A antiga GUAR3 passou por uma das maiores transformações de sua história recente. Desde 5 de fevereiro de 2026, a companhia passou a negociar sob o ticker RIAA3, alinhando o nome de pregão à sua principal marca: Riachuelo. A mudança veio logo após um evento que marcou o mercado: a distribuição de aproximadamente R$ 1,48 bilhão em dividendos, equivalente a R$ 2,97 por ação, resultado direto da venda do shopping Midway Mall.
O movimento não apenas gerou um dividendo extraordinário — próximo de 28% de dividend yield — como também redefiniu a tese de investimento da empresa para os próximos anos.
O que motivou o dividendo bilionário
O pagamento histórico teve origem na venda do Midway Mall, ativo imobiliário localizado em Natal (RN), por R$ 1,6 bilhão. Parte do valor foi recebida à vista, enquanto o saldo seria pago em parcelas anuais, posteriormente antecipadas via operação financeira estruturada.
Com a alienação, a empresa optou por repassar praticamente todo o ganho aos acionistas, em um movimento visto como destravamento de valor e simplificação do portfólio. A data-ex em 23 de dezembro de 2025 explica a forte queda da ação após o anúncio, reflexo do ajuste técnico do preço pela retirada do dividendo — e não de deterioração dos fundamentos.
Estrutura de negócios após a venda do ativo imobiliário
Com a saída do braço imobiliário, a companhia passa a operar com três pilares principais:
Varejo de moda (Riachuelo): cerca de 75% da receita consolidada, com foco em lojas físicas, digitalização e maior eficiência por metro quadrado.
Serviços financeiros (Midway Financeira): aproximadamente 24% da receita, sustentada por cartões, crédito ao consumidor e maior controle de risco após reestruturação da política de concessão.
Marcas complementares: Carter’s (infantil) e Casa Riachuelo, ainda com participação menor, mas vistas como vetores de crescimento incremental.
A saída do shopping reduz a complexidade operacional e elimina uma receita recorrente pequena frente ao todo, sem comprometer o core business.
Evolução operacional e mudanças na gestão
A trajetória recente da empresa foi marcada por pressão nas margens, sobretudo entre 2018 e 2021, quando o aumento da inadimplência na operação financeira elevou fortemente as provisões para devedores duvidosos (PDD). Esse efeito corroeu a margem EBIT, que chegou a patamares negativos durante a pandemia.
Desde então, a companhia iniciou um ciclo de ajuste:
Revisão da política de crédito
Redução gradual do risco da carteira
Controle de despesas operacionais
Melhora progressiva da margem bruta no varejo
A chegada de um CEO externo à família controladora marcou o início de uma fase mais técnica, com foco em produtividade, integração entre indústria própria e varejo e maior uso de dados para gestão de estoques e coleções.
Números projetados e valuation
Modelagens financeiras considerando crescimento conservador indicam:
Receita líquida passando de cerca de R$ 10,7 bilhões (2025) para R$ 17,7 bilhões em 2033, crescimento médio anual entre 6% e 7%
Margem EBIT normalizada próxima de 9% no longo prazo
Capex médio em torno de 6% da receita, refletindo manutenção e expansão seletiva de lojas
Valor justo estimado ao redor de R$ 9,30 a R$ 9,50 por ação, já descontando a venda do Midway Mall e os dividendos pagos
Com a ação negociada próxima desse intervalo, o potencial de valorização estimado gira em torno de 10% a 15%, sem considerar novos dividendos extraordinários.
Rating e percepção de risco
Após a reorganização financeira e redução do endividamento, a companhia teve seu rating nacional elevado para AA- (bra) por Fitch Ratings, reforçando a percepção de melhora na saúde financeira e maior resiliência do balanço.
Apesar disso, o risco macroeconômico segue relevante. O setor de varejo é sensível a juros elevados, renda disponível e confiança do consumidor — fatores que podem pressionar vendas mesmas lojas em períodos de desaceleração.
RIAA3 vale a compra agora?
O consenso atual inclina-se para Compra, sustentado por três pilares:
Destravamento de valor com a venda de ativos não estratégicos
Foco total no varejo de moda, com estrutura mais simples e eficiente
Balanço mais sólido, após dividendos, redução de dívidas e melhora do rating
Por outro lado, o upside limitado no curto prazo e o risco de resultados fracos em ciclos de consumo mais fraco sugerem cautela na entrada. Para investidores de longo prazo, RIAA3 passa a se posicionar como uma tese de eficiência operacional e geração recorrente de caixa, e não mais como uma história de dividendos extraordinários.
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