como veículo de exposição ao Bitcoin, onde previsibilidade é um fator sensível.
Ação perto das mínimas: preço reflete excesso de pessimismo?
Tecnicamente, a CASH3 segue negociada próxima das regiões mais descontadas de sua história recente. Após múltiplos grupamentos, o papel opera pouco acima dos menores níveis ajustados já registrados.
O volume financeiro segue baixo, indicando pouca convicção compradora, mas também menor pressão vendedora em relação aos anos anteriores.
Esse cenário sugere que grande parte do risco já está precificado, mas a recuperação depende diretamente de dois fatores:
Continuidade da melhora operacional
Direção do mercado de Bitcoin em 2026
Sem esses gatilhos, o papel tende a permanecer lateralizado.
CASH3 em 2026: oportunidade assimétrica ou aposta de alto risco?
A Méliuz deixou de ser uma tese tradicional de crescimento para se tornar uma small cap altamente assimétrica, com comportamento híbrido entre ação e criptoativo.
Para investidores que acreditam em ciclos positivos do Bitcoin e toleram volatilidade elevada, a CASH3 pode representar uma exposição indireta interessante, com valor de mercado ainda comprimido.
Por outro lado, para perfis mais conservadores, a imprevisibilidade da estratégia e o histórico recente da ação seguem como alertas relevantes.
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