A ISA Energia (ISAE4) registrou forte queda nas ações após divulgar o resultado do quarto trimestre de 2025, marcado por retração expressiva no lucro líquido e aumento relevante do endividamento. O movimento negativo ocorre após um período de valorização acumulada de 31,5% nos últimos 12 meses, reduzindo parte do desconto histórico da companhia.
Apesar da reação adversa do mercado, a análise detalhada do balanço revela que boa parte da pressão veio de fatores não recorrentes, além do impacto do custo financeiro elevado em meio à Selic em 15%.
Lucro pressionado por impostos, RBSE e custo da dívida
O principal fator que pesou sobre o lucro no trimestre foi a combinação entre:
- Impactos do RBSE (Rede Básica Sistema Existente);
- Alterações contábeis relacionadas à CDE (Conta de Desenvolvimento Energético);
- Diferença na frequência de anúncio de JCP, afetando a linha de impostos;
- Aumento expressivo do resultado financeiro negativo.
No quarto trimestre, o resultado financeiro negativo saltou para R$ 355 milhões, ante R$ 264 milhões no mesmo período do ano anterior. A despesa financeira acompanhou o aumento da dívida líquida, que atingiu R$ 14,1 bilhões acima dos R$ 12,9 bilhões no 3º trimestre e R$ 10,2 bilhões um ano antes.
Com a Selic em 15%, o custo da dívida tornou-se um dos principais vetores de pressão sobre o lucro.
Dívida sobe, mas crescimento está atrelado a investimentos recordes
O aumento da alavancagem está diretamente ligado ao ciclo de investimentos da companhia. 2025 foi o maior ano de capex da história da ISA Energia, com forte expansão em projetos greenfield e reforços e melhorias.
A relação dívida líquida/EBITDA chegou a 3,63x, aproximando-se de 4x patamar considerado elevado para o setor, mas ainda administrável, dado o perfil previsível das receitas.
A expectativa é de que, com a entrada em operação dos novos projetos, o EBITDA cresça e a alavancagem volte a cair gradualmente.
Entregas antecipadas fortalecem geração futura de receita
Entre os destaques operacionais estão:
- Projeto Piraquê Bloco 1 (RAP de R$ 103 milhões, margem EBIT de 95%);
- Projetos entregues com antecipação de até 22 meses;
- Novos empreendimentos como Jacarandá e outros ativos relevantes com RAP adicional superior a R$ 570 milhões até 2028.
As receitas são reajustadas pela inflação (IPCA), o que protege a geração de caixa no longo prazo.
Além disso, a empresa investiu R$ 1,7 bilhão em reforços e melhorias em 2025 e já possui R$ 2,3 bilhões contratados para os próximos anos um diferencial estratégico, pois esses projetos não passam por leilões competitivos e apresentam margens superiores.
Receita afetada por não recorrentes
Apesar da entrada de novos ativos, a receita do trimestre não avançou como esperado. Entre os fatores que impactaram:
- Recalculo do RBSE, gerando perda de R$ 52 milhões;
- Alteração contábil da CDE, com impacto negativo de R$ 49 milhões;
- Efeitos pontuais em PA e antecipações.
Somados, esses efeitos retiraram cerca de R$ 64 milhões da receita no trimestre classificados como não recorrentes.
EBITDA cresce mesmo com pressão
Ao observar o EBITDA indicador mais relevante para transmissoras o cenário é mais construtivo.
Mesmo com impactos negativos, a ISA Energia conseguiu crescer 7,5% no EBITDA no comparativo anual do quarto trimestre.
Se ajustado pelos efeitos não recorrentes, o avanço seria ainda mais expressivo, reforçando que a deterioração do lucro veio principalmente da linha financeira e tributária, não da operação em si.
Mercado reage negativamente
XP e Genial classificaram o resultado como neutro em termos operacionais, com EBITDA em linha com as projeções. A frustração ficou concentrada no lucro líquido, pressionado pelos impostos e pelo custo financeiro.
A Genial avalia que o prêmio da ISA frente aos títulos públicos está mais estreito, considerando a taxa real implícita próxima de IPCA + 6,8%, comparável ao Tesouro IPCA+, especialmente após a forte valorização recente das ações.
Com a queda das cotações no pregão, parte desse prêmio começa a se recompor.
Volatilidade pode continuar em 2026
O cenário macro segue desafiador. A Selic elevada mantém pressão sobre empresas alavancadas, enquanto a revisão tarifária periódica futura e a redução gradual do RBSE seguem no radar.
Por outro lado, a companhia caminha para um período de entregas relevantes em 2026 e 2027, o que deve impulsionar receita e geração de caixa.
O que esperar da ISA Energia?
Apesar da queda no lucro no 4º trimestre, a leitura estrutural permanece ligada a:
- Crescimento previsível de receitas indexadas à inflação;
- Forte pipeline de projetos;
- Margens elevadas em reforços e melhorias;
- Potencial desalavancagem após ciclo de investimentos
A reação negativa do mercado reflete o impacto imediato do lucro menor, mas a tese de longo prazo permanece apoiada na expansão da base de ativos e no controle rigoroso de custos.
A ISA Energia entra em 2026 com desafios no curto prazo, mas com fundamentos operacionais ainda sólidos o que explica por que, mesmo após a queda, a empresa segue no radar de investidores focados em renda previsível e crescimento regulado.
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