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Início » Últimas Notícias » ISA Energia lucra menos, dívida dispara e ação sobe: faz sentido pagar R$ 30?
Ações

ISA Energia lucra menos, dívida dispara e ação sobe: faz sentido pagar R$ 30?

Mesmo com queda de 22% no lucro e alavancagem perto de 4x, mercado eleva cotação; dividendos de R$ 800 milhões levantam questionamentos.
Fabiane MeloPor Fabiane Melo25 de fevereiro de 20265 minutos lidos
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A ISA Energia atravessa um momento de forte desalinhamento entre desempenho operacional e comportamento de mercado. Desde o início de 2023 até o fim de 2025, a ação acumulou aproximadamente 13,85% de valorização, além de cerca de 10% em dividendos, totalizando algo próximo de 25% de retorno.

O problema surge quando se observa que, justamente no período em que os resultados passaram a deteriorar, a cotação avançou com ainda mais intensidade, aproximando-se de máximas históricas na casa dos R$ 30 por ação.

A grande pergunta é: o mercado está precificando corretamente o risco?

Lucro por ação caiu forte em 2025

O histórico recente mostra claramente a mudança de tendência:

AnoLucro por Ação (R$)Variação
20234,31—
20245,30+22,9%
20253,71-30%

A queda de R$ 5,30 para R$ 3,71 representa uma retração relevante na geração de lucro.

No consolidado anual, o lucro caiu aproximadamente 22%, enquanto no comparativo trimestral a retração foi ainda mais agressiva, próxima de 40% ano contra ano.

Além disso:

  • Margem líquida caiu cerca de 8 pontos percentuais

  • Resultado financeiro piorou 40%

  • Despesas com juros aumentaram de forma significativa

Em empresas de transmissão, é essencial olhar o lucro regulatório, pois o padrão contábil IFRS costuma gerar distorções. Ainda assim, a deterioração é evidente.

Endividamento: o principal ponto de alerta

O ponto mais sensível do balanço está na estrutura de capital.

Evolução da dívida:

  • Dívida bruta: +21% (quase R$ 3 bilhões adicionais)

  • Dívida líquida: +38%

  • Caixa reduzido em aproximadamente R$ 1,3 bilhão

  • Dívida Líquida/EBITDA saiu de 2,72x para 3,63x

A companhia já precisou negociar um waiver junto ao BNDES, pois havia assumido compromisso de manter alavancagem abaixo de 3x.

Hoje, a empresa se aproxima perigosamente de 4x dívida líquida/EBITDA, patamar considerado desconfortável para transmissoras.

Quase 30% da dívida está indexada ao CDI, em um ambiente de juros elevados. O restante está majoritariamente atrelado ao IPCA, o que casa parcialmente com a correção da RAP.

O prazo médio foi alongado para 8,2 anos, o que ajuda no fluxo de principal, mas não resolve o peso financeiro no curto prazo.

Dividendos elevados em meio à pressão financeira

Mesmo diante do cenário de queda no lucro e alta da alavancagem, a companhia anunciou:

  • Aproximadamente R$ 800 milhões em dividendos e JCP

  • Distribuição total recente de cerca de R$ 80 milhões líquidos adicionais

  • Pagamentos com diferenciação entre valor bruto e líquido (considerando regra de 10% para rendas acima de R$ 50 mil/mês)

A decisão chama atenção porque:

  • A empresa possui pipeline de investimentos de R$ 6,3 bilhões entre 2026 e 2030

  • Investiu cerca de R$ 3,4 bilhões apenas em projetos greenfield em 2025

  • Aplicou R$ 1,7 bilhão em reforços e melhorias

Distribuir caixa nesse momento reduz margem de segurança financeira.

RAP e o risco estrutural da RBSE

Outro fator estrutural importante é a composição da Receita Anual Permitida (RAP).

  • Cerca de 30% da RAP vem da RBSE

  • Esse fluxo deve se encerrar por volta de 2030

  • Isso significa erosão progressiva de receita ao longo dos próximos 4 anos

A empresa tenta compensar com novos projetos como o bloco de Piraquê, com RAP estimada de aproximadamente R$ 343 milhões, sendo 30% já liberados (TLD).

Há também avanço tecnológico relevante, como o compensador estático síncrono modular, que pode mitigar restrições de escoamento de energia (curtailment), embora com impacto financeiro ainda pequeno (RAP adicional estimada em R$ 12 milhões).

Resultado financeiro pressiona o lucro

O aumento do resultado financeiro negativo ocorreu por dois fatores combinados:

  1. Mais dívida = mais despesas com juros

  2. Menos caixa = menos receita financeira

Com uma Selic elevada, o custo da parcela indexada ao CDI pesa diretamente no lucro.

A combinação entre:

  • Redução de caixa

  • Crescimento da dívida

  • Pagamento elevado de dividendos

gerou uma deterioração clara do balanço.

A ação vale R$ 30?

Com lucro por ação de R$ 3,71, a ação a R$ 30 implica um múltiplo elevado para uma empresa:

  • Com lucro em queda

  • Com alavancagem crescente

  • Com pressão estrutural na RAP futura

  • Com necessidade intensa de CAPEX

Em um cenário conservador, estimativas mais prudentes apontariam faixa de preço justo entre R$ 21 e R$ 22, considerando risco de execução e custo de capital elevado.

Isso não significa risco de quebra. A empresa continua sólida operacionalmente, com margem EBITDA próxima de 95% em projetos maduros.

O ponto central é outro: o preço atual reflete adequadamente os riscos?

Desalinhamento entre preço e fundamentos

A ISA Energia continua sendo uma empresa relevante no setor de transmissão, com ativos estratégicos e capacidade de geração de caixa.

Mas o cenário atual mostra:

  • Lucro menor

  • Dívida maior

  • Resultado financeiro pressionado

  • Pipeline de investimentos pesado

  • Distribuição agressiva de dividendos

Em mercados eficientes, fundamentos tendem a prevalecer no médio prazo. A questão que fica para o investidor é simples:

vale pagar prêmio por uma empresa que está aumentando risco financeiro enquanto o lucro recua?

Essa é a decisão que o mercado terá que responder nos próximos pregões.

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Fabiane Melo
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Fabiane Melo é editora de Economia e Negócios, formada em Administração e pós-graduada em Finanças. Na A Revista, acompanha resultados de empresas, negócios, economia e setores produtivos, relacionando fatos e indicadores ao ambiente de investimentos. Prioriza contexto, documentos e linguagem acessível.

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