A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas transformar essa riqueza em produção voltou a ser um desafio bilionário. Um plano de investimentos de até US$ 100 bilhões promete recuperar campos petrolíferos, reconstruir instalações e elevar a produção nacional. Entretanto, existe um problema: o país não dispõe atualmente de equipamentos suficientes para alcançar suas metas.
Em agosto de 2026, apenas duas plataformas de perfuração estavam em atividade no território venezuelano. Para atingir as projeções de crescimento, esse número precisaria chegar a aproximadamente 50 até 2028 e quase 80 até 2030, segundo estimativas da consultoria Rystad Energy.
A recuperação envolve empresas como Chevron, Eni e Continental Resources, além de novos investidores interessados nas enormes reservas da Venezuela.
Um acordo de US$ 100 bilhões para recuperar a indústria petrolífera
O governo dos Estados Unidos anunciou, em agosto de 2026, um acordo com a North American Blue Energy Partners (NABEP), empresa privada que recebeu concessões de 100 anos para explorar 17 campos petrolíferos venezuelanos.
Essas áreas concentram aproximadamente 65 bilhões de barris em reservas comprovadas.
O projeto prevê investimentos de até US$ 100 bilhões em infraestrutura petrolífera, incluindo a recuperação de campos existentes, a construção de instalações industriais e a ampliação da capacidade de produção.
Entretanto, o valor anunciado não representa dinheiro já disponível.
A Rystad Energy esclarece que os US$ 100 bilhões correspondem a uma necessidade de financiamento de longo prazo. A NABEP ainda não apresentou uma estrutura detalhada que demonstre como pretende financiar integralmente seus projetos.
Isso significa que a recuperação depende da capacidade de atrair investidores e transformar acordos comerciais em obras e operações efetivas.
Venezuela tem apenas duas plataformas de perfuração em atividade
A dimensão do problema fica mais evidente quando se observa a quantidade de equipamentos disponíveis.
Segundo dados da Baker Hughes, a Venezuela tinha apenas duas plataformas de perfuração em atividade em agosto.
Para sustentar uma recuperação acelerada, a Rystad Energy estima que o país precisaria alcançar aproximadamente 50 plataformas até 2028 e quase 80 até 2030.
O desafio não consiste apenas em adquirir novos equipamentos. Também será necessário recuperar instalações deterioradas, contratar trabalhadores especializados e reconstruir a infraestrutura necessária para transportar e processar o petróleo.
A empresa de serviços petrolíferos SLB possui aproximadamente 15 plataformas no país que poderiam ser reativadas em um período de até um ano.
Mesmo assim, a reconstrução de toda a cadeia produtiva exigirá investimentos contínuos.
Produção poderá alcançar 2,58 milhões de barris por dia até 2035
Gráfico original da A Revista com projeções para a produção de petróleo da Venezuela entre 2026 e 2035
Arte original da A Revista. Projeções da Rystad Energy em cenário otimista, sujeitas à disponibilidade de capital, equipamentos e infraestrutura.
A Venezuela poderá mais que dobrar sua produção petrolífera até 2035, caso os investimentos anunciados sejam efetivamente realizados.
A produção atual é estimada em aproximadamente 1,25 milhão de barris por dia.
No cenário otimista da Rystad Energy, o volume poderá alcançar 1,6 milhão de barris diários em 2028 e 1,8 milhão em 2030.
Até 2035, a produção poderá atingir aproximadamente 2,58 milhões de barris por dia, impulsionada pela recuperação de campos existentes e pela entrada em operação de novos projetos.
Esses números representam projeções condicionais, e não metas cuja realização esteja garantida.
O principal obstáculo continua sendo a necessidade de recuperar a capacidade operacional de um setor que enfrentou décadas de investimentos insuficientes.
Chevron, Eni e outras gigantes ampliam investimentos
O movimento de recuperação já envolve algumas das maiores empresas petrolíferas do mundo.
A Chevron anunciou planos de investir mais de US$ 7 bilhões na Venezuela durante os próximos cinco anos. A companhia pretende ampliar suas operações e aumentar significativamente a produção.
A italiana Eni também expandiu sua presença no país ao assumir a operação do campo Junín-5, localizado na Faixa do Orinoco.
A Continental Resources, por sua vez, assinou um memorando de entendimento com a estatal PDVSA para desenvolver o bloco Ayacucho-2, uma área com enormes reservas petrolíferas.
Empresas especializadas em serviços para a indústria de petróleo, como Halliburton e SLB, também estão envolvidas em iniciativas destinadas a recuperar instalações e ampliar as operações venezuelanas.
O interesse internacional representa uma oportunidade de reconstrução, mas a velocidade da recuperação dependerá da execução efetiva desses investimentos.
Por que a recuperação pode levar tantos anos?
Embora a Venezuela tenha uma enorme quantidade de petróleo disponível, parte significativa de suas instalações precisa de recuperação.
O primeiro estágio da retomada deverá concentrar esforços na reativação de poços existentes e na recuperação de campos que já possuem alguma infraestrutura.
Essas operações podem proporcionar aumentos de produção em um prazo relativamente menor.
Entretanto, a exploração de novas áreas exigirá investimentos mais complexos, incluindo plataformas adicionais, novas instalações de processamento, oleodutos e infraestrutura logística.
O desenvolvimento desses empreendimentos poderá levar vários anos até gerar volumes significativos de petróleo.
Outro desafio envolve as características do petróleo venezuelano, especialmente o óleo extrapesado da Faixa do Orinoco, que necessita de instalações e processos específicos para sua produção, transporte e comercialização.
O que a recuperação da Venezuela pode significar para o Brasil?
O crescimento da produção venezuelana poderá provocar mudanças importantes no mercado internacional de petróleo.
Caso a oferta mundial aumente mais rapidamente que a demanda, o preço do barril poderá enfrentar pressão. Entretanto, o resultado dependerá também das decisões de outros produtores, do consumo global e das condições geopolíticas.
Para o Brasil, o impacto poderá atingir tanto a indústria petrolífera quanto o mercado de combustíveis.
Empresas produtoras e exportadoras, como a Petrobras, são sensíveis às variações internacionais do petróleo. Ao mesmo tempo, um eventual recuo das cotações poderia reduzir determinados custos de importação de derivados.
Isso não significa que gasolina e diesel necessariamente ficarão mais baratos, já que o câmbio, os custos logísticos, os impostos e as políticas comerciais também influenciam os preços.
A recuperação venezuelana poderá ainda ampliar a concorrência internacional por mercados consumidores de petróleo pesado.
O maior desafio não está debaixo da terra
A Venezuela possui recursos petrolíferos suficientes para sustentar uma expansão significativa de sua indústria.
O problema está na capacidade de financiar e executar a reconstrução necessária para transformar essas reservas em produção comercial.
Os acordos anunciados representam uma nova etapa para o setor, mas o ritmo da recuperação dependerá da chegada efetiva de recursos, da disponibilidade de plataformas de perfuração e da reconstrução da infraestrutura.
Até 2035, o país poderá alcançar uma produção superior a 2,5 milhões de barris por dia no cenário otimista apresentado pela Rystad Energy.
Para isso, precisará transformar os investimentos anunciados em equipamentos funcionando, instalações recuperadas e novos barris chegando ao mercado internacional.
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