A inflação voltou a ocupar o centro das decisões dos investidores nesta sexta-feira, 28 de agosto. Em discurso no simpósio econômico de Jackson Hole, o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, reconheceu que a economia dos Estados Unidos permanece forte, mas deixou claro que a prioridade atual do banco central deve continuar sendo o controle dos preços.
A mensagem reduz o espaço para apostas em uma flexibilização rápida da política monetária americana. Juros elevados nos Estados Unidos podem fortalecer o dólar, aumentar a volatilidade nos mercados emergentes e afetar diretamente o comportamento do Ibovespa, dos juros futuros e das ações mais sensíveis ao fluxo estrangeiro.
No Brasil, o dia também começou com um dado importante de inflação. O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) caiu 0,22% em agosto, depois de recuar 1,16% em julho, segundo a Fundação Getulio Vargas.
Warsh mantém compromisso com inflação de 2%
No discurso em Jackson Hole, Warsh afirmou que a meta de inflação de 2% do Federal Reserve permanece “firme e fixa”. O presidente do banco central americano também destacou que a estabilidade de preços não acontece automaticamente e depende das decisões da autoridade monetária.
A avaliação apresentada por Warsh foi dividida. De um lado, a atividade econômica e o mercado de trabalho dos Estados Unidos continuam mostrando resistência. De outro, a inflação ainda está distante da meta perseguida pelo Fed.
Segundo os números citados pelo dirigente, a inflação medida pelo índice de preços de gastos com consumo, o PCE, acumulava 3,7% em 12 meses. Considerando o ritmo dos seis meses anteriores, a variação chegava a 4,1%.
“Por isso, o foco predominante do Fed neste momento deve estar nos preços”, afirmou Warsh no discurso publicado pelo Federal Reserve.
O dirigente acrescentou que os dados mais recentes de inflação vieram melhores do que o esperado, mas ainda não demonstram uma melhora significativa da tendência subjacente.
Economia americana mostra força
Warsh reconheceu que a economia americana parece ter ganhado força e permanece resistente aos choques recentes. Os investimentos empresariais em equipamentos e ativos intangíveis cresceram aproximadamente 9% em quatro trimestres, maior avanço desde 2021.
Mais da metade desse crescimento estaria ligada à expansão da infraestrutura de inteligência artificial. Nas empresas que integram o S&P 500, os lucros aumentaram mais de 20% no período de um ano, de acordo com os dados apresentados pelo presidente do Fed.
O mercado de trabalho também continua relativamente aquecido. A taxa de desemprego americana está em 4,1%, patamar considerado baixo pelos padrões históricos.
Essa combinação — atividade forte, pleno emprego e inflação acima da meta — diminui a urgência para cortes de juros. Na reunião de julho, o Fed manteve sua taxa básica na faixa de 3,5% a 3,75% ao ano. Três integrantes do comitê chegaram a defender uma elevação de 0,25 ponto percentual.
A próxima reunião do banco central americano está marcada para os dias 15 e 16 de setembro.
O que o discurso significa para o mercado brasileiro
O tom cauteloso de Warsh pode repercutir sobre diferentes ativos brasileiros. Quando os juros americanos permanecem elevados, títulos do Tesouro dos Estados Unidos tornam-se mais atraentes e parte do capital internacional pode deixar mercados emergentes.
Esse movimento costuma produzir três consequências principais:
- pressão de valorização sobre o dólar;
- aumento dos juros futuros no Brasil;
- maior volatilidade nas ações negociadas na B3.
A reação, porém, dependerá dos próximos indicadores americanos. Warsh evitou antecipar uma decisão para setembro e afirmou que o Fed precisa observar tendências, em vez de orientar sua política por números isolados.
Para o Ibovespa, o fluxo estrangeiro continuará sendo uma variável decisiva. Em períodos recentes, a entrada de capital internacional ajudou o índice a superar os 170 mil pontos com apoio dos bancos e da Petrobras.
Petrobras e Vale também permanecem no radar por causa das oscilações do petróleo, do minério de ferro e do dólar. A estatal divulgou recentemente lucro de R$ 52,4 bilhões no segundo trimestre e aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, conforme mostrou a análise sobre os resultados da Petrobras e os novos proventos.
IGP-M cai pelo segundo mês consecutivo
No cenário doméstico, o IGP-M registrou queda de 0,22% em agosto. O resultado representa uma deflação menos intensa que a de julho, quando o indicador havia recuado 1,16%.
Com o novo número, o índice passou a acumular:
| Período | Variação |
|---|---|
| Agosto de 2026 | -0,22% |
| Acumulado em 2026 | 1,85% |
| Acumulado em 12 meses | 2,16% |
Em agosto de 2025, o IGP-M havia subido 0,36% e acumulava avanço de 3,03% em 12 meses.
Calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV, o indicador reúne preços no atacado, inflação ao consumidor e custos da construção. Ele também é utilizado como referência em contratos de aluguel e de prestação de serviços, embora sua aplicação dependa do que foi estabelecido entre as partes.
A queda de agosto ajuda a limitar reajustes vinculados ao índice. Isso não significa, entretanto, uma redução automática no valor dos aluguéis: a correção normalmente ocorre apenas na data de aniversário do contrato e pode ser negociada entre proprietário e inquilino.
Nesta sexta-feira, portanto, os investidores precisam conciliar duas mensagens distintas. A inflação brasileira medida pelo IGP-M perdeu força, enquanto o presidente do Fed indicou que a inflação americana ainda não permite baixar a guarda. Para os ativos brasileiros, a sinalização vinda de Jackson Hole tende a ter maior peso imediato sobre dólar, juros futuros e fluxo estrangeiro.
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