O mercado brasileiro operou travado na região dos 186 mil pontos, enquanto os investidores acompanharam a temporada de balanços e os desdobramentos do leilão de energia térmica. No centro das atenções esteve a Eneva (ENEV3), que chegou a cair quase 20% no intraday, antes de reduzir parte das perdas no fechamento.
Mesmo com a forte correção, ENEV3 figurou entre os maiores volumes financeiros do pregão, superando nomes como Vale e BB Seguridade em movimentação no dia.
O que provocou a queda de ENEV3?
O estopim foi o edital aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica para recontratação de usinas térmicas.
O Ministério de Minas e Energia propôs os seguintes preços-teto:
R$ 1,1 milhão/MW/ano para térmicas existentes
R$ 1,6 milhão/MW/ano para novos projetos a gás
R$ 1,4 milhão/MW/ano para hidrelétricas
Analistas esperavam valores significativamente maiores para viabilizar retorno mínimo estimado em dois dígitos para novos investimentos térmicos. O preço ficou abaixo do que o mercado considerava necessário para garantir taxa interna de retorno atrativa.
Como resultado, a percepção de rentabilidade futura da Eneva foi revisada para baixo.
ENEV3: números atuais da companhia
A Eneva é hoje a maior geradora privada de energia térmica do Brasil, com forte integração vertical entre produção de gás natural e geração elétrica.
Evolução estrutural da companhia
| Indicador | 2017 | Atual |
|---|---|---|
| Valor de mercado | ~R$ 4 bi | ~R$ 39 bi |
| Capacidade instalada | 2,2 GW | 7,2 GW |
| Reservas de gás (bcf) | 18 | 45 |
| EBITDA anual | ~R$ 1,4 bi | ~R$ 6,4 bi |
A empresa atua em:
Extração e processamento de gás natural
Geração térmica a gás e carvão
Expansão em energia solar
Diversificação geográfica de ativos
Indicadores financeiros de ENEV3
| Indicador | Valor Atual |
|---|---|
| Valor de mercado | ~R$ 39 bilhões |
| P/VP | 2,0 |
| Margem EBITDA | 32% |
| Margem líquida | ~3% |
| Dívida líquida / EBITDA | ~3x |
| Dívida / Patrimônio | ~91% |
| ROE | ~2,5% |
| Crescimento composto da receita | ~39% |
Apesar do forte crescimento histórico, a empresa apresenta:
Alta alavancagem
Margem líquida comprimida
Baixa rentabilidade sobre patrimônio
Outro ponto relevante: a companhia não paga dividendos desde 2009.
Movimento técnico: suporte segurou a queda
No gráfico, ENEV3 perdeu com força a região dos R$ 20, rompendo suportes importantes. A queda levou o papel até a faixa de R$ 17,00–R$ 17,50, próxima à média móvel de 200 períodos, onde houve reação compradora.
Para fechar o gap deixado na abertura, a ação precisaria recuperar cerca de 12%.
Nos últimos 12 meses, o papel já chegou a negociar acima de R$ 22, mantendo ainda valorização relevante no período, mesmo após a correção recente.
Enquanto ENEV3 caía, quem subiu?
A dinâmica do leilão favoreceu empresas com projetos hidrelétricos.
Copel renovou máxima histórica
Auren Energia também avançou
O mercado passou a enxergar maior competitividade para ativos hídricos, que possuem custo estrutural mais baixo em relação às térmicas.
Estrutura acionária reforça peso institucional
Entre os principais acionistas da Eneva estão:
BTG Pactual (~25%)
Goldman Sachs (>5%)
Dynamo (~9,5%)
Outros fundos institucionais relevantes
O free float gira em torno de 30%.
Ibovespa perto do topo histórico
Enquanto ENEV3 enfrentava turbulência, o Ibovespa operava próximo de renovar máxima histórica na região de 187 mil pontos.
O dia foi marcado por equilíbrio entre altas e quedas, com destaque negativo para:
Azul (queda expressiva)
Eneva
E entre as maiores altas:
Banco de Brasília
Braskem
BB Seguridade
O que esperar agora para ENEV3?
A Eneva segue como empresa estratégica no setor energético brasileiro, com posição dominante em gás natural onshore e geração térmica.
Porém, o leilão trouxe questionamentos relevantes:
A expansão térmica continuará viável nesses preços?
Haverá revisão dos parâmetros?
A empresa buscará acelerar diversificação em solar e outros segmentos?
No curto prazo, o mercado tende a acompanhar:
Desdobramentos políticos do leilão
Revisões de preço-alvo
Movimentos técnicos para fechamento do gap
Apesar do tom negativo do dia, a tendência estrutural de longo prazo ainda depende da capacidade da companhia de preservar rentabilidade e reduzir alavancagem.
A volatilidade voltou para ENEV3. E, em Bolsa, quando o volume dispara, o mercado costuma estar precificando algo maior do que apenas um pregão.
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