A ISA Energia atravessa um momento de forte desalinhamento entre desempenho operacional e comportamento de mercado. Desde o início de 2023 até o fim de 2025, a ação acumulou aproximadamente 13,85% de valorização, além de cerca de 10% em dividendos, totalizando algo próximo de 25% de retorno.
O problema surge quando se observa que, justamente no período em que os resultados passaram a deteriorar, a cotação avançou com ainda mais intensidade, aproximando-se de máximas históricas na casa dos R$ 30 por ação.
A grande pergunta é: o mercado está precificando corretamente o risco?
Lucro por ação caiu forte em 2025
O histórico recente mostra claramente a mudança de tendência:
| Ano | Lucro por Ação (R$) | Variação |
|---|---|---|
| 2023 | 4,31 | — |
| 2024 | 5,30 | +22,9% |
| 2025 | 3,71 | -30% |
A queda de R$ 5,30 para R$ 3,71 representa uma retração relevante na geração de lucro.
No consolidado anual, o lucro caiu aproximadamente 22%, enquanto no comparativo trimestral a retração foi ainda mais agressiva, próxima de 40% ano contra ano.
Além disso:
Margem líquida caiu cerca de 8 pontos percentuais
Resultado financeiro piorou 40%
Despesas com juros aumentaram de forma significativa
Em empresas de transmissão, é essencial olhar o lucro regulatório, pois o padrão contábil IFRS costuma gerar distorções. Ainda assim, a deterioração é evidente.
Endividamento: o principal ponto de alerta
O ponto mais sensível do balanço está na estrutura de capital.
Evolução da dívida:
Dívida bruta: +21% (quase R$ 3 bilhões adicionais)
Dívida líquida: +38%
Caixa reduzido em aproximadamente R$ 1,3 bilhão
Dívida Líquida/EBITDA saiu de 2,72x para 3,63x
A companhia já precisou negociar um waiver junto ao BNDES, pois havia assumido compromisso de manter alavancagem abaixo de 3x.
Hoje, a empresa se aproxima perigosamente de 4x dívida líquida/EBITDA, patamar considerado desconfortável para transmissoras.
Quase 30% da dívida está indexada ao CDI, em um ambiente de juros elevados. O restante está majoritariamente atrelado ao IPCA, o que casa parcialmente com a correção da RAP.
O prazo médio foi alongado para 8,2 anos, o que ajuda no fluxo de principal, mas não resolve o peso financeiro no curto prazo.
Dividendos elevados em meio à pressão financeira
Mesmo diante do cenário de queda no lucro e alta da alavancagem, a companhia anunciou:
Aproximadamente R$ 800 milhões em dividendos e JCP
Distribuição total recente de cerca de R$ 80 milhões líquidos adicionais
Pagamentos com diferenciação entre valor bruto e líquido (considerando regra de 10% para rendas acima de R$ 50 mil/mês)
A decisão chama atenção porque:
A empresa possui pipeline de investimentos de R$ 6,3 bilhões entre 2026 e 2030
Investiu cerca de R$ 3,4 bilhões apenas em projetos greenfield em 2025
Aplicou R$ 1,7 bilhão em reforços e melhorias
Distribuir caixa nesse momento reduz margem de segurança financeira.
RAP e o risco estrutural da RBSE
Outro fator estrutural importante é a composição da Receita Anual Permitida (RAP).
Cerca de 30% da RAP vem da RBSE
Esse fluxo deve se encerrar por volta de 2030
Isso significa erosão progressiva de receita ao longo dos próximos 4 anos
A empresa tenta compensar com novos projetos como o bloco de Piraquê, com RAP estimada de aproximadamente R$ 343 milhões, sendo 30% já liberados (TLD).
Há também avanço tecnológico relevante, como o compensador estático síncrono modular, que pode mitigar restrições de escoamento de energia (curtailment), embora com impacto financeiro ainda pequeno (RAP adicional estimada em R$ 12 milhões).
Resultado financeiro pressiona o lucro
O aumento do resultado financeiro negativo ocorreu por dois fatores combinados:
Mais dívida = mais despesas com juros
Menos caixa = menos receita financeira
Com uma Selic elevada, o custo da parcela indexada ao CDI pesa diretamente no lucro.
A combinação entre:
Redução de caixa
Crescimento da dívida
Pagamento elevado de dividendos
gerou uma deterioração clara do balanço.
A ação vale R$ 30?
Com lucro por ação de R$ 3,71, a ação a R$ 30 implica um múltiplo elevado para uma empresa:
Com lucro em queda
Com alavancagem crescente
Com pressão estrutural na RAP futura
Com necessidade intensa de CAPEX
Em um cenário conservador, estimativas mais prudentes apontariam faixa de preço justo entre R$ 21 e R$ 22, considerando risco de execução e custo de capital elevado.
Isso não significa risco de quebra. A empresa continua sólida operacionalmente, com margem EBITDA próxima de 95% em projetos maduros.
O ponto central é outro: o preço atual reflete adequadamente os riscos?
Desalinhamento entre preço e fundamentos
A ISA Energia continua sendo uma empresa relevante no setor de transmissão, com ativos estratégicos e capacidade de geração de caixa.
Mas o cenário atual mostra:
Lucro menor
Dívida maior
Resultado financeiro pressionado
Pipeline de investimentos pesado
Distribuição agressiva de dividendos
Em mercados eficientes, fundamentos tendem a prevalecer no médio prazo. A questão que fica para o investidor é simples:
vale pagar prêmio por uma empresa que está aumentando risco financeiro enquanto o lucro recua?
Essa é a decisão que o mercado terá que responder nos próximos pregões.
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