As ações de Sabesp (SBSP3), Copasa (CSMG3) e Sanepar (SAPR4) oferecem exposição ao mesmo setor, mas representam teses de investimento bastante diferentes em 2026. Enquanto a Sabesp executa um plano de expansão sem precedentes, a Copasa começa uma nova fase sob influência da Equatorial e a Sanepar enfrenta os efeitos de uma decisão regulatória envolvendo recursos bilionários.
A comparação dos resultados mais recentes não aponta uma vencedora absoluta. A Sabesp reúne maior escala e perspectiva de crescimento, mas precisa transformar investimentos elevados em retorno. A Copasa carrega expectativa de ganhos de eficiência ainda não comprovados. Já a Sanepar apresenta menor alavancagem, porém permanece exposta a decisões do controlador público e da agência reguladora.
Por isso, avaliar apenas o preço unitário das ações — especialmente depois dos desdobramentos realizados pelas companhias — pode levar a conclusões equivocadas. O que importa é quanto o investidor paga pelo lucro, pelos ativos e pela geração futura de caixa.
Sabesp aposta R$ 84 bilhões na expansão
A Sabesp tornou-se a principal tese de crescimento do setor após sua privatização. No Investor Day de 2026, a companhia ampliou de R$ 64 bilhões para R$ 84 bilhões a previsão de investimentos entre 2026 e 2030. Somente neste ano, o plano contempla aproximadamente R$ 20 bilhões.
O avanço do Capex está ligado à antecipação das metas de universalização dos serviços de água e esgoto, além da redução de perdas e da expansão do atendimento em áreas vulneráveis.
Essa escala cria potencial para aumentar a base de clientes e a receita regulada. O risco é que os novos projetos não entreguem retorno no ritmo esperado ou pressionem custos, endividamento e geração de caixa.
No segundo trimestre de 2026, a receita de saneamento da Sabesp cresceu 9,4% na comparação anual. O Ebitda ajustado, entretanto, recuou 2,3%, para aproximadamente R$ 3,5 bilhões, refletindo aumento das despesas operacionais e pressões inflacionárias. O lucro líquido ajustado somou cerca de R$ 1,2 bilhão.
Esses números mostram o principal ponto de atenção em SBSP3: crescer a receita não será suficiente se os investimentos e custos avançarem mais rapidamente que a eficiência operacional.
Copasa começa a provar a tese da privatização
A Copasa passou por uma mudança estrutural em junho de 2026, quando a Gerais Saneamento, controlada pela Equatorial, adquiriu 30% do capital da companhia. O preço da operação foi de R$ 49,03 por ação, totalizando aproximadamente R$ 5,6 bilhões.
A entrada da Equatorial elevou a expectativa por melhorias de governança, produtividade e disciplina na alocação de capital. A empresa tem histórico de recuperação operacional em distribuidoras de energia, mas a repetição desse desempenho no saneamento ainda precisa ser demonstrada.
A transação, por si só, não reduz despesas nem melhora margens imediatamente. Mudanças em contratos, estrutura de pessoal, processos internos e investimentos levam tempo para aparecer nos balanços.
No segundo trimestre, a Copasa registrou crescimento de aproximadamente 12% no Ebitda. O desempenho operacional foi favorecido pelo reajuste tarifário de 6,56%, pelo aumento dos volumes medidos e pela expansão dos serviços de esgoto.
Por outro lado, maiores despesas financeiras e depreciação limitaram o avanço do resultado líquido. A companhia também planeja ampliar seus investimentos nos próximos anos, tornando a disciplina financeira uma variável importante para CSMG3.
A entrada da Equatorial no capital da Copasa representa um fato novo relevante. Ainda assim, o investidor precisa separar os resultados efetivamente entregues das melhorias que já podem estar embutidas na cotação.
Sanepar tem operação resistente, mas risco regulatório pesa
A Sanepar chegou ao segundo trimestre de 2026 com uma operação relativamente estável. A receita operacional líquida avançou 11,5%, para R$ 1,9 bilhão, enquanto o Ebitda ficou praticamente estável em R$ 540,3 milhões.
A margem Ebitda caiu de 31,4% para 28,4%. A companhia investiu R$ 563,8 milhões no trimestre e encerrou junho com dívida líquida equivalente a uma vez o Ebitda acumulado dos últimos 12 meses, a menor alavancagem entre os pontos positivos da tese.
O prejuízo contábil de R$ 505,2 milhões, entretanto, chamou atenção. O resultado foi provocado principalmente por uma provisão adicional relacionada ao passivo regulatório dos créditos de uma ação judicial sobre o Imposto de Renda.
Em junho, a Agepar determinou que 100% dos recursos fossem destinados à modicidade tarifária. A decisão resultou em provisão regulatória de R$ 693,1 milhões no segundo trimestre e frustrou a expectativa de que uma parcela maior dos recursos pudesse beneficiar os acionistas.
Desconsiderando efeitos não recorrentes, a Sanepar calculou lucro líquido ajustado de R$ 447,5 milhões e Ebitda ajustado de R$ 799,9 milhões. A diferença entre o resultado contábil e o ajustado reforça a necessidade de compreender a origem dos números antes de avaliar SAPR4.
A A Revista já mostrou como o efeito bilionário do passivo regulatório alterou a leitura das ações da Sanepar.
O que diferencia SBSP3, CSMG3 e SAPR4
| Companhia | Principal atrativo | Maior risco atual |
|---|---|---|
| Sabesp (SBSP3) | Escala, universalização e forte expansão | Capex elevado não produzir o retorno esperado |
| Copasa (CSMG3) | Potencial de eficiência após a privatização | Mercado antecipar ganhos que ainda não apareceram |
| Sanepar (SAPR4) | Baixa alavancagem e operação resiliente | Interferência política e decisões regulatórias |
A Sabesp apresenta a tese mais diretamente ligada ao crescimento. A Copasa oferece exposição a uma possível transformação operacional conduzida pela Equatorial. A Sanepar combina endividamento controlado e geração operacional, mas exige maior tolerância ao risco regulatório.
Preço unitário da ação não indica qual está mais barata
Comparar uma ação de R$ 6 com outra de R$ 50 ou R$ 30 não revela qual companhia está barata. O valor unitário depende da quantidade de papéis em circulação e pode ser alterado por desdobramentos sem qualquer mudança no valor econômico da empresa.
Em 2026, a Sabesp realizou um desdobramento na proporção de cinco novas ações para cada papel existente. A operação reduziu o preço nominal de cada ação, mas multiplicou proporcionalmente a quantidade de papéis detida pelos acionistas.
Para comparar as companhias, indicadores como preço sobre lucro, valor da empresa sobre Ebitda, preço sobre valor patrimonial, geração de caixa, dívida e retorno sobre o capital investido são mais relevantes.
Também é necessário considerar que múltiplos menores podem refletir riscos maiores. Uma ação não se torna automaticamente atrativa apenas porque caiu ou porque negocia abaixo da máxima recente.
Afinal, qual ação de saneamento oferece a melhor relação entre risco e retorno?
Os documentos mais recentes não sustentam a afirmação de que uma das três companhias seja objetivamente a melhor para todos os investidores.
A Sabesp pode ser mais adequada a quem aceita os riscos de um ciclo agressivo de investimentos em troca de maior potencial de crescimento. A Copasa depende da materialização dos ganhos esperados com a nova estrutura de controle. A Sanepar apresenta menor alavancagem, mas o episódio do passivo regulatório demonstrou que decisões externas podem alterar significativamente o resultado destinado aos acionistas.
Os próximos balanços deverão mostrar se a Sabesp consegue recuperar margens, se a Equatorial começa a produzir ganhos mensuráveis na Copasa e como a Sanepar administrará os efeitos da decisão da Agepar.
Até que essas respostas apareçam, a melhor alternativa não deve ser definida pela ação que mais caiu, pelo menor preço unitário ou pela expectativa de dividendos extraordinários, mas pela relação entre preço, execução operacional e riscos específicos de cada companhia.
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