A Suzano atravessa um dos momentos mais desafiadores do seu ciclo recente. Em 2025, as ações da companhia acumulam queda relevante, o papel saiu do radar da maioria dos investidores e o sentimento do mercado é claramente pessimista. O pano de fundo é conhecido: dólar mais fraco e preços internacionais da celulose pressionados.
O que chama atenção, no entanto, é o descolamento entre o preço da ação e a qualidade estrutural do negócio. Mesmo no pior momento do ciclo, a Suzano segue altamente lucrativa, líder global do setor e com vantagens competitivas difíceis de replicar.
Ciclo da celulose: estamos no ponto mais baixo?
O preço da celulose opera em torno de US$ 500 por tonelada, um patamar que pressiona margens em boa parte do setor. Esse cenário reflete principalmente o excesso de estoques na China e a entrada de novas plantas produtivas no país, aumentando a oferta global no curto prazo.
O ponto central é que esse nível de preço não é sustentável para produtores menos eficientes. O custo de produção da celulose chinesa gira próximo ou até acima desse valor, o que tende a provocar redução de oferta ao longo do tempo. Em ciclos anteriores, esse desequilíbrio foi justamente o gatilho para a recuperação dos preços.
Vantagem estrutural: menor custo do mundo
É nesse ambiente adverso que a Suzano se destaca. A companhia é a maior produtora de celulose do mundo, com cerca de 23% a 24% de participação global, e possui o menor custo de produção do setor.
Cash cost da Suzano: ~US$ 180 por tonelada
Custo total (produção + logística + pessoal): ~US$ 400 por tonelada
Custo médio de produtores chineses: acima de US$ 570 por tonelada
Mesmo com a celulose em níveis deprimidos, a Suzano continua gerando caixa de forma consistente, enquanto concorrentes operam no limite da rentabilidade.
Resultados operacionais mostram resiliência
Mesmo com pressão de preços e câmbio desfavorável, os resultados mostram que a companhia consegue atravessar o ciclo sem comprometer sua saúde financeira.
Principais indicadores operacionais – cenário atual
| Indicador | Valor aproximado |
|---|---|
| Preço médio da celulose | ~US$ 500–525/t |
| Cash cost da celulose | ~US$ 180/t |
| Custo total estimado | ~US$ 400/t |
| Fluxo de caixa livre (cenário atual) | ~10% |
| Fluxo de caixa livre (celulose a US$ 600) | ~15% |
| Alavancagem | Controlada |
| Participação global | ~23–24% |
Mesmo no pior ponto do ciclo, a Suzano continua gerando caixa relevante, o que reduz riscos e amplia a assimetria para o investidor paciente.
Projeto Cerrado: eficiência que muda o patamar
Um dos maiores catalisadores de longo prazo é o Projeto Cerrado, em Ribas do Rio Pardo (MS). Trata-se da maior planta de celulose do mundo, já em operação e em fase de rampa, com produção plena prevista até 2028.
Quando atingir capacidade máxima, o projeto deve:
Adicionar cerca de 2,5 milhões de toneladas por ano
Reduzir ainda mais o custo médio de produção
Operar com logística altamente integrada
Utilizar energia 100% proveniente de biomassa e biogás
Gerar excedente energético, criando nova fonte de receita
Esse projeto tende a reforçar ainda mais a liderança da Suzano em eficiência, margem e competitividade global.
Diversificação reduz dependência do ciclo
Outro ponto relevante é a mudança estrutural no perfil de receita. Com a incorporação dos ativos da Kimberly-Clark no Brasil, a Suzano avança na cadeia de valor e reduz sua dependência exclusiva da celulose.
Participação de papel e celulose na receita: de ~79% para ~58%
Participação de bens de consumo: de ~6% para ~31%
Essa diversificação torna o balanço mais robusto e reduz a volatilidade dos resultados ao longo do ciclo.
Valuation: desconto raro para uma líder global
Historicamente, a Suzano negocia entre 7x e 8x EV/EBITDA. No momento atual, o múltiplo está abaixo de 5x, refletindo o pessimismo com a commodity e o curto prazo.
Esse nível de valuation costuma aparecer apenas em momentos extremos do ciclo, quando o mercado precifica um cenário excessivamente negativo. Para investidores de longo prazo, esse tipo de descompasso costuma representar oportunidade.
Crise cíclica, tese estrutural fortalecida
A Suzano reúne, ao mesmo tempo:
Setor global em crescimento
Produto que ganha market share (celulose de fibra curta)
Menor custo de produção do mundo
Projetos de expansão altamente eficientes
Diversificação de receitas
Forte geração de caixa mesmo no pior cenário
Ações negociando com desconto histórico
O curto prazo segue desafiador, mas o conjunto de fundamentos indica que o risco está muito mais no timing do que na qualidade do ativo. Para quem investe olhando ciclos e não manchetes, a SUZB3 aparece hoje em um dos pontos mais interessantes da sua história recente.
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