Em um cenário de juros ainda elevados, crédito restrito e crescimento econômico moderado, parte relevante da Bolsa brasileira segue pressionada. Setores considerados arriscados, como varejo e empresas de turnaround operacional, tornaram-se o “patinho feio” do mercado.
Mesmo assim, algumas dessas companhias aparecem hoje entre as ações mais baratas da Bolsa, com múltiplos comprimidos, EV/EBIT em mínimas históricas e relação entre valor de mercado e patrimônio líquido próxima de 1.
A análise considera principalmente indicadores como EV/EBIT, geração de caixa operacional e book-to-market — métricas que historicamente sinalizam assimetria positiva quando bem combinadas.
A seguir, cinco empresas que o mercado praticamente desistiu, mas que aparecem entre as mais descontadas de 2026.
O varejo: o setor mais temido da Bolsa
O setor de varejo carrega um histórico de forte volatilidade e casos emblemáticos de destruição de valor, como:
Lojas Americanas
Ricardo Eletro
Mappin
O problema estrutural do setor envolve dois fatores centrais:
1. Margens líquidas extremamente apertadas
Pequenas oscilações de receita podem transformar lucro em prejuízo rapidamente.
2. Alta necessidade de capital
Parcelamentos longos pressionam o fluxo de caixa e expõem as empresas à inflação e ao custo do crédito.
Ainda assim, o próprio histórico mostra que o varejo pode gerar retornos extraordinários quando comprado nos momentos certos. A Magazine Luiza já acumulou valorização superior a 57.000% na década passada em seu ciclo de expansão.
Hoje, três empresas do setor aparecem entre as mais descontadas do mercado.
1. Lojas Renner (LREN3)
A Lojas Renner negocia atualmente com um dos menores níveis históricos de EV/EBIT desde que há série disponível.
Pontos relevantes:
EV/EBIT em mínima de múltiplos recentes
Forte geração de caixa operacional
Estrutura de capital mais sólida que concorrentes
Baixa alavancagem relativa ao setor
A compressão do múltiplo indica que o mercado precifica crescimento modesto ou risco elevado, abrindo espaço para reprecificação caso a rentabilidade normalize.
2. C&A Brasil (CEAB3)
A C&A negocia próxima ao seu patrimônio líquido, com relação valor de mercado x patrimônio bastante comprimida.
Destaques:
EV/EBIT abaixo da média dos últimos 4–5 anos
Book-to-market próximo de 1
Estrutura operacional em ajuste
Esse tipo de precificação indica que o mercado praticamente não atribui prêmio à operação futura.
3. Grupo Mateus (GMAT3)
Desde o IPO em 2020, o Grupo Mateus atravessa seu menor patamar de EV/EBIT.
Números relevantes:
Desvalorização superior a 30% desde os picos
Cotação próxima de R$ 5,60
EV/EBIT no menor nível desde abertura de capital
O mercado precifica desaceleração de crescimento, mas a companhia segue com expansão regional relevante no Norte e Nordeste.
Estratégia das ações mais baratas da Bolsa
Historicamente, carteiras compostas pelas empresas com menores múltiplos apresentaram retornos expressivos.
Entre 2004 e 2026:
Retorno acumulado superior a 3.200%
Ibovespa no mesmo período: aproximadamente 620%
Retorno médio anual estimado: 17% ao ano vs. 9% do índice
A estratégia não acerta todas as empresas, mas estatisticamente:
Erra metade
Quando acerta, os ganhos superam amplamente as perdas
4. Brava Energia (BRAV3)
Criada a partir da fusão entre Enauta e 3R Petroleum em 2024, a Brava Energia enfrenta desafios operacionais em campos offshore.
Cenário recente:
Queda superior a 60% desde a máxima histórica de 2022
Pressões operacionais em Papa Terra (Bacia de Campos)
EV/EBIT atrativo com earning yield estimado acima de 13%
Apesar das dificuldades pós-fusão, os múltiplos indicam precificação bastante descontada frente à geração potencial de caixa.
5. Valid (VLID3)
A Valid sofreu com:
Queda de lucro de aproximadamente 30%
Pressão na unidade de meios de pagamento
Redução nas renovações de CNHs após ampliação da validade para 10 anos
Ainda assim:
Indicadores atuais:
Book-to-market próximo de 1
Earning yield atrativo
Negociação próxima ao valor patrimonial
O mercado precifica estagnação estrutural, mas a diversificação da companhia pode suavizar os impactos.
Risco elevado, potencial elevado
Empresas em setores mal vistos tendem a negociar com desconto estrutural. A diferença entre prejuízo e oportunidade costuma estar na análise fria dos números.
O varejo exige precisão. Petróleo exige execução operacional. Tecnologia exige adaptação estrutural.
Mas quando múltiplos atingem mínimas históricas e o valor de mercado se aproxima do patrimônio líquido, o potencial de reprecificação aumenta.
Em 2026, parte das ações mais baratas da Bolsa está justamente onde o medo é maior — e é nesse tipo de ambiente que assimetrias costumam nascer.
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