A CFMoto voltou a registrar uma corrida às compras no mercado brasileiro. O terceiro lote de reservas da fabricante chinesa, aberto em 27 de julho de 2026, teve mais de 500 motocicletas reservadas em aproximadamente cinco minutos, diante de cerca de 8 mil acessos à plataforma de vendas.
Os números ajudam a dimensionar o problema: havia, aproximadamente, uma motocicleta para cada 16 pessoas interessadas. Embora o desempenho confirme que a marca encontrou espaço entre os motociclistas brasileiros, também ampliou as críticas sobre a disponibilidade dos produtos e a capacidade da operação nacional de atender à demanda.

O terceiro lote reuniu os modelos Ibex 450, Ibex 700, CL-C 450 e CL-C 450 Bobber. As reservas foram feitas pelo portal oficial da fabricante, dentro de uma estratégia de comercialização gradual adotada desde o início das operações de motocicletas no Brasil.
O resultado provocou uma combinação de entusiasmo e frustração. Enquanto compradores comemoraram a possibilidade de adquirir motos de média cilindrada com preços competitivos, outros consumidores recorreram às redes sociais e aos canais de reclamação para questionar a quantidade reduzida de unidades.
CFMoto já havia esgotado outros lotes rapidamente
A velocidade das reservas não foi um acontecimento isolado. Desde a estreia comercial, a CFMoto vem registrando procura superior ao número de motocicletas disponibilizadas.
O primeiro lote reuniu aproximadamente 800 unidades distribuídas inicialmente entre oito concessionárias. A remessa foi rapidamente comercializada, indicando que a chegada da empresa despertou interesse acima das projeções iniciais.
No segundo lote, aberto em 30 de junho, cerca de 500 motos foram reservadas em menos de quatro minutos. A fabricante informou que a quantidade de unidades por lote poderia variar conforme o ritmo de produção na fábrica de Manaus e a capacidade logística de distribuição.
O terceiro lote repetiu o cenário, com mais de 500 reservas em cinco minutos. O desempenho confirma a existência de uma demanda reprimida, mas também mostra que a estrutura atual da empresa ainda é pequena diante do interesse gerado pelos modelos.
Histórico recente das vendas
| Etapa | Quantidade aproximada | Tempo para esgotar |
| Primeiro lote | 800 motos | Cerca de 20 a 40 minutos |
| Segundo lote | 500 motos | Menos de 4 minutos |
| Terceiro lote | Mais de 500 motos | Aproximadamente 5 minutos |
Os tempos podem variar conforme o critério utilizado para considerar a reserva concluída, mas todas as etapas tiveram procura significativamente superior à oferta disponível.
Preços competitivos ajudam a explicar a procura
Um dos principais motivos para o interesse pela CFMoto está no posicionamento de preços. A fabricante estreou com quatro motocicletas de média cilindrada, motores bicilíndricos e uma lista de equipamentos que inclui, dependendo do modelo, controle de tração, painel TFT, conectividade, rodas raiadas e suspensões ajustáveis.
A CL-C 450 foi anunciada por R$ 32.990, enquanto a CL-C 450 Bobber chegou por R$ 33.900. A aventureira Ibex 450 custa R$ 35.990, e a Ibex 700 tem preço sugerido de R$ 44.990. Segundo a fabricante, os valores incluem o frete até as concessionárias.
| Modelo | Motor | Potência aproximada | Preço sugerido |
| CL-C 450 | 449 cm³, bicilíndrico | 40 cv | R$ 32.990 |
| CL-C 450 Bobber | 449 cm³, bicilíndrico | 40 cv | R$ 33.900 |
| Ibex 450 | 449 cm³, bicilíndrico | 44 cv | R$ 35.990 |
| Ibex 700 | 693 cm³, bicilíndrico | 67,9 cv | R$ 44.990 |
A Ibex 450, por exemplo, oferece motor bicilíndrico de 449 cm³, 44 cv, embreagem assistida e deslizante, suspensão KYB, rodas raiadas sem câmara, ABS Bosch e painel TFT com conectividade.
Esse conjunto ajuda a explicar por que a moto passou a ser comparada com modelos tradicionais de marcas japonesas, mesmo que existam diferenças importantes em cilindrada, proposta, rede de assistência e histórico de confiabilidade.
Comparação com Honda Sahara e Yamaha Lander exige cautela
Nas redes sociais, consumidores frequentemente comparam a Ibex 450 com a Honda Sahara 300 e a Yamaha Lander 250. A comparação ganhou força porque os preços sugeridos das três motos estão relativamente próximos.
A Yamaha Lander Connected 2026 tem preço sugerido de R$ 28.990, sem frete. Seu motor monocilíndrico de 249 cm³ entrega 20,9 cv e 2,1 kgfm de torque, associado a um câmbio de cinco marchas.
Já a Honda Sahara 300 2027 parte de R$ 31.855 na configuração Standard, sobe para R$ 32.555 na Rally e alcança R$ 33.665 na Adventure, sem frete. A linha atualizada recebeu controle de tração, além de mudanças nos equipamentos e acabamento. O motor monocilíndrico flex de 293,5 cm³ chega a 25,2 cv quando abastecido com etanol.
| Modelo | Cilindrada | Potência | Preço sugerido inicial |
| Yamaha Lander 250 | 249 cm³ | 20,9 cv | R$ 28.990 |
| Honda Sahara 300 | 293,5 cm³ | Até 25,2 cv | R$ 31.855 |
| CFMoto Ibex 450 | 449 cm³ | 44 cv | R$ 35.990 |
A comparação mostra que a CFMoto oferece mais potência e equipamentos por uma diferença de preço relativamente pequena. Entretanto, potência e ficha técnica não são os únicos fatores considerados na compra.
Honda e Yamaha possuem redes de concessionárias muito maiores, maior disponibilidade de peças, ampla oferta de oficinas independentes e um mercado de usados consolidado. A CFMoto, por sua vez, ainda precisa construir reputação de longo prazo, ampliar o pós-venda e demonstrar como seus modelos se comportarão depois de vários anos de uso no Brasil.
Consumidor tem direito de reclamar, mas oferta limitada não significa fraude
A frustração de quem acessou a plataforma e não conseguiu concluir a reserva é compreensível. Quando milhares de pessoas disputam poucas centenas de unidades, falhas, lentidão e indisponibilidade podem gerar desconfiança.
O consumidor também pode questionar eventuais problemas no sistema, falta de transparência, cobranças indevidas ou divergências entre a oferta anunciada e as condições efetivamente apresentadas.
Por outro lado, o simples fato de um lote limitado se esgotar rapidamente não caracteriza, por si só, irregularidade. Para qualquer acusação de fraude, propaganda enganosa ou favorecimento, seria necessário apresentar provas concretas sobre a conduta da empresa.
Relatos de insultos, ameaças de processos e acusações contra a fabricante circulam nas redes sociais, mas não existe confirmação pública suficiente para afirmar que essas manifestações representam a maioria dos interessados.
O debate precisa separar críticas legítimas de ataques sem fundamento. A CFMoto deve prestar informações claras e melhorar sua capacidade de atendimento, enquanto consumidores devem evitar acusações que não possam ser comprovadas.
Revenda com ágio pode virar novo problema
Outro ponto de preocupação é a possibilidade de empresas ou compradores conseguirem unidades durante a abertura dos lotes para revendê-las posteriormente por preços superiores.
Anúncios de motocicletas novas da marca já aparecem em plataformas de classificados, embora a existência dessas ofertas não permita concluir automaticamente que houve compra em massa ou manipulação do sistema de reservas.
Caso a prática se torne frequente, a fabricante poderá precisar adotar mecanismos adicionais, como limite de reservas por CPF ou CNPJ, validação mais rigorosa dos dados, prioridade regional e regras contra transferências imediatas.
A venda com ágio não é um fenômeno exclusivo da CFMoto. Ela costuma aparecer quando um produto tem procura elevada, oferta reduzida e consumidores dispostos a pagar para evitar a espera.
CFMoto precisa crescer sem comprometer o pós-venda
A solução não depende apenas de colocar mais motos no sistema. A expansão precisa ser acompanhada por concessionárias, peças, treinamento técnico, estrutura de garantia e capacidade de manutenção.
A operação de motocicletas começou com oito concessionárias em sete cidades. Posteriormente, a marca anunciou Brasília como nova praça e indicou a continuidade da expansão nacional.
Aumentar rapidamente o volume sem preparar o pós-venda poderia criar um problema maior. Uma motocicleta vendida sem peças ou assistência adequada pode gerar mais prejuízo à imagem da marca do que uma reserva que não foi concluída.
Por isso, lotes menores podem fazer parte de uma estratégia de crescimento controlado. Ainda assim, depois de três etapas esgotadas em poucos minutos, a empresa precisa apresentar um plano mais claro para aumentar a produção e reduzir a distância entre oferta e procura.
Domínio de Honda e Yamaha começa a ser questionado
Honda e Yamaha construíram sua liderança ao longo de décadas. A confiança conquistada pelas marcas japonesas não surgiu apenas de campanhas publicitárias, mas também da ampla rede de lojas, facilidade de manutenção, disponibilidade de peças e valor de revenda.
Ao mesmo tempo, a chegada de empresas como CFMoto, Bajaj, Shineray e outras fabricantes asiáticas amplia as alternativas e pressiona as líderes a entregar mais tecnologia, equipamentos e desempenho.

Esse movimento pode beneficiar até mesmo quem nunca pretende comprar uma moto chinesa. Quanto maior a concorrência, maior tende a ser a pressão sobre preços, atualizações e condições de garantia.
A CFMoto ainda não ameaça o volume de vendas das líderes, mas o fato de milhares de pessoas disputarem cada lote mostra que existe espaço para produtos diferentes. O desafio será transformar o entusiasmo inicial em uma operação sustentável.
Vale apoiar a CFMoto ou cobrar a empresa?
As duas atitudes não são incompatíveis.
O consumidor pode reconhecer a importância da concorrência e, ao mesmo tempo, exigir um sistema de reservas funcional, atendimento eficiente, peças disponíveis e informações transparentes.
Também não é razoável tratar qualquer crítica como uma tentativa de destruir a fabricante. Da mesma forma, não é adequado transformar a frustração por uma reserva perdida em acusações sem provas.
A CFMoto conquistou atenção oferecendo motos potentes, equipadas e competitivas. Agora, precisa provar que consegue entregar mais do que uma boa ficha técnica.
O terceiro lote esgotado em cinco minutos mostra que compradores existem. A próxima etapa será demonstrar capacidade de produção, distribuição e pós-venda para atender a esse público sem comprometer a experiência de quem apostou na marca.
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