O acordo contempla operações nacionais e internacionais e foi celebrado sem uma disputa convencional de preços. Segundo o banco, a contratação direta ocorreu por inviabilidade de competição, uma vez que a maior parte dos serviços demandados estaria sujeita ao monopólio postal exercido pelos Correios.
A justificativa legal, entretanto, não encerrou os questionamentos. O principal ponto levantado por investidores e especialistas não é apenas a possibilidade jurídica da contratação, mas a falta de informações detalhadas que permitam avaliar se o valor negociado é economicamente vantajoso.
Em um ambiente no qual bancos reduzem correspondências físicas, ampliam aplicativos e digitalizam o relacionamento com os clientes, um contrato bilionário de serviços postais naturalmente desperta dúvidas sobre custos, eficiência e governança.
Isso não significa que o Banco do Brasil poderia eliminar completamente essas despesas. A instituição ainda precisa enviar cartões, documentos, notificações, equipamentos e correspondências a clientes espalhados por milhares de municípios. O debate está concentrado na dimensão do contrato e na transparência dos critérios usados para determinar o preço.
O contrato representa quanto por ano?
Dividindo o valor máximo de R$ 2,307 bilhões pelo prazo de cinco anos, o custo médio potencial seria de aproximadamente R$ 461,40 milhões por ano.
| Informação | Valor aproximado |
| Valor total do contrato | R$ 2,31 bilhões |
| Duração | 5 anos |
| Custo médio por ano | R$ 461,40 milhões |
| Custo médio por mês | R$ 38,45 milhões |
| Custo médio por dia | R$ 1,26 milhão |
O valor representa um limite contratual, e não necessariamente um desembolso imediato ou integral. Os pagamentos devem ocorrer conforme a utilização dos serviços e as condições estabelecidas no acordo.
Também é incorreto comparar os R$ 2,31 bilhões integrais com apenas um ano de lucro do banco, pois a despesa está distribuída por cinco anos. A comparação mais adequada seria entre o custo anual estimado e o resultado anual da instituição.
Ainda assim, cerca de R$ 461 milhões por ano não é uma quantia irrelevante. A cifra ganha importância porque o Banco do Brasil atravessa um período de rentabilidade menor, aumento das provisões e pressão sobre sua carteira de crédito.
Lucro do Banco do Brasil caiu mais de 50%
O principal problema para BBAS3 atualmente não é o contrato com os Correios, mas a piora dos resultados operacionais.
No primeiro trimestre de 2026, o Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de aproximadamente R$ 3,4 bilhões. O resultado representou queda de 53,5% em relação ao mesmo período do ano anterior e recuo de 40,2% na comparação com o quarto trimestre de 2025.
A rentabilidade sobre o patrimônio líquido, medida pelo ROE, ficou próxima de 7,3%, patamar considerado baixo para um grande banco brasileiro. A deterioração está relacionada principalmente ao aumento da inadimplência, às provisões para perdas e aos problemas na carteira do agronegócio.
O desempenho ficou muito distante dos níveis apresentados pelo banco durante o período de lucros recordes. Em 2025, o lucro ajustado havia caído para aproximadamente R$ 20,7 bilhões, depois de alcançar R$ 37,9 bilhões em 2024. Para 2026, a administração inicialmente projetou lucro entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, mas os números do primeiro trimestre elevaram as dúvidas sobre a capacidade de cumprir essa estimativa.
BBAS3 está realmente barata?
As ações BBAS3 negociavam próximas de R$ 20 no início de julho, depois de acumularem uma queda expressiva desde as máximas recentes. A desvalorização acompanhou a redução do lucro, o aumento do risco de crédito e a piora das expectativas para os dividendos.
Com a ação perto de R$ 19,98, alguns indicadores mostravam aproximadamente:
| Indicador de BBAS3 | Valor aproximado |
| Cotação | R$ 19,98 |
| P/L | Próximo de 9 vezes |
| P/VP | Próximo de 0,59 vez |
| Dividend yield recente | Entre 2,7% e 2,8% |
| ROE recente | Próximo de 7% |
Os indicadores podem mudar diariamente conforme a cotação e os resultados divulgados. O dividend yield também olha para os pagamentos passados e não garante o mesmo rendimento no futuro.
O preço abaixo do valor patrimonial chama atenção, mas não significa automaticamente que a ação esteja barata. Um banco pode negociar com P/VP inferior a 1 quando apresenta rentabilidade baixa, aumento do risco de crédito ou incertezas sobre a qualidade de seus ativos.
No caso do Banco do Brasil, existe ainda o chamado desconto de estatal. Como a União é a controladora, investidores costumam exigir uma margem de segurança maior para compensar riscos de interferência política, mudanças de estratégia e decisões que nem sempre tenham como prioridade exclusiva a rentabilidade dos acionistas.
Até que preço vale a pena comprar BBAS3?
Considerando o cenário atual, a região de R$ 21 pode funcionar como um limite de referência para investidores que acreditam na recuperação dos lucros e aceitam o risco político do Banco do Brasil.
Entretanto, esse valor não deve ser tratado como um preço justo definitivo. Ele depende de projeções para lucro, dividendos, inadimplência e custo de capital. Alterações nesses fatores podem reduzir ou elevar substancialmente a avaliação.
Uma abordagem mais conservadora pode ser dividida em três faixas:
| Cotação de BBAS3 | Leitura possível |
| Abaixo de R$ 18 | Maior margem de segurança, mas normalmente associada a riscos elevados |
| Entre R$ 18 e R$ 21 | Faixa que pode ser interessante para aportes graduais |
| Acima de R$ 21 | Exige maior confiança na recuperação dos resultados |
| Acima de R$ 24 | Margem de segurança menor diante dos riscos atuais |
Essas faixas são referências de análise e não recomendações de compra. O valor adequado também depende do perfil do investidor, do tamanho da posição e da diversificação da carteira.
Comprar somente porque a ação caiu pode ser perigoso. O investidor precisa observar se o lucro está estabilizando, se a inadimplência rural começa a recuar e se as provisões deixam de crescer.
E os dividendos do Banco do Brasil?
O Banco do Brasil já foi uma das principais ações de dividendos da Bolsa, mas os pagamentos diminuíram com a queda do lucro.
Em março e junho de 2026, o banco distribuiu diferentes parcelas de juros sobre capital próprio. Os valores, porém, ficaram inferiores aos observados durante o ciclo de resultados recordes.
Como os dividendos dependem diretamente do lucro e do percentual destinado aos acionistas, uma recuperação consistente só deve ocorrer quando o banco controlar melhor as perdas de crédito.
O investidor não deveria comprar BBAS3 esperando um dividend yield de dois dígitos no curto prazo. Com o resultado atual, o rendimento acumulado recente estava perto de 2,8%, abaixo de outros grandes bancos e também inferior ao retorno disponível em parte da renda fixa.
Para que os proventos voltem a crescer, três condições serão importantes:
Redução da inadimplência
O banco precisa controlar os atrasos, especialmente na carteira rural, que foi uma das principais fontes de deterioração.
Menores provisões
Quanto maior a expectativa de perdas com empréstimos, maior o volume de recursos reservado pelo banco e menor o lucro disponível.
Recuperação da rentabilidade
O retorno sobre o patrimônio precisa voltar a níveis mais próximos dos demais bancos privados para justificar uma valorização sustentável das ações.
Contrato com os Correios muda a tese de investimento?
Isoladamente, o contrato de R$ 2,31 bilhões não parece suficiente para comprometer o Banco do Brasil. A instituição possui escala, receitas e patrimônio capazes de absorver o custo distribuído ao longo de cinco anos.
O problema é o sinal transmitido ao mercado. Em empresas controladas pelo governo, qualquer operação com outra estatal pode aumentar a percepção de risco caso não seja acompanhada de explicações técnicas detalhadas.
Por isso, a discussão ultrapassa o valor do contrato. Ela envolve governança, eficiência na alocação de recursos e proteção dos acionistas minoritários.
O Banco do Brasil precisará demonstrar que o acordo atende às necessidades operacionais da instituição e que as condições são compatíveis com os preços e volumes de serviços contratados.
BBAS3 vale a pena agora?
BBAS3 apresenta um desconto relevante sobre o valor patrimonial e pode oferecer potencial de valorização caso o banco consiga recuperar seus resultados. A ação, porém, deixou de ser uma escolha óbvia para dividendos no curto prazo.
O contrato com os Correios adiciona um novo ruído, mas os fatores decisivos continuam sendo inadimplência, provisões, lucro e rentabilidade.
Para investidores mais cautelosos, esperar o balanço do segundo trimestre pode ser uma estratégia razoável. O próximo resultado deverá mostrar se a forte queda do lucro foi um ponto isolado ou se a deterioração permanece.
Na faixa próxima de R$ 20, BBAS3 pode ser considerada uma ação descontada, mas não necessariamente barata em qualquer cenário. O preço só será atrativo caso a recuperação projetada realmente aconteça.
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