A forte valorização das ações da Axia Energia (antiga Eletrobras) reacendeu o debate entre investidores: o papel ficou caro ou ainda há espaço para novas altas? Após saltar cerca de 80% ao longo de 2025 e acumular valorização adicional superior a 26% em 2026 no caso de AXIA6, o mercado passou a questionar se o preço atual reflete totalmente a transformação operacional da companhia ou se ainda há gatilhos relevantes no horizonte.
A resposta passa por análise de múltiplos, estrutura de capital, eficiência operacional, saída do sistema de cotas e, principalmente, pelo impacto estrutural do aumento da demanda por energia no Brasil.
Valuation: AXIA3 está realmente cara?
Olhar apenas o preço nominal não é suficiente para definir se uma ação está cara ou barata. No setor elétrico, um dos principais indicadores é o múltiplo Preço/Valor Patrimonial (P/VPA).
Atualmente, AXIA negocia próxima de 1,5 vez o valor patrimonial, patamar significativamente acima dos níveis de 0,7x–0,8x observados há cerca de um ano. No entanto, aquele desconto refletia distorções e incertezas no pós-privatização. A normalização do múltiplo acompanha a melhora estrutural da companhia.
Comparando com pares do setor, a Axia não negocia com prêmio excessivo. Há elétricas operando com múltiplos superiores, o que indica que o papel não está esticado em termos relativos.
Outro indicador relevante é a TIR real (Taxa Interna de Retorno ajustada à inflação) das concessões. A Axia apresenta uma das maiores TIRs reais do setor, reflexo da reprecificação gradual de sua energia e do potencial de ganhos adicionais até 2027.
Estrutura de capital: alavancagem sob controle
A empresa opera com alavancagem ao redor de 2,4x dívida líquida/EBITDA, nível considerado confortável para o setor elétrico. Esse patamar garante flexibilidade para:
Reduzir passivos históricos
Realizar desinvestimentos estratégicos
Distribuir dividendos
Investir em expansão e modernização
A melhora do balanço é parte essencial da tese de reprecificação da companhia.
Ganhos estruturais ainda por vir
1. Simplificação societária
A Axia ainda carrega uma estrutura herdada do período estatal:
74 SPEs
43 clusters
25 participações minoritárias
A estratégia envolve venda de ativos não estratégicos e foco em projetos com maior retorno. A simplificação tende a gerar caixa e melhorar margens.
2. Redução dos empréstimos compulsórios
Logo após a privatização, o estoque de empréstimos compulsórios girava em torno de R$ 26 bilhões. Esse valor já foi reduzido para cerca de R$ 11,7 bilhões, representando forte avanço na limpeza do balanço.
A eliminação completa desse passivo tende a aliviar despesas financeiras e melhorar o lucro líquido recorrente.
3. Saída definitiva do sistema de cotas até 2027
Um dos maiores gatilhos da tese é o fim do sistema de cotas.
Atualmente:
Preço médio no Mercado Livre: ~R$ 325/MW
Preço no sistema de cotas: ~R$ 65/MW
Diferença: R$ 260 por MW
A empresa está saindo gradualmente do sistema (20% ao ano) e, a partir de 2028, 100% da energia será vendida a preço de mercado.
Estimativas indicam impacto acumulado próximo de R$ 6 bilhões adicionais no resultado entre 2026 e 2027, apenas com essa transição.
Energia, IA e data centers: o vento estrutural a favor
O crescimento da inteligência artificial e da infraestrutura de dados aumenta exponencialmente a demanda por energia elétrica.
O Brasil possui vantagens competitivas importantes:
Matriz predominantemente hidrelétrica
Energia renovável e limpa
Custo inferior ao de mercados desenvolvidos
Esse cenário fortalece o país como potencial hub de data centers. E a Axia é a elétrica com maior volume de energia descontratada, ou seja, com mais capacidade disponível para negociar em um ambiente de preços crescentes.
Migração para o Novo Mercado: mais governança, mais liquidez
A proposta de unificação das ações AXIA3, AXIA5 e AXIA6 em uma única classe ON no Novo Mercado da B3 foi recebida de forma positiva pelo mercado.
A migração:
Eleva o padrão de governança
Aumenta liquidez
Reduz complexidade societária
Pode atrair novos investidores institucionais
No curto prazo, pode haver volatilidade devido à relação de troca das ações preferenciais, mas estruturalmente o movimento fortalece a tese.
Dividendos 2026: renda segue atrativa
Apesar do P/L ainda refletir efeitos contábeis de ajustes e heranças do passado, o mercado precifica a geração futura de caixa.
Para 2026, a estimativa de Dividend Yield gira entre 7,6% e 7,8%, patamar competitivo dentro do setor elétrico.
Além disso, a melhora operacional tende a sustentar crescimento gradual dos proventos ao longo dos próximos anos.
Tabela-resumo: Axia em números
| Indicador | Situação Atual |
|---|---|
| Valorização em 2025 | ~+80% |
| Alta em 2026 (AXIA6) | +26% |
| P/VPA | ~1,5x |
| Dívida Líquida/EBITDA | ~2,4x |
| Estoque empréstimos compulsórios | ~R$ 11,7 bi |
| Diferença mercado livre vs cotas | R$ 260/MW |
| Dividend Yield estimado 2026 | 7,6%–7,8% |
| Preço-alvo médio estimado | ~R$ 83 |
Subiu demais? O que fazer agora
A valorização foi agressiva e o potencial de alta no curto prazo parece mais limitado do que há um ano. O preço já se aproxima do consenso de preço-alvo.
No entanto, estruturalmente:
A empresa ainda está em processo de transformação
A saída do sistema de cotas ainda não terminou
A simplificação societária segue em andamento
A demanda estrutural por energia tende a crescer
Para quem já possui posição, o cenário favorece manutenção, com possível ajuste de peso na carteira caso haja desenquadramento.
Para quem deseja entrar, a estratégia de compras parciais pode reduzir risco de entrada em momento de euforia.
AXIA3 e AXIA6 já entregaram forte valorização, mas os fundamentos indicam que a tese não está esgotada. A empresa ainda possui importantes catalisadores até 2027, especialmente ligados à reprecificação da energia e à eficiência operacional.
O rali reduziu o desconto, mas não eliminou o potencial estrutural. O debate deixou de ser “ação barata” e passou a ser “ação ainda eficiente e com crescimento previsível”.
E no setor elétrico, previsibilidade costuma valer prêmio.
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