Uma movimentação incomum no mercado financeiro chamou a atenção de investidores atentos. Poucas horas antes da divulgação de um dos fatos relevantes mais importantes do ano no setor de petróleo, um fundo institucional realizou a compra de mais de R$ 90 milhões em ações da Brava Energia, utilizando a BGC Liquidez, corretora tradicionalmente associada a grandes players institucionais.
A operação ocorreu no dia 15 de janeiro e antecedeu, por poucas horas, o anúncio oficial da aquisição de 50% do campo de Tartaruga Verde, ativo offshore altamente produtivo localizado na Bacia de Campos. O timing da operação levantou questionamentos no mercado e reacendeu o debate sobre assimetria de informação e valuation no setor de óleo e gás.
Aquisição bilionária considerada “barata” pelo mercado especializado
A Brava anunciou a compra de 50% do campo de Tartaruga Verde, anteriormente pertencente à Petronas, por US$ 450 milhões. O pagamento foi estruturado da seguinte forma:
- US$ 350 milhões no fechamento do contrato
- US$ 50 milhões como entrada inicial
- Duas parcelas futuras de US$ 25 milhões
O ponto que mais chamou atenção dos analistas foi o preço. Em agosto de 2024, a própria Petronas havia contratado o Bank of America para tentar vender essa mesma participação por US$ 1 bilhão. Ou seja, a Brava adquiriu o ativo por menos da metade do valor inicialmente buscado no mercado.
Produção robusta e geração imediata de caixa
O campo de Tartaruga Verde produz atualmente cerca de 55 mil barris de petróleo por dia. Com a aquisição de 50%, a Brava passa a incorporar aproximadamente 27,5 mil barris/dia à sua produção.
Por se tratar de um campo maduro e já em operação, a geração de caixa é imediata. Analistas destacam que, diferentemente de projetos exploratórios, o ativo já entra no balanço gerando EBITDA relevante desde o primeiro dia, o que pode inclusive contribuir para a redução da alavancagem financeira da companhia ao longo do tempo.
Comparação com a Recôncavo escancara a assimetria
A aquisição gerou comparações diretas com a Recôncavo Energia, outra empresa do setor bastante acompanhada pelo mercado.
Recôncavo Energia
- Produção: entre 25 e 30 mil barris/dia
- Valor de mercado: cerca de R$ 3,5 bilhões
- Dívida líquida: aproximadamente R$ 1,5 bilhão
- EV estimado: acima de R$ 4,6 bilhões, podendo superar R$ 5 bilhões com novos passivos
Brava (aquisição Tartaruga Verde)
- Produção adquirida: 27,5 mil barris/dia
- Valor pago: cerca de R$ 2,4 bilhões (ao câmbio atual)
Na prática, a Brava adquiriu uma produção equivalente por aproximadamente 55% menos, reforçando a leitura de que o ativo foi comprado a um preço extremamente descontado.
Brava pode ultrapassar 120 mil barris por dia
Antes da aquisição, a Brava registrou produção média anual próxima de 81 mil barris/dia, com picos de até 91 mil barris/dia em trimestres sem paradas operacionais.
Com a incorporação de Tartaruga Verde, a companhia pode alcançar uma produção consolidada entre:
- 110 mil barris/dia, em cenário conservador
- 120 mil barris/dia, em cenário otimista
Esse patamar aproxima a Brava de empresas maiores do setor, mas com um valor de mercado ainda significativamente menor, hoje próximo de R$ 8 bilhões, o que tem alimentado discussões sobre reprecificação do papel.
Mercado reage com cautela, mas leitura de longo prazo é positiva
Apesar do caráter estratégico da aquisição, as ações da Brava chegaram a recuar no pregão seguinte ao anúncio. O movimento foi atribuído ao receio inicial do mercado com aumento de alavancagem e à frustração de investidores que aguardavam uma venda de ativos de gás.
No entanto, a leitura detalhada do negócio mostra que a Brava trocou uma possível venda de cerca de 19 a 20 mil barris/dia por uma aquisição de quase 28 mil barris/dia, mantendo o mesmo desembolso financeiro o que, na prática, representa um ganho líquido de produção “sem custo adicional”.
Mudança de gestão reforça tese de crescimento via aquisições
Outro fator relevante é a recente mudança no comando da companhia, com a chegada de um CEO mais focado em fusões e aquisições (M&A). Investidores institucionais enxergam a nova gestão como mais agressiva na captura de oportunidades assimétricas, especialmente em ativos maduros e geradores de caixa.
Há ainda expectativa de otimização do portfólio, com possíveis vendas seletivas de campos menos estratégicos no futuro, o que poderia acelerar a desalavancagem.
Compra institucional reforça sinalização de valor
A compra expressiva via BGC Liquidez, horas antes do fato relevante, reforçou a percepção de que investidores profissionais já vinham antecipando a magnitude do negócio. No mercado, cresce a leitura de que o papel da Brava pode não refletir, neste momento, o real valor dos ativos adquiridos.
Com petróleo próximo de US$ 60, analistas apontam que, em um cenário de estresse geopolítico ou alta da commodity, a geração de caixa do campo pode se tornar ainda mais relevante.
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