O fundo imobiliário TRXF11, gerido pela TRX Real Estate, vive um dos momentos mais delicados de sua história recente. Após uma sequência intensa de aquisições bilionárias, o fundo passou a ser observado com mais atenção pelo mercado, especialmente diante de questionamentos sobre preço dos ativos, alavancagem, uso de cotas nas compras e falta de clareza nos relatórios.
Com mais de 209 mil cotistas, patrimônio robusto e presença relevante no IFIX, o TRXF se consolidou como um dos maiores fundos do segmento de varejo e renda urbana do país. No entanto, o crescimento acelerado começa a cobrar seu preço.
Cotação pressionada e possível aumento de volatilidade
Atualmente negociado próximo da região dos R$ 95 a R$ 100, o TRXF11 já apresenta sinais de perda de força no curto prazo. Parte do mercado acredita que, com a liberação de cotas usadas como moeda em aquisições, a pressão vendedora pode aumentar, elevando a volatilidade do papel.
Apesar disso, o fundo segue distribuindo R$ 0,93 por cota, valor acima do resultado recorrente recente, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade dos dividendos no médio prazo.
Números do TRXF11 chamam atenção
Entre os principais dados do fundo, destacam-se:
- Cotistas: cerca de 209 mil
- Liquidez diária: aproximadamente R$ 9 milhões
- Valor patrimonial por cota: R$ 101,93
- Distribuição recente: R$ 0,93 por cota
- Alavancagem: cerca de 21% (considerando apenas CRIs)
A expectativa é que a liquidez aumente ainda mais após o encerramento das ofertas e liquidação das operações em andamento.
Aquisições bilionárias e cap rates questionados
Nos últimos meses, o TRXF realizou uma série de aquisições relevantes, incluindo:
- Imóveis do Assaí Atacadista, com cap rate em torno de 8%
- Sete imóveis do Atacadão, somando quase R$ 300 milhões
- Galpão logístico em Varginha, avaliado em cerca de R$ 285 milhões
- Quatro imóveis do Grupo Mateus, na casa de R$ 380 milhões
- 14 agências bancárias da Caixa Econômica Federal, adquiridas por cerca de R$ 140 milhões
É justamente nesse ponto que surgem as maiores críticas. O cap rate médio próximo de 10%, especialmente para ativos como agências bancárias com contratos típicos e multa reduzida, é visto por parte do mercado como baixo, considerando o risco e a natureza dos imóveis.
Agências bancárias: compra na contramão do mercado
A aquisição de agências bancárias gerou forte debate. Enquanto o setor imobiliário vê uma tendência clara de desmobilização desse tipo de ativo, o TRXF decidiu ir na direção oposta.
Gestoras concorrentes, inclusive com histórico sólido no segmento, vêm vendendo esse tipo de imóvel. No caso do TRXF, a justificativa apresentada foi a localização estratégica e potencial de valorização, argumento que não convenceu totalmente o mercado.
Estruturação de novo fundo levanta dúvidas
Outro ponto sensível foi a criação de uma estrutura paralela para aquisição de ativos logísticos, com o objetivo de evitar pagamento de ITBI. Embora a economia tributária seja vista como positiva, surgiram críticas quanto ao fato de a gestão terceirizar a operação dos ativos, alegando falta de expertise específica.
O receio dos cotistas é claro: pagamento indireto de duas taxas e diluição de eficiência operacional.
Distribuição acima do resultado e uso de reservas
No último resultado, o TRXF11:
- Gerou cerca de R$ 0,84 por cota
- Distribuiu R$ 0,93
- Utilizou parte das reservas acumuladas
Apesar de ainda existir colchão de reserva, cresce a percepção de que distribuições extraordinárias no fim do semestre são improváveis, especialmente diante do ciclo intenso de investimentos e do aumento da alavancagem.
Falta de transparência preocupa cotistas
Um dos pontos mais criticados é a ausência de uma visão clara e consolidada do caixa, parcelas a pagar, parcelas a receber e compromissos futuros.
Enquanto grandes gestoras do mercado divulgam tabelas detalhadas com:
- Fluxo de caixa futuro
- Parcelamentos de aquisições
- Amortizações previstas
- Recebíveis contratados
No TRXF, essas informações aparecem de forma fragmentada, exigindo que o próprio cotista monte planilhas para entender a real situação financeira do fundo.
Gestão sob pressão: mercado exige maturidade
O sentimento predominante é que o TRXF chegou a um novo patamar, onde erros de comunicação custam caro. Fundos desse porte não podem operar com nível de transparência inferior ao das principais casas do mercado.
A cobrança não é por menos crescimento, mas por mais clareza, previsibilidade e profissionalismo.
Crescimento agora exige disciplina
O TRXF11 continua sendo um fundo relevante, com portfólio diversificado, contratos longos e grande base de cotistas. No entanto, o momento exige que a gestão “coloque a bola no chão”, reduza ruídos, organize informações e entregue relatórios mais completos.
Em um mercado cada vez mais exigente, transparência deixou de ser diferencial e passou a ser obrigação.
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