A temporada de balanços costuma gerar dúvidas, principalmente quando os números parecem se contradizer. Foi exatamente o que aconteceu com a Sanepar (SAPR) no terceiro trimestre de 2025. Enquanto o lucro líquido caiu mais de 30%, a ação mostrou resiliência, sustentada pela interpretação de que o resultado contábil estava carregado de efeitos não recorrentes.
A seguir, entenda de forma didática como identificar o resultado recorrente de uma empresa, por que os R$ 4 bilhões em créditos fiscais influenciaram as contas da Sanepar e o que os investidores devem observar daqui para frente.
O que aconteceu no 3T25 da Sanepar
A Sanepar registrou no terceiro trimestre de 2025 uma receita líquida de R$ 1,8 bilhão, crescimento de 5,5% em relação ao mesmo período de 2024. No entanto, o lucro líquido recuou para R$ 246 milhões, uma queda de 34,7%, enquanto o EBITDA caiu cerca de 27%.
O motivo dessa divergência está na presença de ajustes contábeis e provisões não recorrentes, além do efeito temporário dos R$ 4 bilhões em créditos fiscais obtidos judicialmente. Esses recursos entraram no caixa da empresa e influenciaram positivamente o resultado financeiro, mas ainda geram incertezas quanto ao uso, já que a Agepar, agência reguladora, discute se parte desse valor deverá ser revertida aos consumidores.
Mesmo com lucro menor, o mercado enxergou que o resultado recorrente — aquele que representa a operação normal da empresa, sem efeitos extraordinários — permanece sólido.
Como calcular o resultado recorrente
A análise do resultado recorrente permite avaliar a saúde real de uma companhia, sem o “ruído” de eventos temporários. Veja como aplicar essa metodologia ao balanço da Sanepar:
Identifique o que não se repete.
Provisões jurídicas, passivos regulatórios e despesas excepcionais distorcem o lucro. No caso da Sanepar, as provisões ligadas aos créditos fiscais e a gastos com honorários elevaram as despesas no trimestre.Ajuste o resultado financeiro.
O caixa turbinado pelos R$ 4 bilhões gerou receita financeira pontual. Quando o dinheiro for destinado aos consumidores ou investido, essa receita tende a desaparecer.Recalcule o lucro operacional real.
Ao excluir os efeitos não recorrentes, o lucro “limpo” da Sanepar fica acima dos R$ 246 milhões reportados, sinalizando um desempenho operacional mais estável do que o número contábil indica.Revise o ROE e a dívida.
O patrimônio líquido inflado pelos créditos reduz artificialmente o retorno sobre o patrimônio (ROE). Já a dívida líquida parece menor porque o caixa extraordinário diminui o indicador — outro ponto que deve ser ajustado para refletir a realidade operacional.Projete o futuro com cautela.
O investidor deve observar se os custos e provisões voltam à normalidade no próximo trimestre e se o impacto regulatório será favorável ou não à empresa.
Estrutura financeira e operação
Mesmo com as pressões pontuais, a Sanepar manteve uma base operacional sólida. As receitas cresceram acima da inflação, e o investimento (capex) aumentou 52% no trimestre, impulsionado pela expansão de ligações de esgoto — exigência do Marco do Saneamento.
A dívida líquida ajustada segue em níveis confortáveis e o fluxo de caixa operacional permanece robusto, sustentado por um modelo de concessão com tarifas corrigidas pela inflação. A companhia também vem ampliando estudos para participar de novas concessões fora do Paraná, movimento que pode diversificar receitas e fortalecer o crescimento de longo prazo.
Perspectivas para 2026
O principal ponto de atenção é a decisão final da Agepar sobre o destino dos R$ 4 bilhões. Três cenários estão na mesa:
a Sanepar reter mais de 25% do valor;
manter os 25% originais;
ou ficar com menos que isso, caso prevaleça o entendimento de que os consumidores devem receber a maior parte do benefício.
A definição desse percentual será determinante para os próximos resultados, o ritmo de distribuição de dividendos e o comportamento da dívida.
Enquanto isso, a companhia segue focada em eficiência operacional, expansão de cobertura de esgoto e gestão prudente de investimentos.
O 3T25 da Sanepar mostra como um balanço pode parecer pior do que realmente é quando o investidor ignora os efeitos não recorrentes. Ao ajustar provisões, créditos fiscais e caixa extraordinário, o lucro recorrente da empresa demonstra resiliência e potencial de crescimento estável.
Mais do que olhar o número final do trimestre, entender de onde ele veio é o que separa o investidor ansioso do analista preparado.
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