A Neoenergia entrou oficialmente em um processo de Oferta Pública de Aquisição (OPA) para fechamento de capital, após sua controladora, a espanhola Iberdrola, protocolar o pedido de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A proposta prevê o pagamento de R$ 2,50 por ação, o mesmo valor desembolsado recentemente pela aquisição da fatia de mais de 30% que pertencia à Previ movimento que já indicava a intenção de retirar a companhia da B3.
Com o novo passo, a Iberdrola mira agora a compra dos 16,2% restantes do capital, referentes ao free float da Neoenergia. Caso todos os acionistas aceitem, a operação pode atingir R$ 6,5 bilhões, valor considerado administrável para o grupo espanhol, que recentemente desembolsou quase o dobro na transação envolvendo a Previ.
Preço, prêmio ao acionista e dispensa de laudo
O valor proposto de R$ 2,50 por ação embute um prêmio próximo de 8% em relação ao último fechamento anterior ao anúncio da OPA. A legislação permite que a Iberdrola não apresente um novo laudo de avaliação, já que realizou, nos últimos 12 meses, a compra de mais de 20% do capital exatamente o negócio fechado com a Previ.
Segundo a Resolução 215 da CVM, esse cenário dispensa a elaboração de um laudo, entendendo que o preço proposto pode ser considerado “justo”, tendo como referência a última transação relevante.
Além disso, o valor final a ser pago deve ser ajustado pela taxa Selic até a data de liquidação, com desconto de eventuais dividendos declarados no período.
Como funciona agora: assembleia, cronograma e etapas obrigatórias
Com o protocolo entregue na CVM, abre-se uma janela de 15 dias corridos para que acionistas representando ao menos 10% das ações em circulação solicitem uma assembleia especial de minoritários, com o objetivo de discutir a contratação de um novo laudo de avaliação ou uma eventual revisão do preço.
Caso esse movimento tenha sucesso algo considerado difícil devido à estrutura acionária difusa e ao baixo free float uma nova avaliação poderia elevar o valor da oferta. Nesse caso, caberia à Iberdrola decidir se aumentaria o preço ou desistiria da OPA.
Se não houver assembleia, o processo segue o rito padrão:
- Análise e concessão do registro pela CVM
- Publicação do edital em até 10 dias após o registro
- Janela de 20 a 45 dias para realização do leilão
- Liquidação financeira em D+2 (ou até 10 dias úteis, caso previsto)
Pelo cronograma estimado, o leilão deve ocorrer em março de 2026, e a conclusão completa incluindo compra de sobras pode se estender até maio de 2026.
E quem não aderir à OPA? Remanescentes e resgate compulsório
Mesmo que a OPA seja aprovada, acionistas podem optar por não vender suas ações no leilão. Nesse caso, existe a fase de compra de sobras, em que o controlador oferece novamente as mesmas condições aos investidores remanescentes.
Se, ao final desse processo, restarem menos de 5% das ações em circulação, a companhia pode executar um resgate compulsório, comprando automaticamente todas as ações por R$ 2,50 corrigidos, independentemente da vontade do acionista.
Esse mecanismo viabiliza o fechamento total do capital da Neoenergia, retirando a empresa da B3.
Como o acionista pode se posicionar: três caminhos possíveis
Diferentemente de uma votação tradicional, a OPA exige que 2/3 dos acionistas habilitados, excluindo o controlador, aceitem a oferta para que ela seja aprovada. O investidor pode agir de três formas:
1. Manifestação de aceitação
Solicita à corretora habilitação no leilão e entra com ordem de venda.
2. Manifestação contrária
Habilita-se no leilão, mas marca discordância não vende as ações, porém participa do quórum.
3. Não fazer nada (abstenção)
Não se habilita. Não é contabilizado no quórum e mantém as ações até as etapas seguintes (sobras ou resgate compulsório).
Neoenergia: saída lamentada, mas dentro do ciclo natural de mercado
A possível saída da Neoenergia da B3 se soma a um movimento observado nos últimos anos: o aumento das OPAs em momentos de mercado descontado. Quando controladores as partes que mais conhecem o negócio decidem recomprar participações, geralmente há percepção de subprecificação dos ativos.
O cenário atual contrasta com ciclos anteriores de forte atividade de IPOs, em que companhias buscam abrir capital para captar recursos em momentos considerados mais favoráveis.
Para investidores que estavam posicionados desde 2021, a estratégia contracíclica rendeu frutos. A Neoenergia acumulou retorno superior a 125% no período, equivalente a cerca de 18% ao ano, reforçando o argumento de que comprar qualidade em momentos de baixa tende a gerar resultados sólidos no longo prazo.






