O Banco do Brasil (BBAS3) vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Após registrar rentabilidades acima de 20% entre 2022 e 2024, o banco estatal enfrenta agora uma nova realidade marcada por inadimplência em alta, juros elevados e mudanças regulatórias que afetam diretamente sua lucratividade. Parte do mercado acredita que o tempo de retorno sobre investimento acima dos 20% pode nunca mais voltar.
O auge e o declínio da rentabilidade
Entre 2019 e 2023, o Banco do Brasil se destacou com resultados expressivos, impulsionado pela forte expansão no crédito ao agronegócio. Em 2022, o ROI superou os 21%, um dos maiores níveis da história da instituição. A carteira de crédito rural cresceu de forma acelerada e passou a representar mais de 30% do total, com desempenho sólido e baixo nível de inadimplência.
Mas esse cenário começou a mudar a partir de 2024. A combinação de juros altos — com a Selic atingindo 15% —, queda nos preços das commodities e dificuldades climáticas levou muitos produtores à recuperação judicial. A inadimplência saltou de pouco mais de 1% para quase 3,5%, pressionando as margens do banco e exigindo provisões bilionárias para cobrir possíveis calotes.
Novas regras e impacto no resultado
Além da crise do agro, a nova resolução 4.966 obrigou o Banco do Brasil a provisionar com base nas perdas esperadas, não apenas nas efetivas. Isso ampliou os valores destinados a cobrir riscos de crédito, reduzindo a rentabilidade.
Com a carteira agro ultrapassando R$ 400 bilhões — quase um terço do total —, o banco precisou desacelerar a concessão de novos financiamentos, tornando o crescimento mais seletivo e exigindo garantias adicionais. O resultado foi um retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) em queda para cerca de 8% no meio de 2025 — o pior patamar em décadas.
Análises do mercado e perspectivas
Parte dos analistas considera que o período de rentabilidades acima de 20% foi um ponto fora da curva, sustentado por condições conjunturais muito favoráveis. Hoje, as estimativas mais realistas projetam que o ROI do Banco do Brasil deve se estabilizar entre 15% e 18% nos próximos anos, mesmo após a recuperação do setor agro.
Essa visão reflete também a maior concorrência no crédito rural. Novos bancos e fintechs disputam espaço nesse mercado, reduzindo a vantagem competitiva histórica do Banco do Brasil. Além disso, a pressão por políticas de crédito com viés social, combinada ao ambiente macroeconômico mais restritivo, limita a retomada de lucros excepcionais.
O que esperar para 2025 e 2026
Apesar do cenário difícil, há sinais de que o pior pode ter ficado para trás. A inadimplência começa a se estabilizar, e a gestão vem reforçando controles internos, ampliando garantias e diversificando a carteira. O consenso do mercado é que o terceiro trimestre de 2025 marque o “fundo do poço”, com recuperação gradual a partir do quarto trimestre.
A expectativa é de que 2026 seja um ano de reestruturação, e 2027, de retomada mais sólida. Mesmo que o ROI não volte a superar 20%, há espaço para alcançar patamares próximos a 18%, com melhora nas margens financeiras, redução das provisões e retomada da confiança no setor agrícola.
Impacto para investidores e dividendos
Uma rentabilidade menor naturalmente afeta o pagamento de dividendos. O Banco do Brasil, conhecido por distribuir lucros generosos, deve adotar uma política mais conservadora nos próximos exercícios, priorizando a recomposição de capital e o fortalecimento do balanço.
Ainda assim, o banco segue atrativo para investidores de longo prazo, especialmente se o cenário de juros começar a ceder e a carteira de crédito voltar a crescer de forma sustentável. O desafio é equilibrar rentabilidade e solidez diante de um novo ciclo econômico.
A era das rentabilidades acima de 20% parece ter ficado no passado. O Banco do Brasil atravessa uma fase de ajuste estrutural que combina crise no agro, inadimplência crescente e regras mais rígidas de provisão. Apesar disso, a instituição mantém fundamentos sólidos, ampla base de clientes e experiência única no crédito rural.
A recuperação deve ser lenta e gradual, mas possível. Se o cenário macroeconômico colaborar e o banco mantiver a disciplina operacional, a rentabilidade poderá voltar a níveis próximos de 18% nos próximos anos — um novo normal para um gigante em transformação.
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