A forte valorização recente da Bolsa brasileira voltou a levantar uma dúvida entre investidores: ainda existem ações descontadas depois da alta do mercado?
A resposta exige cuidado. Uma ação não se torna automaticamente cara porque o Ibovespa avançou, da mesma forma que uma queda na cotação não significa necessariamente oportunidade.
O ponto central está nos fundamentos de cada companhia. Nesse cenário, Porto (PSSA3), Unifique (FIQE3), Sanepar (SAPR11) e Bradesco (BBDC3/BBDC4) apresentam características que ajudam a explicar por que continuam no radar do mercado, apesar de riscos importantes.
Porto tem negócio forte, mas Porto Bank virou ponto de atenção
A Porto fechou o segundo trimestre com lucro líquido consolidado de R$ 879,4 milhões e ROAE de 22,1%, números que mostram a força do grupo.
O ponto mais delicado apareceu na Porto Bank. A vertical registrou lucro líquido de R$ 137,8 milhões e ROAE de 16,3% no trimestre, abaixo da rentabilidade observada anteriormente.
O desempenho bancário merece acompanhamento especialmente em um cenário de crédito mais difícil para as famílias.
Por outro lado, a diversificação entre seguros, saúde, serviços e produtos financeiros reduz a dependência da companhia de apenas uma operação.
O que acompanhar em PSSA3
A evolução da inadimplência e da rentabilidade da Porto Bank será determinante para avaliar se a pressão observada é temporária ou se poderá limitar o crescimento consolidado do grupo.
Unifique cresce mais de 20%, mas despesas pressionam margens
A Unifique continua apresentando forte expansão.
No segundo trimestre, a receita líquida chegou a aproximadamente R$ 345 milhões, crescimento de 21% na comparação anual. O EBITDA ajustado alcançou R$ 169 milhões, alta de 18%.
O problema apareceu na rentabilidade.
A margem EBITDA ficou em 49%, enquanto o lucro líquido de R$ 46 milhões foi pressionado principalmente pelo resultado financeiro negativo.
A companhia também segue acelerando sua operação móvel: a base de acessos praticamente dobrou em um ano, chegando a 338 mil clientes.
Para uma empresa em expansão, o desafio passa a ser crescer sem permitir que despesas operacionais e financeiras consumam parcela crescente dos resultados.
Sanepar teve prejuízo, mas resultado extraordinário distorce balanço
A Sanepar apresentou um dos balanços mais difíceis de interpretar.
A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 505,2 milhões no segundo trimestre, contra lucro de R$ 263,8 milhões um ano antes.
O número, entretanto, foi fortemente afetado pelas provisões relacionadas aos precatórios.
Segundo análise do BB Investimentos, essas provisões somaram quase R$ 1 bilhão, enquanto a operação apresentou crescimento de receita, volumes de água e esgoto e manutenção dos investimentos.
A própria companhia mantém os resultados do 2T26 disponíveis em sua área de Relações com Investidores.
O caso mostra por que analisar apenas o lucro líquido pode levar a conclusões incompletas.
Bradesco recupera lucro, mas risco de crédito continua no radar
O Bradesco talvez reúna o contraste mais evidente da lista.
O banco alcançou lucro líquido recorrente de aproximadamente R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre, avanço de 16,2% em um ano. O ROAE chegou a 16,2%.
Ao mesmo tempo, a inadimplência acima de 90 dias avançou para 4,3%, contra 4,2% no trimestre anterior e 4,1% um ano antes.
Outro fator de atenção surgiu com a recuperação judicial do Grupo Casas Bahia. A exposição atribuída ao Bradesco, considerando também o Banco Digio, chega a aproximadamente R$ 4,78 bilhões.
Isso não significa que todo esse valor será perdido, mas adiciona uma variável de risco que o investidor precisa acompanhar.
Bolsa em alta não elimina oportunidades
O avanço do Ibovespa pode diminuir a quantidade de empresas negociadas com grandes descontos, mas não elimina completamente as assimetrias.
Porto, Unifique, Sanepar e Bradesco mostram situações diferentes: negócios rentáveis enfrentando deterioração pontual, empresas crescendo com pressão de despesas ou balanços impactados por eventos extraordinários.
Por isso, avaliar uma ação apenas pela pontuação do Ibovespa pode ser insuficiente.
Mais importante é observar lucros, geração de caixa, endividamento, qualidade do crédito, capacidade de crescimento e preço pago pelo ativo.
A existência de desconto também não garante valorização futura. Cada companhia possui riscos próprios e exige análise compatível com o perfil e a estratégia de cada investidor.
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