A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), um dos maiores grupos industriais do Brasil, divulgou uma atualização estratégica que pode mudar de forma relevante a percepção do mercado sobre suas ações. Atuando de forma verticalizada nos segmentos de siderurgia, mineração, cimentos, logística e energia, a companhia apresentou um plano robusto de desinvestimentos e reorganização do portfólio com foco na redução do endividamento e aumento da rentabilidade.
Segundo a empresa, o conselho de administração aprovou o início de movimentos estratégicos a partir de 2026, com o objetivo de reduzir a dívida líquida entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões. Caso o plano seja executado conforme o esperado, a alavancagem financeira da CSN pode cair dos atuais níveis próximos de 4,0x dívida líquida/EBITDA para algo entre 1,8x e até 1,0x no médio prazo.
Venda de ativos será o pilar da desalavancagem
O principal motor dessa estratégia será a venda de participações relevantes em negócios considerados maduros ou não essenciais ao core estratégico da companhia.
Entre os destaques do plano estão:
- Venda do controle da CSN Cimentos, atualmente responsável por cerca de 10% a 11% da receita do grupo;
- Venda de participação relevante na CSN Infraestrutura, braço que reúne ativos ferroviários, portuários e multimodais;
- Continuidade da reciclagem de capital, após a venda de 11% da MRS Logística para a CSN Mineração, operação que rendeu R$ 3,3 bilhões à companhia.
Apesar de o mercado ter levantado questionamentos sobre o preço pago na operação da MRS considerada cara em termos de múltiplos, a CSN vê esse movimento como um primeiro passo concreto rumo à desalavancagem.
CSN Mineração segue como pilar estratégico do grupo
A CSN Mineração (CMIN3) permanece como um dos ativos mais estratégicos do conglomerado. A empresa é atualmente a sétima maior exportadora de minério de ferro do mundo, com reservas estimadas em 2,55 bilhões de toneladas, o que garante vida útil superior a 40 anos, mesmo com aumento relevante de produção.
A companhia destaca o avanço do projeto P15, que pode elevar a capacidade produtiva em até 40% até 2030. Com isso, o EBITDA da mineração poderia crescer de cerca de R$ 6,7 bilhões para até R$ 9,8 bilhões, um avanço potencial de 46%, embora esse cenário dependa diretamente do ciclo do minério de ferro e de condições de mercado.
Hoje, a CSN Mineração representa aproximadamente 33% da receita consolidada do grupo e 57% do EBITDA, reforçando sua importância central na estratégia da companhia.
Infraestrutura pode se tornar novo motor de crescimento
Outro ponto que chama atenção no plano estratégico é o potencial da CSN Infraestrutura. O portfólio conta com sete ativos ferroviários, portuários e multimodais de primeira linha, que vêm apresentando crescimento consistente ao longo dos anos.
A expectativa da companhia é que o EBITDA desse braço possa saltar de R$ 1,7 bilhão para mais de R$ 10 bilhões no futuro, valor equivalente ao EBITDA total do grupo CSN atualmente. A venda de uma participação relevante nesse segmento, prevista para acontecer possivelmente já no fim de 2025 ou início de 2026, pode gerar um caixa significativo.
Energia: ativo oculto com alto valor estratégico
Embora não esteja no radar de desinvestimentos, o braço de energia da CSN também merece destaque. A companhia possui 27 ativos hídricos, três térmicos de cogeração, três projetos eólicos e um projeto solar, totalizando cerca de 2 GW de capacidade instalada.
Considerando um custo médio de reposição estimado em R$ 5 milhões por MW, esse portfólio poderia ser avaliado em cerca de R$ 10 bilhões, reforçando o grau de verticalização e proteção operacional da empresa, além de garantir autossuficiência em energia renovável.
Impacto financeiro: dívida menor e juros mais baixos
Caso as vendas de ativos se concretizem, a CSN estima que a dívida líquida possa cair de R$ 37,5 bilhões para cerca de R$ 19,5 bilhões. Mesmo com uma redução do EBITDA de R$ 12 bilhões para aproximadamente R$ 10,7 bilhões após os desinvestimentos, a alavancagem cairia de 3,1x para 1,8x.
Além disso, a empresa projeta uma economia anual entre R$ 1,5 bilhão e R$ 1,8 bilhão em despesas financeiras, apenas com a redução do endividamento bruto fator que pode ter impacto direto na reprecificação das ações.
CSN pode estar barata após reestruturação
Com base nos números projetados, o valor de mercado atual da CSN gira em torno de R$ 13,6 bilhões. Somando a dívida líquida estimada pós-desinvestimentos, o valor da firma ficaria próximo de R$ 33 bilhões.
Dividindo esse valor por um EBITDA projetado de R$ 10,7 bilhões, a empresa passaria a negociar a cerca de 3 vezes EV/EBITDA, múltiplo historicamente muito abaixo da média da companhia, que costuma variar entre 5x e 7x ao longo do ciclo.
Dividendos devem ficar para depois
No curto prazo, a prioridade da CSN seguirá sendo a redução da dívida, o que limita a distribuição de dividendos. A empresa tem histórico de pagamentos semestrais, geralmente em abril e novembro, mas também já passou por longos períodos sem distribuir proventos, especialmente em fases desfavoráveis do ciclo.
A expectativa é que os dividendos voltem a ganhar força a partir de 2027, caso o plano de desalavancagem seja bem-sucedido.
Ação cíclica exige cautela do investidor
Por fim, a CSN reforça o perfil cíclico de seus negócios. Entre 2016 e o pico de 2021, as ações chegaram a acumular alta superior a 1.500%, mas desde o topo histórico, os papéis já caíram cerca de 80%.
Isso mostra que investir em empresas cíclicas exige paciência, estômago e gestão de risco, sendo mais adequado para investidores experientes e com visão de longo prazo.
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