A Sanepar (SAPR4) registrou lucro líquido de R$ 352,7 milhões no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 70,8% em relação ao lucro de R$ 1,208 bilhão apurado no mesmo período de 2025. Apesar do recuo expressivo, o número precisa ser analisado com cautela, já que a base de comparação do ano passado foi fortemente impactada por efeitos não recorrentes ligados ao reconhecimento de receita de precatórios da ação judicial de IRPJ e à provisão para passivo regulatório.
Na prática, a queda contábil não significa que a operação da companhia tenha encolhido na mesma proporção. Segundo o release de resultados da Sanepar, excluindo os efeitos não recorrentes, o lucro líquido ajustado foi de R$ 352,7 milhões no 1T26, contra R$ 424,4 milhões no 1T25, o que representa uma queda ajustada de aproximadamente 16,9%.
Receita cresce, mas lucro sente comparação difícil
A receita operacional líquida da Sanepar somou R$ 1,946 bilhão no 1T26, alta de 7,8% frente ao primeiro trimestre de 2025. O crescimento foi sustentado pelo avanço do volume faturado de água e esgoto, além dos efeitos tarifários no período.
No trimestre, o volume faturado de água chegou a 154,7 milhões de m³, alta de 1,2% na comparação anual. Já o volume faturado de esgoto foi de 125,8 milhões de m³, crescimento de 2,4%. A companhia também registrou expansão de ligações, com 12,5 mil novas ligações de água e 15,6 mil novas ligações de esgoto no período.
Principais números da Sanepar no 1T26
| Indicador | 1T26 | Comparação anual |
|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 1,946 bilhão | +7,8% |
| Lucro líquido | R$ 352,7 milhões | -70,8% |
| Lucro líquido ajustado | R$ 352,7 milhões | -16,9% |
| Ebitda | R$ 843,5 milhões | -24,4% |
| Margem Ebitda | 43,3% | -18,5 p.p. |
| Dívida líquida | R$ 1,921 bilhão | -59,6% |
| Alavancagem | 0,7 vez | 1,5 vez no 1T25 |
| Inadimplência | 2,5% | 2,8% no 1T25 |
| Investimentos | R$ 588,1 milhões | +20,8% |
Ebitda cai e margem fica menor
O Ebitda da Sanepar foi de R$ 843,5 milhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 24,4% ante os R$ 1,115 bilhão registrados no mesmo período do ano anterior. A margem Ebitda caiu de 61,8% para 43,3%.
A própria companhia atribui parte relevante da variação ao efeito comparativo do 1T25, quando houve impacto extraordinário relacionado ao ganho da ação do IRPJ e à provisão regulatória. Ainda assim, a queda da margem mostra que o investidor precisa acompanhar a evolução dos custos, despesas e capacidade de geração operacional nos próximos trimestres.
Precatório bilionário segue como ponto de atenção
O maior ponto de incerteza para a Sanepar continua sendo o tratamento regulatório do precatório bilionário recebido pela companhia. Em fato relevante divulgado em março, a empresa informou que a Agepar publicou nota técnica propondo que o montante de R$ 3,944 bilhões, líquido de tributos e honorários, seja destinado integralmente aos usuários da Sanepar, por meio de modicidade tarifária, investimentos não onerosos ou descontos nas faturas.
Esse tema é importante porque altera a expectativa de parte do mercado sobre a destinação do recurso. Caso o entendimento da agência prevaleça, o dinheiro não ficaria livremente disponível para reforçar caixa, reduzir endividamento ou viabilizar uma distribuição extraordinária aos acionistas.
Investimentos avançam com foco em esgoto
A Sanepar investiu R$ 588,1 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 20,8% em relação ao mesmo período de 2025. Desse total, R$ 343 milhões foram destinados a esgoto, R$ 179,8 milhões a água e R$ 65,3 milhões a outros investimentos.
O aumento do capex está ligado à necessidade de expansão e manutenção da infraestrutura, especialmente no esgoto, área estratégica para o cumprimento das metas do marco legal do saneamento. Para o investidor, isso significa que a companhia segue com uma agenda relevante de crescimento operacional, mas também com demanda elevada de caixa.
Dívida líquida cai, mas leitura exige cuidado
A dívida líquida da Sanepar ficou em R$ 1,921 bilhão no 1T26, queda de 59,6% frente ao 1T25. A alavancagem, medida por dívida líquida sobre Ebitda, ficou em 0,7 vez, abaixo de 1,5 vez no mesmo trimestre do ano anterior.
O indicador mostra uma posição financeira aparentemente confortável. Porém, o efeito do precatório e o volume de investimentos previstos exigem atenção. A geração de caixa operacional foi de R$ 652,5 milhões, queda de 11,1% na comparação anual, enquanto os investimentos consumiram parcela relevante desse caixa.
O que o investidor deve observar em SAPR4
O resultado da Sanepar mostra uma empresa ainda resiliente em receita e operação, mas com pontos de pressão relevantes. A queda de 70,8% no lucro chama atenção, porém a leitura ajustada indica que o impacto real foi menor do que o número cheio sugere.
Para quem acompanha SAPR4, os principais fatores nos próximos meses serão: a decisão final sobre o precatório, a evolução dos custos, a manutenção da margem Ebitda, o ritmo de investimentos e a capacidade da companhia de preservar caixa sem comprometer sua agenda de expansão.
A Sanepar entregou um resultado que, no título, parece muito pior do que na leitura completa. O lucro caiu fortemente por causa da comparação com um trimestre inflado por efeitos extraordinários, mas o lucro ajustado também recuou, o que mostra alguma pressão operacional.
A tese de SAPR4 segue apoiada em um negócio essencial, previsível e com receita crescente. Porém, o risco regulatório do precatório e a necessidade de investimentos elevados reduzem o espaço para uma leitura totalmente otimista no curto prazo.
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