A tributação dos dividendos foi oficialmente aprovada no Congresso Nacional e agora aguarda apenas a sanção presidencial, que pode ocorrer até o dia 26 deste mês. Mesmo se o presidente não se manifestar, o texto entra em vigor por aprovação tácita, como prevê a Constituição. A nova lei passa a valer a partir de 1º de janeiro de 2026 e promete reestruturar o modelo de distribuição de lucros no Brasil — impactando Bolsa de Valores, empresas, profissionais liberais e milionários.
Segundo o Projeto de Lei 1087/2025, dividendos acima de R$ 50 mil por mês (ou R$ 600 mil por ano) passam a ser tributados em 10%, com retenção na fonte. A medida serve como compensação pela isenção total de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, mudança que reduz a arrecadação federal.
Principais pontos da nova tributação
1. Quando começa a valer
Vigência: janeiro de 2026
Assinatura presidencial: até 26
Aprovação tácita: se o presidente não assinar
2. Como a tributação funciona
O imposto será retido na fonte quando o pagamento individual superar R$ 50 mil por mês.
Não é sobre o excedente — é sobre todo o valor.
Exemplos claros:
| Cenário | Valor Recebido | Retenção? | Imposto devido |
|---|---|---|---|
| A: Dividendos A = 45 mil, B = 35 mil | Total 80 mil, mas nenhum pagamento individual passa de 50 mil | Não | Ajuste anual apenas |
| B: Um pagamento único de 70 mil | Sim | R$ 7.000 (10% sobre o total) | |
| C: Dois pagamentos de 30 mil no mesmo mês | Sim (total no mês = 60 mil) | R$ 6.000 |
3. Quem mais vai pagar essa conta
De acordo com advogados tributários e análises de mercado, os mais prejudicados serão:
Profissionais liberais do Simples Nacional e lucro presumido
Médicos
Engenheiros
Advogados
Arquitetos
Empresas com carga tributária abaixo das alíquotas cheias (34%, 40% ou 45%)
Sócios de empresas familiares — especialmente no agronegócio
Já empresas de lucro real utilizam diversos benefícios fiscais e dificilmente atingem a alíquota máxima, o que significa que a tributação será real para a maioria dos contribuintes.
4. Redutor de alíquota
O projeto prevê um “teto tributário”:
34% para empresas em geral
40% para seguradoras
45% para bancos
Se a soma da tributação da empresa + tributação do acionista ultrapassar esse teto, há redutor, mas não isenção total. Na prática, poucas empresas atingem esse limite.
5. Janela de oportunidade: dividendos extraordinários até 2025
Um dos pontos mais importantes do texto é a regra de transição:
Dividendos referentes ao lucro apurado até 2025 não serão tributados, mesmo que pagos até 2028.
Isso fez as empresas correrem para antecipar pagamentos.
Empresas que já se movimentaram
Vulcabras (VULC3)
Pagou R$ 597 milhões em dividendos extraordinários
Dividendo: R$ 2,20 por ação (yield acima de 10%)
A empresa abriu uma subscrição privada exatamente no mesmo valor do dividendo
Objetivo: permitir ao controlador devolver o dinheiro e evitar tributação futura
Grupo Mateus (GMAT3)
Anunciou JCP de R$ 111 milhões
Lançou aumento de capital de R$ 291 milhões
Preço de emissão: R$ 6,37, acima do preço de mercado — sinal de responsabilidade com minoritários
Permitiu usar o JCP como crédito na subscrição
Por que isso importa?
Grandes acionistas — que recebem milhões — criaram mecanismos para não ultrapassar o limite de R$ 50 mil mensais e, assim, evitar retenções na fonte.
6. O que muda para o investidor comum
Impactos diretos
✔ Dividendos podem diminuir
Muitas empresas reduzirão o payout
Algumas aumentarão a frequência dos pagamentos para evitar quedas acima de R$ 50 mil
✔ JCP deve ganhar força
Continua sendo vantajoso para empresas
Pode diminuir imposto corporativo
Mas cobra 15% na fonte, não compensável
✔ Ajuste anual mais complexo
A tributação é compensável
O investidor poderá ter restituição ou imposto adicional em 2027
✔ Ações de setores intensivos em dividendos podem sentir mais
Financeiro
Energia
Siderurgia
Agronegócio
7. Lista objetiva: quem ganha e quem perde
Ganha
Quem ganha até R$ 5.000 (isenção total IR)
Empresas focadas em reinvestimento
Investidores de longo prazo com pequeno recebimento de dividendos
Grandes empresas com espaço tributário para redutores
Perde
Profissionais liberais do Simples e lucro presumido
Acionistas de alto patrimônio
Empresas familiares do agro
Setores que operam com payout alto
Empresas que distribuem dividendos concentrados em poucos meses
Investidores que dependem de dividendos para renda mensal previsível
8. Como o investidor deve se preparar
Checklist prático
Revisar carteira e avaliar empresas que podem reduzir payout
Monitorar anúncios de dividendos extraordinários até 2025
Organizar documentos para ajuste anual de 2027
Profissionais liberais: considerar planejamento tributário
Avaliar fundos imobiliários (FIIs): não são afetados
Avaliar bancos e seguradoras com tributação elevada
9. Tabela-resumo final
| Tema | Situação Atual | Como fica em 2026 |
|---|---|---|
| IR até R$ 5 mil | Cobrança normal | Isento |
| Dividendos | Isentos | 10% acima de R$ 50 mil por mês |
| JCP | 15% definitivo | Mantido |
| Dividendos extraordinários | Normais | Altamente incentivados até 2025 |
| Empresas do Simples/lucro presumido | Não pagam sobre dividendos | Passam a pagar 10% |
| Ajuste anual | Sem dividendos | Dividendos entram no cálculo total |
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