Empresas listadas na Bolsa podem alterar a quantidade de ações em circulação por meio de duas operações conhecidas como desdobramento, ou split, e grupamento, também chamado de inplit ou reverse split.
Embora os nomes possam causar dúvidas, a lógica é relativamente simples: no desdobramento, uma ação é dividida em várias unidades de menor preço. No grupamento, várias ações são reunidas para formar uma única ação de valor unitário mais elevado.
Em condições normais, nenhuma dessas operações cria riqueza imediata nem provoca uma perda automática para o acionista. O número de ações e o preço de cada papel são ajustados proporcionalmente, mantendo o valor financeiro total da posição no momento da operação.
É como dividir uma pizza em uma quantidade maior ou menor de pedaços: o tamanho de cada fatia muda, mas a quantidade total de pizza permanece a mesma. Essa comparação também é utilizada pelo Portal do Investidor para explicar o funcionamento das operações.
Como funciona o desdobramento de ações?
O desdobramento acontece quando uma empresa aumenta o número de ações em circulação, reduzindo proporcionalmente o preço unitário de cada papel.
Imagine que um investidor possua uma ação avaliada em R$ 100,00. Caso a companhia aprove um desdobramento de uma ação para cinco, ele passará a ter cinco ações avaliadas, teoricamente, em R$ 20,00 cada.
Antes da operação:
- 1 ação;
- preço de R$ 100,00;
- patrimônio total de R$ 100,00.
Depois do desdobramento:
- 5 ações;
- preço teórico de R$ 20,00 cada;
- patrimônio total de R$ 100,00.
O mesmo ajuste ocorre com o total de ações da companhia. A empresa passa a ter mais papéis em circulação, mas seu valor de mercado não aumenta somente por causa do desdobramento.

Por que uma empresa desdobra suas ações?
Um dos principais objetivos é reduzir o preço unitário do papel e facilitar sua negociação. Quando uma ação se valoriza muito, a compra de um lote padrão pode exigir uma quantidade elevada de dinheiro.
Na B3, o tamanho do lote padrão é definido pelo emissor, mas geralmente corresponde a 100 ações. Quantidades inferiores podem ser negociadas no mercado fracionário.
Considere uma ação negociada por R$ 100,00. Um lote padrão com 100 unidades custaria R$ 10.000,00. Depois de um desdobramento de cinco para um, o preço teórico cairia para R$ 20,00 e o mesmo lote passaria a representar R$ 2.000,00.
Apesar de o investidor poder comprar menos de 100 ações no mercado fracionário, a redução do preço unitário pode tornar o papel mais acessível, ampliar a base de interessados e favorecer a negociação.
O mercado fracionário permite negociar quantidades inferiores ao lote padrão, normalmente de uma a 99 ações quando o lote principal corresponde a 100 unidades.
Desdobramento aumenta a liquidez?
O desdobramento pode contribuir para aumentar a liquidez, principalmente quando o preço unitário elevado dificulta a entrada de investidores menores.
Com ações mais baratas individualmente, mais participantes podem conseguir montar posições ou ajustar suas carteiras. Isso pode aumentar o número de ordens de compra e venda e melhorar o volume negociado.
Entretanto, o aumento de liquidez não é garantido. O interesse pelo papel continuará dependendo de fatores como resultados financeiros, perspectivas do negócio, governança, nível de endividamento e confiança do mercado.
Uma empresa não se torna mais lucrativa apenas porque desdobrou suas ações.
Como funciona o grupamento de ações?
O grupamento realiza o movimento contrário. A companhia reduz a quantidade de ações em circulação e aumenta proporcionalmente o preço unitário dos papéis.
Suponha que um investidor tenha dez ações cotadas a R$ 0,90 cada, totalizando R$ 9,00. Em um grupamento de dez para uma, as dez ações serão reunidas em uma nova unidade, cujo preço teórico será de R$ 9,00.
Antes do grupamento:
- 10 ações;
- preço de R$ 0,90 cada;
- patrimônio total de R$ 9,00.
Depois do grupamento:
- 1 ação;
- preço teórico de R$ 9,00;
- patrimônio total de R$ 9,00.
Novamente, não existe ganho automático. O valor da posição permanece o mesmo no instante do ajuste, desconsiderando oscilações normais do mercado, custos e eventuais tratamentos aplicáveis às frações.
Por que as empresas fazem grupamento?
O grupamento costuma ser realizado quando o preço de uma ação está muito baixo. Um dos objetivos é retirar o papel da faixa conhecida como “penny stock”, expressão utilizada para ações negociadas por valores muito reduzidos.
Preços excessivamente baixos podem aumentar a volatilidade percentual. Em uma ação cotada a R$ 0,20, por exemplo, uma oscilação de apenas R$ 0,01 representa uma variação de 5%.
Ao elevar o preço unitário, a companhia tenta reduzir esse efeito, melhorar a organização da base acionária e adequar o papel às regras de negociação da Bolsa.
A própria orientação da B3 sobre grupamentos aponta, entre os objetivos da operação, a mitigação do risco de volatilidade excessiva e o atendimento às normas aplicáveis aos emissores.
Ações abaixo de R$ 1,00 podem provocar grupamento
A B3 mantém regras para companhias cujas ações permanecem cotadas abaixo de R$ 1,00 durante determinado período. Quando o papel permanece nessa situação, a empresa pode ser notificada para apresentar medidas destinadas a elevar a cotação.
Entre as alternativas mais utilizadas está justamente o grupamento de ações. A operação eleva o preço nominal do papel, mas não resolve, por si só, os problemas econômicos ou financeiros da companhia.
Caso a empresa continue apresentando prejuízos, endividamento elevado ou deterioração operacional, as ações poderão voltar a cair mesmo depois do grupamento.
Grupamento significa que a empresa é ruim?
Não necessariamente.
É verdade que muitos grupamentos ocorrem após longos períodos de desvalorização, principalmente em empresas que atravessam dificuldades financeiras. Por isso, a operação costuma ser vista com desconfiança.
Entretanto, o grupamento isoladamente não é suficiente para definir a qualidade de uma companhia. Ele também pode ser utilizado para reorganizar a estrutura acionária, reduzir oscilações excessivas, ajustar a quantidade de papéis ou atender a exigências da Bolsa.
Da mesma maneira, um desdobramento não significa automaticamente que uma empresa seja excelente. Ele pode acontecer após uma valorização consistente, mas o investidor ainda precisa analisar os fundamentos do negócio.
A conclusão mais segura é que grupamentos exigem atenção adicional, enquanto desdobramentos geralmente refletem a intenção de tornar o preço unitário mais acessível. Nenhuma das duas operações substitui uma análise completa da companhia.
O que acontece com as frações de ações?
Quando a quantidade de ações do investidor não é divisível pela proporção do grupamento, podem surgir frações.
Imagine um acionista com 25 papéis em uma operação de grupamento de dez para uma. Ele teria direito a duas novas ações inteiras e sobraria uma fração equivalente a cinco ações antigas.
A companhia deve explicar no aviso aos acionistas como essas frações serão tratadas. Normalmente, existe um período para que o investidor compre ou venda ações e ajuste sua posição. Depois disso, as frações remanescentes podem ser reunidas, vendidas em leilão e o valor proporcional distribuído aos respectivos acionistas.
As condições, datas e procedimentos variam de acordo com cada operação. Por isso, é necessário acompanhar os comunicados oficiais da empresa, os avisos aos acionistas e as informações divulgadas à CVM e à B3.
Dividendos também são ajustados?
Sim. Quando ocorre um desdobramento ou grupamento, valores expressos por ação precisam ser analisados proporcionalmente.
No desdobramento, o investidor passa a ter mais ações. Dessa forma, um dividendo por ação pode ficar matematicamente menor, sem que isso represente necessariamente uma redução do montante total recebido.
Se uma companhia pagava R$ 1,00 por ação e realizou um desdobramento de uma para cinco, um pagamento proporcional poderia passar a R$ 0,20 por ação. Como o acionista passou a ter cinco vezes mais papéis, o valor total seria equivalente.
O cálculo real dependerá do lucro, da política de distribuição e da aprovação dos proventos pela empresa. O desdobramento não garante a manutenção dos dividendos futuros.
O preço da ação pode subir após a operação?
Pode, mas também pode cair.
Após o ajuste técnico, o papel volta a ser negociado normalmente e passa a responder às condições de oferta e procura. Resultados trimestrais, juros, notícias, mudanças regulatórias, endividamento e expectativas dos investidores continuam influenciando a cotação.
Um desdobramento pode gerar maior interesse e ampliar a negociação, mas não existe garantia de valorização. Da mesma forma, um grupamento não impede novas quedas.
O grupamento apenas altera a escala do preço. Uma ação que passou de R$ 0,50 para R$ 5,00 depois de um grupamento de dez para uma poderá voltar a perder valor caso os problemas da empresa permaneçam.

O que o investidor deve analisar?
Antes de interpretar um desdobramento como sinal de compra ou um grupamento como motivo automático para venda, o investidor deve observar:
- razão apresentada pela companhia;
- proporção da operação;
- datas de aprovação e efetivação;
- tratamento das frações;
- histórico de grupamentos anteriores;
- liquidez média do papel;
- resultados financeiros;
- geração de caixa;
- nível de endividamento;
- perspectivas para o negócio.
Também é importante conferir se a operação foi aprovada pelos acionistas e consultar o fato relevante ou aviso oficial divulgado pela empresa.
Desdobramento e grupamento não alteram os fundamentos
A principal conclusão é que as duas operações são ajustes na estrutura das ações.
O desdobramento aumenta a quantidade de papéis e reduz seu preço unitário. O grupamento diminui a quantidade e eleva o preço por ação. Nos dois casos, o valor total da participação do investidor tende a permanecer equivalente no momento da conversão.
O que determina a criação ou destruição de valor ao longo do tempo não é a quantidade de ações na carteira, mas a capacidade da empresa de crescer, gerar lucros, controlar dívidas, remunerar os acionistas e executar sua estratégia.
Por isso, o investidor não deve tomar decisões apenas com base no novo preço exibido no aplicativo da corretora. É necessário entender a proporção da operação e avaliar os fundamentos da companhia.
Quer saber tudo
o que está acontecendo?
Receba todas as notícias da A Revista no seu WhatsApp.
Entre em nosso grupo e fique bem informado.






