Em entrevista, o ex-diretor do Banco Central e colunista Tony Volpon contestou a declaração do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que o governo estaria recuperando a credibilidade fiscal. Segundo Volpon, os próprios relatórios do Tesouro Nacional indicam uma deterioração contínua das projeções da dívida pública, afastando qualquer perspectiva de estabilidade das contas do país.
“Não há estabilidade fiscal no Brasil. Basta olhar o mercado de títulos indexados à inflação: estamos pagando juros reais de 7% a 8% ao ano em prazos longos. Isso é insustentável com um crescimento de apenas 3%”, afirmou o economista.
Juros reais acima do crescimento ampliam a dívida e afastam a confiança do investidor
Volpon explicou que a equação fiscal brasileira está desequilibrada, pois o crescimento econômico real é inferior à taxa de juros real, o que faz a dívida continuar subindo como proporção do PIB. Ele lembrou que, historicamente, a dívida pública só se estabiliza quando o crescimento supera o custo real do dinheiro.
O ex-diretor do BC também destacou que a alta taxa de juros de longo prazo reflete a desconfiança dos investidores quanto à capacidade do governo de honrar compromissos futuros sem recorrer à inflação. “O mercado cobra um prêmio elevado porque acredita que, em algum momento, o Estado pode usar a inflação para reduzir a dívida”, disse.
Comparação com crises anteriores e risco de “solução inflacionária”
Volpon fez um paralelo com períodos anteriores da economia brasileira, como o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, quando houve fuga de capitais e o mercado perdeu a confiança na política fiscal. Ele relembrou que, na pandemia, a dívida/PIB caiu momentaneamente não por ajuste estrutural, mas porque a inflação “fez o trabalho sujo” de reduzir o valor real da dívida.
“O mercado acredita que algo semelhante pode ocorrer novamente. Ou o governo paga a dívida, ou infla o estoque. A incerteza faz o investidor cobrar mais caro para financiar o Estado”, explicou.
Sem ajuste estrutural, risco de nova crise aumenta até 2027
Segundo o economista, sem uma mudança drástica na política fiscal, o Brasil seguirá em uma trajetória de endividamento crescente. Ele alertou que o cenário pode se agravar no médio prazo, especialmente diante das eleições de 2026, quando o mercado tende a ficar mais volátil.
“Há risco de uma crise preventiva antes ou depois das eleições, caso o governo eleito não sinalize um compromisso real com o controle de gastos”, afirmou Volpon. “Estamos em um equilíbrio instável. Hoje a economia cresce, o câmbio se valoriza e a bolsa sobe, mas isso depende de um prêmio de risco alto pago pelo Tesouro. É um castelo de cartas.”
Governo e Congresso “não ajudam”, diz Volpon
O ex-diretor também criticou a atuação do Congresso e do próprio Executivo, que, segundo ele, continuam ampliando gastos e benefícios em um momento que exigiria contenção e reformas estruturais.
“Não há sinais de que qualquer medida de ajuste será implementada até as eleições. O Estado brasileiro está no piloto automático fiscal, e isso é preocupante”, concluiu.
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