A queda recente do Ibovespa reacendeu o interesse por empresas consideradas mais defensivas, especialmente no setor elétrico. Em momentos de correção da Bolsa, é comum que o mercado pressione várias ações ao mesmo tempo, sem separar com clareza as companhias que enfrentam problemas reais daquelas que apenas acompanham o movimento geral de venda.
Nesse cenário, CPFL Energia e Cemig voltaram ao radar dos investidores. As duas atuam em um setor de receita mais previsível, com forte presença em distribuição de energia, mas vivem momentos diferentes em termos de geração de caixa, endividamento e necessidade de investimentos.
A dúvida central é simples: qual das duas parece mais atrativa após a queda do mercado? A resposta exige ir além da cotação. Embora a Cemig aparente ser mais barata em alguns múltiplos, a CPFL mostra uma estrutura operacional mais forte e maior capacidade de financiar seus investimentos sem pressionar tanto o caixa.
Preço menor não significa melhor oportunidade
A Cemig chama atenção por negociar com indicadores aparentemente mais descontados. O preço sobre valor patrimonial, por exemplo, fica em torno de 1,07 vez, enquanto a CPFL aparece próxima de 2 vezes. Em uma leitura rápida, isso poderia sugerir que a Cemig está muito mais barata.
O problema é que múltiplos isolados podem enganar. Empresas com maior previsibilidade, melhor retorno sobre o capital e geração de caixa mais forte costumam negociar com prêmio. É justamente esse o caso da CPFL. O mercado tende a pagar mais por negócios que entregam rentabilidade mais consistente e menor risco financeiro.
No indicador preço/lucro, a CPFL aparece ao redor de 8 vezes. Já em dividend yield, a Cemig pode parecer mais atrativa, com percentual superior ao da CPFL. Ainda assim, o investidor precisa observar se esses dividendos são sustentáveis diante do novo ciclo de investimentos.
Comparativo entre CPFL Energia e Cemig
| Indicador | CPFL Energia | Cemig |
| Dívida líquida/Ebitda | 2,31 vezes | 2,45 vezes |
| Ebitda trimestral aproximado | R$ 3,8 bilhões | R$ 1,8 bilhão |
| Plano de investimentos | cerca de R$ 31 bilhões | cerca de R$ 44 bilhões |
| Capex estimado em 2026 | até R$ 6,4 bilhões | até R$ 6,7 bilhões |
| P/VPA aproximado | 2 vezes | 1,07 vez |
| Perfil atual | Mais caixa e menor pressão relativa | Mais barata, mas com maior risco de execução |
O ponto mais importante está na relação entre geração de caixa e investimentos. A CPFL tem Ebitda trimestral próximo de R$ 3,8 bilhões, enquanto a Cemig gera cerca de R$ 1,8 bilhão. Ou seja, a CPFL produz praticamente o dobro de caixa operacional.
Mesmo assim, a Cemig planeja investir mais. O plano da companhia é de aproximadamente R$ 44 bilhões entre 2026 e 2030. Já a CPFL projeta algo em torno de R$ 31 bilhões no ciclo. Isso muda completamente a análise.
Cemig tem desconto, mas também mais pressão
A Cemig pode ser vista como uma tese de crescimento de longo prazo. A companhia pretende acelerar investimentos e ampliar sua base de ativos, o que pode gerar retorno no futuro. No entanto, esse crescimento exige capital agora.
Com dívida líquida/Ebitda em torno de 2,45 vezes, a Cemig já parte de uma posição um pouco mais pressionada que a CPFL. A diferença não é enorme, mas se torna relevante quando comparada ao tamanho do plano de investimentos. Uma empresa que gera menos caixa e pretende investir mais tende a depender mais de dívida, retenção de lucro ou redução na distribuição de proventos.
Por isso, a tese da Cemig exige paciência. O investidor precisa aceitar um risco maior de execução, já que o retorno dos investimentos não é imediato. Se os projetos entregarem o resultado esperado, a companhia pode crescer. Caso contrário, o aumento do endividamento pode pesar sobre os dividendos e sobre o valor da ação.
CPFL aparece mais equilibrada
A CPFL, por sua vez, combina maior escala, melhor geração de caixa e menor necessidade relativa de investimentos. Mesmo com capex elevado, a empresa parece mais preparada para manter fluxo de caixa positivo e remunerar o acionista de forma mais previsível.
Outro ponto favorável é a rentabilidade. O retorno sobre o capital investido da CPFL gira em torno de 15%, acima da média da Cemig, próxima de 12%. Esse indicador ajuda a explicar por que a CPFL negocia com múltiplos mais altos. O mercado não olha apenas para o preço; ele também precifica qualidade.
Além disso, a CPFL já conta com concessões prorrogadas por longo prazo, o que reduz uma parte importante da incerteza regulatória. Isso aumenta a previsibilidade do negócio e fortalece a leitura de que a companhia pode atravessar o ciclo de investimentos com menor pressão financeira.
Qual elétrica parece melhor agora
No comparativo direto, a CPFL Energia parece mais bem posicionada. A Cemig está mais barata em alguns indicadores, mas carrega um desafio maior: investir mais, com geração de caixa menor e alavancagem ligeiramente superior.
Isso não significa que a Cemig seja uma má empresa ou que não possa entregar bons resultados no longo prazo. A questão é que, no momento atual, ela parece depender mais da execução bem-sucedida de um ciclo pesado de investimentos.
Para o investidor que busca equilíbrio entre crescimento, dividendos e menor risco financeiro, a CPFL Energia se destaca. Após a queda do Ibovespa, as duas elétricas podem ter voltado ao radar, mas a CPFL parece oferecer uma combinação mais sólida de caixa, rentabilidade e previsibilidade.
Quer saber tudo
o que está acontecendo?
Receba todas as notícias da A Revista no seu WhatsApp.
Entre em nosso grupo e fique bem informado.






