A noite de 17 de novembro de 2025 entrou para a história do sistema financeiro brasileiro. Às 22h30, no Aeroporto de Guarulhos, 15 agentes da Polícia Federal aguardavam a chegada de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Ele caminhava em direção ao seu jato Falcon 7X, prestes a decolar para Malta, quando foi preso sob suspeita de tentativa de fuga em meio às negociações para a venda do banco.
Menos de 12 horas depois, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e bloqueou os bens dos controladores. O banco, que possuía cerca de R$ 62 bilhões em depósitos, simplesmente deixou de existir. A decisão transfere imediatamente o controle das operações para um interventor indicado pela autoridade monetária, dando início ao processo de desmontagem dos ativos e pagamento de credores.
Explosão de crescimento e o modelo arriscado que levou ao colapso
Até 2019, o então Banco Máxima era uma instituição pequena e conservadora, voltada para crédito consignado. Seu patrimônio líquido girava em torno de R$ 200 milhões e o risco de inadimplência era baixo, graças ao modelo de desconto direto em folha de pagamentos.
Entre 2019 e 2023, tudo mudou. O banco passou a crescer de forma agressiva, saltando para um patrimônio de R$ 2,3 bilhões. O motor dessa expansão foi a oferta de CDBs com rentabilidades acima do mercado, chegando a 140% do CDI em um cenário de juros elevados. Enquanto bancos tradicionais pagavam entre 100% e 110% do CDI, o Master captava recursos a um custo próximo de 20% ao ano, exigindo investimentos igualmente rentáveis para sustentar o fluxo de pagamentos.
O dinheiro captado era direcionado a investimentos de longo prazo e baixa liquidez, como precatórios e participações acionárias em empresas que ainda não geravam caixa. Isso criou um descasamento crítico: dívidas com vencimento curto e retorno incerto no longo prazo.
Tentativas de resgate, veto do Banco Central e colapso final
A partir de março de 2024, analistas passaram a questionar o modelo adotado pelo Master. Mesmo assim, o banco continuou comprando instituições, como o Banco Voiter e o Will Bank, somando milhões de clientes. Em janeiro de 2025, um aumento de capital de R$ 2 bilhões tentou amenizar a crise.
Em março, o Banco de Brasília (BRB) anunciou a compra de 58% do Master por R$ 2 bilhões, mas a operação foi vetada pelo Banco Central sob suspeita de risco ao dinheiro público. Sem liquidez, o banco iniciou a venda de ativos e renegociou dívidas com empresas credoras, evidenciando dificuldades de caixa.
No dia 17 de novembro, investidores árabes anunciaram uma oferta de R$ 3 bilhões para comprar o banco. Horas depois, veio a prisão de Vorcaro e, no dia seguinte, a ordem de liquidação extrajudicial. O anúncio de venda foi descartado.
CDBs do Banco Master: como ficam os investidores
A liquidação aciona o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), responsável por ressarcir investidores que possuem aplicações elegíveis, como CDBs, até o limite de R$ 250 mil por CPF e por instituição. Nesse caso saiba o que acontece com quem tem CDB e como recuperar o dinheiro:
Quem tem até R$ 250 mil recebe pelo FGC
O valor é congelado no dia da liquidação e para de render imediatamente.
O pagamento não é automático: o FGC poderá levar semanas ou meses para liberar os recursos.
O processo depende da entrega de dados pelo interventor e da validação dos cadastros.
O investidor precisará baixar o aplicativo do FGC, cadastrar-se e indicar a conta para recebimento.
Quem tem acima de R$ 250 mil entra em fila de credores
O excedente só poderá ser recuperado após a venda de ativos do banco.
O pagamento segue uma ordem de prioridade: trabalhadores, credores com garantia real e, por último, aplicadores sem garantia acima do limite.
Pode ocorrer pagamento parcial, total ou nenhum, dependendo da liquidação dos ativos.
O impacto para o FGC e o sistema financeiro
O Master carregava cerca de R$ 62 bilhões em depósitos. Estimativas de mercado indicam que entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões podem estar cobertos pelo FGC. O fundo possui R$ 148 bilhões em patrimônio, mas se a maior parte desses valores for acionada, esta será a maior intervenção com garantia paga da história do país.
O episódio reacende debates sobre educação financeira e a avaliação de risco de emissores. A oferta de rentabilidade acima do mercado atraiu investidores desatentos ao fundamento básico de renda fixa: não existe retorno elevado sem risco proporcional.
A liquidação do Banco Master expõe as consequências de combinações perigosas: expansão agressiva, investimentos de baixa liquidez e dependência de altos custos de captação. Para milhares de brasileiros, o impacto será imediato, com atrasos no ressarcimento via FGC e incerteza para quem ultrapassou o limite de proteção.
Mais do que um acontecimento econômico, o caso se tornou um alerta nacional: rendimento elevado sem análise de risco pode custar caro.
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