A Axia Energia, antiga Eletrobras, divulgou os resultados do terceiro trimestre de 2025 mostrando uma companhia em plena transformação estrutural. O período foi marcado por forte geração operacional de caixa, distribuição expressiva de dividendos e avanço na estratégia de foco em geração renovável e transmissão. Em contrapartida, eventos contábeis extraordinários e fatores operacionais levaram a um prejuízo líquido relevante no acumulado do ano, reacendendo discussões sobre riscos e execução da nova estratégia.
| Indicador | 3T25 | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita operacional líquida | R$ 9,9 bilhões | -4,8% |
| EBITDA ajustado | R$ 6,4 bilhões | -5,8% |
| Lucro líquido ajustado | R$ 2,2 bilhões | -68% |
| Prejuízo líquido contábil (9M25) | R$ 5,4 bilhões | — |
| Dividendos anunciados no trimestre | R$ 4,3 bilhões | — |
| Dividendos pagos em 2025 | R$ 8,3 bilhões | — |
| Investimentos (Capex) | R$ 2,7 bilhões | +57% |
| Dívida bruta consolidada | R$ 70,8 bilhões | -6,3% |
| Alavancagem (Dívida/Capital Total) | 28% | +4 p.p. |
Virada para energia 100% renovável marca nova fase
O principal marco estratégico do trimestre foi a conclusão da venda da última usina termelétrica do portfólio, encerrando de vez a exposição da companhia a ativos fósseis. Com isso, a Axia passa a operar exclusivamente com fontes renováveis, reforçando o alinhamento com metas ambientais e reduzindo riscos regulatórios e de volatilidade de custos energéticos.
A mudança não é apenas simbólica. Ela redefine o perfil de risco da empresa e fortalece sua posição no debate sobre transição energética no Brasil.
Faxina corporativa reduz riscos e simplifica estrutura
A transformação do portfólio veio acompanhada de uma ampla reorganização societária. A empresa se desfez de participações consideradas complexas e de alto risco, incluindo ativos com obrigações futuras relevantes. Mais do que levantar caixa, a estratégia teve como foco eliminar passivos e incertezas que pressionavam o balanço e dificultavam a previsibilidade de resultados.
Como efeito direto dessa simplificação, a companhia passou a operar com menos participações minoritárias, menor complexidade administrativa e foco absoluto em geração renovável e transmissão.
Eficiência operacional começa a aparecer
Os efeitos da reestruturação já surgem nas despesas operacionais. Houve redução relevante nos custos com pessoal, materiais e serviços, mesmo após ajustes para excluir ativos vendidos. A leitura do trimestre indica uma estrutura mais enxuta e eficiente, com potencial de ganhos recorrentes de margem nos próximos períodos.
Transmissão se consolida como motor de crescimento
Se por um lado a Axia reduziu seu escopo operacional, por outro acelerou fortemente o crescimento em transmissão. A companhia foi destaque em leilões recentes, arrematando novos lotes que ampliam sua base de receitas reguladas.
O plano de expansão prevê R$ 17,4 bilhões em investimentos nos próximos anos, com potencial de adicionar R$ 2,4 bilhões em receita anual previsível após a conclusão dos projetos. Esse movimento posiciona a transmissão como o principal vetor de crescimento de longo prazo da empresa.
Dividendos bilionários reforçam atratividade ao acionista
Mesmo em meio à reorganização, a política de remuneração ao acionista foi agressiva. Apenas no terceiro trimestre, a empresa anunciou R$ 4,3 bilhões em dividendos, elevando o total distribuído em 2025 para R$ 8,3 bilhões.
O volume expressivo indica confiança da gestão na geração de caixa operacional e na sustentabilidade financeira do novo modelo de negócios.
Prejuízo contábil distorce leitura do resultado
Apesar do forte desempenho operacional, o balanço mostra um prejuízo líquido contábil de R$ 5,4 bilhões no acumulado de nove meses. O resultado negativo não reflete deterioração do core business, mas sim ajustes extraordinários.
O principal impacto veio do reconhecimento de perdas contábeis relacionadas à venda de ativos complexos, refletindo a diferença entre valores registrados e preços efetivos de transação. Além disso, a base de comparação com 2024 foi prejudicada pela ausência de ganhos regulatórios extraordinários que haviam inflado o resultado no ano anterior.
Receita pressionada e cenário hidrológico desfavorável
A receita operacional líquida recuou em relação ao ano anterior, principalmente pela saída de ativos vendidos e por fatores não recorrentes. Outro ponto relevante foi o cenário hidrológico adverso.
Com um GSF próximo de 69%, a empresa precisou adquirir energia no mercado para honrar contratos, pressionando margens e resultados no curto prazo. Trata-se de um risco estrutural do setor hidrelétrico, que permanece no radar.
Dívida menor, mas alavancagem maior
A dívida bruta consolidada apresentou queda, evidenciando disciplina financeira. No entanto, o índice de alavancagem aumentou, reflexo direto da redução do capital contábil após os ajustes extraordinários. Embora não indique problema imediato de solvência, o indicador exige acompanhamento.
Alerta operacional com ativo recém-adquirido
Entre os pontos de atenção do trimestre, destaca-se um problema estrutural identificado na usina de Colíder, adquirida recentemente. Falhas na estrutura exigiram medidas emergenciais, redução do nível do reservatório e operação parcial do ativo.
Apesar de a empresa afirmar que a situação está sob controle, o episódio levanta dúvidas sobre custos adicionais e riscos operacionais futuros.
Desafios que definirão a próxima fase
Com a reestruturação praticamente concluída, a Axia entra agora na fase de entrega. Os principais desafios passam pela execução do plano bilionário de transmissão, integração de ativos adquiridos, controle de custos e adaptação a um ambiente regulatório em transformação.
O 3T25 deixa claro que a empresa saiu de um modelo complexo e arriscado para outro mais focado, previsível e alinhado à transição energética. O sucesso dessa estratégia dependerá, daqui para frente, menos de ajustes contábeis e mais da capacidade de execução consistente.
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