O Brasil pode estar prestes a dar um passo decisivo na modernização de suas forças terrestres. Uma proposta apresentada ao Exército Brasileiro prevê a produção local do blindado de combate CV90, um dos veículos de infantaria mais testados e utilizados da Europa.
Desenvolvido pela empresa britânica BAE Systems Hägglunds, o CV90 é considerado uma plataforma de combate moderna e altamente adaptável. Caso seja escolhido pelo Brasil, o projeto pode ir muito além de uma simples aquisição militar. A decisão pode representar um movimento estratégico com impacto direto na capacidade de combate, na indústria nacional de defesa e na autonomia tecnológica do país pelos próximos 30 a 40 anos.
A proposta envolve a possibilidade de produção do veículo em território brasileiro, com integração da indústria local na cadeia de suprimentos global do programa.
Um exército que precisa se modernizar
O Exército Brasileiro opera atualmente diversos blindados que já ultrapassaram décadas de serviço.
Entre eles está o M113, veículo de transporte blindado que foi desenvolvido originalmente nos anos 1960 e que durante muito tempo foi a espinha dorsal das tropas mecanizadas brasileiras.
Outro exemplo é o M109, utilizado na artilharia autopropulsada. Apesar de modernizações ao longo dos anos, o projeto original também pertence a uma geração anterior de doutrina militar.
O cenário de guerra mudou drasticamente nas últimas décadas. Conflitos recentes, como a guerra na Ucrânia, demonstraram que blindados modernos precisam integrar:
sensores avançados
sistemas digitais de comando e controle
proteção ativa contra mísseis
integração em rede com drones e satélites
Nesse novo ambiente operacional, plataformas antigas tornam-se cada vez mais vulneráveis.
É justamente nesse contexto que surge a proposta de adoção do CV90 como novo veículo de combate de infantaria do Exército Brasileiro.
O que é o blindado CV90
O CV90 (Combat Vehicle 90) é uma família de veículos blindados desenvolvida originalmente na Suécia durante a década de 1980.
Desde então, o projeto passou por diversas evoluções tecnológicas, chegando às versões mais modernas, como:
CV90 MkIII
CV90 MkIV
Essas versões incorporam avanços significativos em blindagem, eletrônica e capacidade de combate.
Hoje o veículo é utilizado por vários países europeus e integra forças militares como:
Suécia
Noruega
Finlândia
Dinamarca
Holanda
Estônia
Suíça
República Tcheca
Eslováquia
O CV90 também já foi utilizado em cenários de combate reais, incluindo operações no Afeganistão, o que reforça sua reputação como plataforma militar consolidada.
Tecnologia avançada no campo de batalha
O CV90 é considerado um dos veículos de combate de infantaria mais avançados da atualidade.
Entre suas capacidades estão:
Armamento
O blindado pode ser equipado com canhões automáticos de:
30 mm
35 mm
Dependendo da configuração, também pode integrar mísseis antitanque.
Sensores modernos
O sistema inclui:
sensores térmicos de última geração
câmeras de visão noturna
sistemas de detecção de ameaças
Esses recursos permitem operar em ambientes complexos e em combate noturno.
Proteção avançada
O veículo pode receber sistemas de proteção ativa, capazes de interceptar mísseis ou projéteis antiblindagem antes do impacto.
Integração digital
O CV90 funciona como uma plataforma de combate conectada, integrando-se a redes de comando e controle, drones e sistemas de vigilância.
Isso permite que as unidades no campo de batalha compartilhem informações em tempo real.
Produção no Brasil pode mudar a indústria de defesa
Um dos pontos centrais da proposta da BAE Systems é a possível fabricação do CV90 no Brasil.
Segundo a empresa, caso o blindado seja escolhido, o país poderia receber:
transferência de tecnologia
participação da indústria nacional
criação de um polo logístico e industrial
integração na cadeia global de suprimentos do veículo
Atualmente, o CV90 já possui linhas de produção em diferentes países, operadas pelas indústrias locais dos clientes.
Em alguns casos, centenas de empresas participam da cadeia produtiva, desde fabricantes de componentes estruturais até sistemas eletrônicos.
Se esse modelo for replicado no Brasil, o impacto pode incluir:
geração de empregos altamente qualificados
desenvolvimento tecnológico
fortalecimento da base industrial de defesa
inserção internacional na cadeia militar europeia
Transferência de tecnologia: promessa ou limite?
Apesar do potencial industrial, especialistas destacam que o sucesso do projeto depende do grau real de transferência tecnológica.
Produção local pode significar diferentes níveis de participação.
Entre eles:
montagem final do veículo
fabricação de partes estruturais
produção de componentes críticos
domínio completo da engenharia do sistema
A diferença entre esses níveis é decisiva para determinar se o Brasil terá autonomia operacional ou dependência tecnológica.
Blindados modernos exigem manutenção contínua, atualizações de software e substituição de componentes eletrônicos ao longo de décadas.
Se o país depender de autorizações externas para produzir ou atualizar peças, isso pode limitar sua autonomia estratégica.
O precedente do caça Gripen
A parceria entre Brasil e Suécia já possui um exemplo relevante: o programa do caça Gripen E/F.
Nesse projeto, empresas brasileiras participaram ativamente do desenvolvimento do avião, com transferência de conhecimento e treinamento de engenheiros.
Se o modelo for replicado no campo terrestre, o programa do CV90 poderia se tornar um dos maiores projetos industriais militares já realizados no Brasil.
Isso abriria espaço para a criação de um polo nacional de blindados modernos.
Desafio de operar no território brasileiro
Outro ponto analisado pelo Exército é a adaptação do veículo ao ambiente operacional do país.
O território brasileiro possui características extremamente diversas, incluindo:
selva amazônica
cerrado
regiões alagadas
áreas montanhosas
O CV90 foi originalmente projetado para ambientes europeus, incluindo condições de inverno rigoroso.
Embora plataformas modernas sejam adaptáveis, especialistas destacam que a adaptação completa exige ajustes em:
mobilidade
refrigeração do motor
proteção contra umidade e lama
logística de manutenção em regiões remotas
Esses fatores serão analisados caso o projeto avance.
O custo de um blindado moderno
Blindados modernos não são caros apenas na aquisição inicial.
Grande parte do custo está no chamado ciclo de vida do equipamento, que inclui:
manutenção
atualização tecnológica
treinamento
logística de peças
Como o CV90 possui sistemas eletrônicos avançados e sensores complexos, o suporte técnico exige infraestrutura especializada.
Produzir o veículo no Brasil poderia reduzir custos no longo prazo, mas isso depende de escala industrial e contratos bem estruturados.
Impacto geopolítico da escolha
Escolher o CV90 também possui uma dimensão internacional.
Ao adotar a plataforma, o Brasil passaria a operar o mesmo sistema utilizado por diversos países europeus.
Isso poderia facilitar:
treinamentos conjuntos
cooperação militar internacional
intercâmbio tecnológico
Por outro lado, decisões desse tipo também possuem implicações diplomáticas.
A Suécia, país onde o CV90 foi desenvolvido, recentemente ingressou na OTAN, o que altera o ambiente estratégico europeu.
O Brasil, tradicionalmente, mantém uma política externa pragmática e multivetorial, evitando alinhamentos militares rígidos.
Uma decisão que pode moldar o Exército por décadas
A substituição dos blindados sobre lagartas do Exército Brasileiro é considerada inevitável.
A questão central não é se isso acontecerá, mas como.
O programa do CV90 representa duas possibilidades estratégicas:
adquirir rapidamente uma plataforma consolidada com produção local
desenvolver um blindado nacional, com maior autonomia, mas mais risco e custo
Cada caminho possui vantagens e desafios.
Se a produção do CV90 no Brasil incluir transferência tecnológica real e participação profunda da indústria nacional, o programa poderá representar um marco na consolidação da base industrial de defesa brasileira.
Caso contrário, poderá se tornar apenas mais uma aquisição militar relevante, porém com impacto industrial limitado.
A decisão final ainda não foi anunciada oficialmente, mas a movimentação da BAE Systems indica que a disputa pelo futuro blindado do Exército Brasileiro já está em andamento.
E a escolha feita agora poderá influenciar a capacidade militar, a indústria nacional e a autonomia estratégica do Brasil pelas próximas quatro décadas.
Quer saber tudo
o que está acontecendo?
Receba todas as notícias da A Revista no seu WhatsApp.
Entre em nosso grupo e fique bem informado.






