No Brasil, o crédito não é mais uma escolha, mas sim uma necessidade para milhões de famílias. Com uma taxa Selic de 15% e uma inflação anual de 4,4%, a renda não acompanha as despesas essenciais. O aumento do custo de vida, aliado à escassez de recursos, fez com que muitos brasileiros recorressem ao cartão de crédito como a única solução para manter as contas em dia.
Segundo dados da Serasa, mais de 80 milhões de brasileiros possuem histórico de crédito negativo, com um total de R$ 509 bilhões em dívidas. O uso do cartão de crédito, antes destinado a compras ocasionais, tornou-se uma necessidade diária. Luiz, um jovem autônomo de 23 anos, conta como a situação se agravou: “Hoje, o cartão de crédito não é só para comprar roupas ou lazer. Eu uso para comprar comida, porque o salário não cobre as contas”, relata.
O perfil da inadimplência no país é alarmante, com 50,5% de mulheres e 49,5% de homens enfrentando dificuldades financeiras. A maior faixa etária de endividados está entre 26 e 40 anos, grupo que trabalha para sustentar a casa e criar os filhos, mas que encontra dificuldades para administrar as finanças devido ao aumento da dívida.
As pesquisas indicam que a maior parte da população endividada pertence a classes de renda baixa. Aproximadamente 82,5% dos endividados ganham até três salários mínimos, e 81,1% possuem rendimentos entre três e cinco salários. A situação é um ciclo vicioso, onde a pessoa se vê forçada a usar o crédito para cobrir as necessidades mais básicas, como alimentação e transporte.
O uso do crédito se tornou tão frequente que, para muitas pessoas, ele já representa a própria “renda”. Isso reflete no aumento da inadimplência, com mais de 90% das dívidas no país contraídas por meio de cartões de crédito. As facilidades de parcelamento, que oferecem a ilusão de acessibilidade, são um atrativo perigoso, já que muitos acabam ultrapassando o limite do cartão e não conseguem pagar nem o mínimo da fatura.
A situação se reflete nas estatísticas do Banco Central, que indica que 28,8% da renda familiar está comprometida com dívidas, o maior valor da série histórica. Além disso, mais de 10% do orçamento familiar é destinado ao pagamento de juros. O Brasil vive um cenário preocupante de desequilíbrio financeiro, onde a dívida cresce a cada mês.
Ainda assim, existem alternativas que podem ajudar a evitar que esse ciclo se agrave. Ferramentas como o seguro de crédito e o seguro pessoal, pouco utilizados no Brasil, podem ser uma maneira de proteger as famílias contra o risco de inadimplência. O mercado de seguros no Brasil representa apenas 6% do PIB, muito abaixo de países com mercados mais maduros, onde a participação chega a 10% ou mais. Isso mostra que existe um grande potencial de crescimento para essas soluções financeiras, que poderiam oferecer maior estabilidade às famílias.
O caminho para a recuperação passa por taxas de juros mais baixas, educação financeira para o público em geral e uma maior utilização de instrumentos de proteção financeira. Enquanto isso, milhões de brasileiros continuam utilizando o cartão de crédito para garantir a sobrevivência, mas enfrentam o desafio de lidar com o acúmulo de dívidas e as altas taxas de juros.
Neste cenário, é fundamental buscar alternativas que ajudem a reduzir a dependência do crédito e a melhorar a gestão das finanças pessoais, para que, no futuro, a “conta” do cartão de crédito não seja mais um fardo a ser carregado por tantas famílias.
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