O Banco do Brasil iniciou a renegociação de operações rurais potencialmente elegíveis que somam até R$ 100 bilhões. A medida pode ajudar a reduzir a pressão da inadimplência do agronegócio sobre as provisões e o lucro do banco, mas seus efeitos sobre as ações BBAS3 e os dividendos dependerão dos valores efetivamente contratados e da capacidade de pagamento dos produtores.
Segundo informações divulgadas pelo banco e publicadas pela Reuters, aproximadamente 113 mil clientes podem atender aos critérios da Medida Provisória 1.376. O número representa o universo potencial da iniciativa, não o total que necessariamente será renegociado.
Também não significa que o Banco do Brasil receberá R$ 100 bilhões imediatamente. Parte dessas operações permanece adimplente, embora já tenha sido prorrogada ou renegociada anteriormente.
Por que a renegociação importa para BBAS3
A deterioração da carteira rural tornou-se um dos principais pontos de preocupação para quem acompanha o Banco do Brasil. No segundo trimestre de 2026, a inadimplência acima de 90 dias no agronegócio chegou a 6,27%, ante 3,16% no mesmo período do ano anterior.
A carteira agro do banco alcançou R$ 421,6 bilhões. Como o volume é elevado, mesmo pequenas variações nos índices de inadimplência podem exigir provisões bilionárias e consumir parte relevante da receita gerada pelas operações de crédito.
No resultado do segundo trimestre, o Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, crescimento de 13,9% em relação aos três primeiros meses de 2026. Apesar da melhora trimestral, o lucro acumulado no primeiro semestre ficou em R$ 7,3 bilhões, queda de 34,2% na comparação anual.
Os números reforçam a leitura apresentada anteriormente pela A Revista: o lucro melhorou no segundo trimestre, mas a qualidade do crédito continuou exigindo atenção.
A renegociação pode contribuir para interromper a deterioração da carteira. Isso, porém, não ocorre automaticamente. Ao alongar os pagamentos, o banco troca uma obrigação com baixa perspectiva de recebimento no curto prazo por um novo contrato potencialmente mais viável.
Se os produtores conseguirem cumprir as novas condições, a instituição poderá observar melhora gradual na pontualidade e menor necessidade de provisões. Caso as operações voltem a apresentar atrasos, o risco apenas terá sido postergado.
R$ 100 bilhões não estão todos inadimplentes
O volume anunciado precisa ser interpretado com cautela. Dos créditos potencialmente elegíveis, aproximadamente R$ 36,7 bilhões estavam inadimplentes no segundo trimestre. O restante corresponde, principalmente, a operações ainda em dia, mas que passaram anteriormente por prorrogação ou renegociação.
A administração do Banco do Brasil trabalha inicialmente com um volume mais restrito de adesões. Dessa forma, os efeitos sobre o balanço dependerão de três fatores principais:
- valor efetivamente renegociado;
- classificação de risco das novas operações;
- regularidade dos pagamentos após a reestruturação.
Não é possível concluir, apenas com base no limite de R$ 100 bilhões, qual será o impacto final sobre o lucro ou os dividendos de BBAS3.
Quem pode participar do programa
A Medida Provisória 1.376 estabelece critérios específicos. Podem ser atendidos produtores rurais e cooperativas que tenham registrado perdas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta agropecuária esperada.
As perdas precisam estar relacionadas a eventos climáticos extremos ou à queda dos preços dos produtos financiados e devem ser comprovadas por laudo emitido por profissional habilitado.
| Público | Limite de crédito | Taxa anual |
|---|---|---|
| Agricultores familiares do Pronaf | Até R$ 400 mil | 6% |
| Produtores enquadrados no Pronamp | Até R$ 2 milhões | 9% |
| Demais produtores rurais | Até R$ 4 milhões | 12% |
O prazo de pagamento pode chegar a oito anos. A primeira amortização do principal vence dois anos depois da contratação, embora exista pagamento de juros durante o período de carência.
A concessão não é automática. Cada instituição financeira deve avaliar a operação conforme suas políticas internas de crédito.
Lucro maior pode significar recuperação dos dividendos?
Uma eventual redução do custo do crédito abriria espaço para a recuperação da rentabilidade e da remuneração aos acionistas. Isso não significa, entretanto, que os dividendos retornarão imediatamente aos patamares observados antes da crise da carteira rural.
O Banco do Brasil precisa primeiro converter a renegociação em pagamentos regulares, estabilizar a inadimplência e reduzir as despesas com perdas esperadas. Somente depois disso será possível avaliar uma retomada mais consistente do lucro e dos proventos.
No segundo trimestre, o custo do crédito permaneceu elevado, em R$ 18,5 bilhões. O agronegócio respondeu por R$ 8,4 bilhões desse montante, confirmando que o setor continua sendo o maior foco de pressão sobre os resultados.
Esse cenário ajuda a explicar por que BBAS3 continua negociada com forte desconto em relação ao patrimônio, mas ainda desperta preocupação.
Morgan Stanley retira Banco do Brasil da carteira
O início da renegociação ocorreu na mesma semana em que o Morgan Stanley adotou postura mais defensiva em relação ao mercado brasileiro.
O banco americano reduziu a recomendação para as ações brasileiras de overweight para equal-weight e retirou Banco do Brasil de sua carteira. A decisão foi atribuída às incertezas fiscais e eleitorais e à piora da relação entre risco e retorno no mercado local.
A mudança não equivale a uma recomendação individual de venda de BBAS3. Trata-se de um ajuste na estratégia do Morgan Stanley para o Brasil, que também envolveu redução de posições em XP e B3 e inclusão da Suzano como proteção diante de uma possível desvalorização do real.
Para o investidor, o desconto da ação precisa ser analisado juntamente com os riscos. A A Revista já mostrou por que um múltiplo baixo não elimina as incertezas sobre a qualidade do crédito e a recuperação do lucro.
O que acompanhar nos próximos resultados
O principal indicador não será o limite de R$ 100 bilhões, mas o montante efetivamente renegociado e o comportamento dessas operações nos meses seguintes.
Também deverão permanecer no radar:
- inadimplência acima de 90 dias no agronegócio;
- custo do crédito e novas provisões;
- recuperação de operações baixadas como prejuízo;
- lucro líquido ajustado;
- retorno sobre o patrimônio;
- política de distribuição de dividendos.
O Banco do Brasil divulgará as informações financeiras do terceiro trimestre em 11 de novembro de 2026. Esse resultado poderá oferecer os primeiros sinais mais concretos sobre o alcance da renegociação, embora os efeitos completos devam levar mais tempo para aparecer.
Quer saber tudo
o que está acontecendo?
Receba todas as notícias da A Revista no seu WhatsApp.
Entre em nosso grupo e fique bem informado.






