A ISA Energia (ISAE4) encerrou o quarto trimestre de 2025 com números que reacenderam o debate no mercado: a empresa segue eficiente operacionalmente, mas enfrenta pressão relevante no lucro e no endividamento, em meio ao maior ciclo de investimentos de sua história.
A companhia, terceira maior transmissora do país em Receita Anual Permitida (RAP), possui 34 concessões, atua em 18 estados e transmite aproximadamente 30% da energia do Brasil — sendo responsável por cerca de 95% da transmissão no estado de São Paulo.
Apesar da relevância estrutural, os resultados recentes levantam dúvidas sobre o momento ideal de manter ou reduzir exposição ao papel.
Resultados do 4T25: lucro pressionado e efeito da base comparativa
No quarto trimestre de 2025:
Receita caiu 3,1%
Custos operacionais recuaram 5%
EBITDA cresceu 7,5%
Lucro líquido despencou 40%
A queda mais forte no lucro ocorreu devido a maior alíquota efetiva de imposto no período, além da deterioração do resultado financeiro.
Na comparação anual:
| Indicador | 2025 vs 2024 |
|---|---|
| Receita | -4,5% |
| Custos operacionais | -4,2% |
| Lucro líquido | -22% |
O principal fator estrutural foi o aumento da despesa financeira, consequência direta do crescimento do endividamento.
Dívida sobe forte: alavancagem em trajetória ascendente
A ISA Energia executou em 2025 o maior volume de investimentos de sua história:
Capex total: R$ 5,1 bilhões (alta de 40%)
Dívida líquida: de R$ 10,2 bi para R$ 14,1 bi (+38%)
Dívida bruta: R$ 16 bilhões
Caixa: caiu de R$ 3,4 bi para R$ 2,1 bi
A alavancagem líquida atingiu aproximadamente 4,1x EBITDA, patamar elevado para o setor.
O fluxo de caixa evidencia o desafio:
Geração operacional: R$ 4 bilhões
Investimentos: R$ 5,2 bilhões
Juros pagos: R$ 1,1 bilhão
JCP pagos: R$ 1,7 bilhão
Resultado: consumo de caixa superior a R$ 1,5 bilhão no ano.
Com cerca de R$ 12 bilhões adicionais previstos em projetos até 2030 (Greenfield + reforços e melhorias), a tendência é de manutenção da alavancagem elevada no curto e médio prazo.
RBSE: queda estrutural e compensação via novos projetos
A empresa ainda recebe valores relevantes da RBSE (indenização de ativos antigos), mas esse fluxo diminui significativamente após 2028.
Para compensar essa queda, a ISA Energia acelera investimentos:
4 projetos Greenfield em execução
Receita potencial adicional estimada em R$ 930 milhões/ano quando concluídos
R$ 6,3 bilhões previstos em reforços e melhorias entre 2026 e 2030
Excluindo RBSE, a receita vem crescendo a uma taxa média de 13% ao ano.
Além disso, a eficiência operacional melhorou:
Antigamente despesas operacionais representavam ~50% da receita
Atualmente estão em 32% da receita operacional sem RBSE
Esse é um ponto estruturalmente positivo.
Dividendos: retorno moderado e impacto do JCP
A empresa anunciou novos proventos:
R$ 0,14 bruto por ação
R$ 0,12 líquido
Total recente acumulado: R$ 0,38 por ação
Dividend Yield atual aproximado: 1,27% no anúncio recente
Projetando payout de 75% sobre lucro regulatório:
Dividend Yield bruto estimado: ~6,2%
Yield líquido via JCP: ~5%
Aproximadamente R$ 1,50 por ação ao ano
Para um papel negociado próximo de R$ 29,96, o retorno projetado é considerado moderado, especialmente diante da atual taxa do Tesouro IPCA+ 2037 oferecendo IPCA + 7% ao ano.
Valuation: múltiplos exigentes para crescimento limitado
Com lucro regulatório aproximado de R$ 1,6 bilhão e valor de mercado próximo de R$ 20 bilhões:
P/L aproximado: 12x
Para uma empresa com expectativa de receita praticamente estável (considerando inflação) e alavancagem elevada, o múltiplo é visto como esticado por parte do mercado.
A taxa interna de retorno real estimada gira em torno de IPCA + 4,9% ao ano, abaixo da renda fixa longa atual.
Possível gatilho positivo: indenização bilionária
Existe ainda a possibilidade de recebimento de cerca de R$ 2,7 bilhões em indenização.
Caso confirmado, o valor representaria aproximadamente 13% do valor de mercado e poderia reduzir a alavancagem de forma relevante.
Esse é um potencial bônus que pode aliviar parcialmente o risco financeiro.
Vale vender ISAE4 agora?
A decisão depende do perfil do investidor:
Risco atual:
Alavancagem elevada
Pressão no resultado financeiro
Dividendos moderados
Crescimento limitado no curto prazo
Pontos estruturais positivos:
Setor resiliente
Receita regulada
Eficiência operacional crescente
Projetos que sustentam receita futura
O papel se encontra em um verdadeiro cabo de guerra entre estabilidade estrutural e pressão financeira.
Para quem busca crescimento acelerado ou retorno acima da renda fixa no curto prazo, o custo de oportunidade pode ser alto.
Para quem foca longo prazo e estabilidade regulatória, a tese permanece defensiva, porém com retorno mais modesto do que em ciclos anteriores.
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