A privatização da Copasa entrou oficialmente em uma nova fase após a aprovação definitiva do projeto de lei pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Com isso, o texto segue agora para sanção do governador, que já sinalizou publicamente que deve autorizar o processo de desestatização. A medida elimina também a exigência de referendo popular, após a aprovação da PEC que retirou essa obrigatoriedade do caminho legal.
Na prática, a sanção abre espaço para que o governo estadual inicie a modelagem da privatização que ainda precisa definir pontos cruciais, como o formato do leilão, a possibilidade de parceiro estratégico, oferta de preço e o percentual de ações que será efetivamente colocado à venda. O cronograma mais citado pelo mercado aponta para uma possível operação entre o fim de 2025 e abril de 2026.
Próximos passos da privatização
Mesmo com o aval legislativo, a privatização da Copasa ainda depende de uma série de decisões estratégicas. O Estado de Minas Gerais detém atualmente cerca de 50,03% do capital da companhia. Isso significa que uma venda relativamente pequena, reduzindo a participação para abaixo de 50%, já seria suficiente para a perda do controle estatal.
Ainda não está claro se o governo pretende vender apenas o necessário para deixar o controle ou se optará por uma saída mais ampla. Esse ponto é considerado pelo mercado como um dos principais “capítulos” ainda em aberto dessa novela.
Além disso, qualquer comprador precisará cumprir rigorosamente as metas do Marco Legal do Saneamento, que exige universalização do abastecimento de água e cobertura de esgoto próxima de 90% — um desafio que exigirá investimentos bilionários nos próximos anos.
Alta histórica das ações levanta alerta
Um dos fatores que mais divide opiniões entre investidores é o comportamento recente das ações. Em 2025, a Copasa já acumula alta superior a 110%, impulsionada principalmente pelos rumores e avanços concretos do processo de privatização no início do ano.
Esse movimento acelerado leva parte do mercado a avaliar que “o bonde já passou”, ao menos no curto prazo. A percepção é de que boa parte do valor esperado da privatização já teria sido precificada pelos investidores.
Pontos positivos: eficiência, reajustes e resultados sólidos
Do lado operacional, a Copasa segue apresentando números robustos. Nos primeiros nove meses de 2025, os investimentos cresceram 26%, refletindo o esforço da companhia para atender às exigências regulatórias. O EBITDA acumulado chegou a R$ 2,2 bilhões, com crescimento de 3,3% e margem elevada, próxima de 40%.
A empresa também vem melhorando sua eficiência operacional. As perdas na distribuição caíram de 40,5% para cerca de 37,3% em cinco anos, apoiadas por ações como substituição de hidrômetros, uso de tecnologia via satélite e renovação de mais de 350 km de rede. A inadimplência recuou de 4,5% para 3%, outro sinal positivo.
No campo tarifário, a Copasa se destaca por conseguir reajustes acima da inflação. Entre 2013 e 2023, os reajustes acumulados chegaram a 120%, frente a um IPCA de 88%. Para 2026, está prevista uma revisão tarifária média de 5,5%, com início em 1º de janeiro.
Relatório do BTG Pactual também aponta potencial de destrava de valor via revisão da base de ativos regulatórios (RAB). A RAB líquida da Copasa em 2024 é estimada em R$ 15 bilhões, número considerado baixo quando comparado à escala operacional da empresa e à Sabesp, o que sugere espaço para crescimento tarifário no longo prazo em um cenário pós-privatização.
Pontos negativos: investimentos altos, dívida e valuation esticado
Apesar da qualidade operacional, os riscos financeiros ganharam peso na análise. A Copasa entrou em um ciclo intenso de investimentos: cerca de R$ 2,5 bilhões em 2025, com projeções que sobem para R$ 3,4 bilhões em 2026 e 2027, chegando a quase R$ 3,8 bilhões em 2029. Historicamente, esse tipo de ciclo pressiona o caixa, eleva o endividamento e reduz dividendos.
A dívida líquida sobre EBITDA já subiu de 1,4x em 2023 para cerca de 2,1x, com cronograma de amortização mais pesado entre 2026 e 2029. A expectativa é de que os proventos fiquem mais limitados pelos próximos quatro a cinco anos.
No valuation, os números também acendem alertas. O P/L atual gira em torno de 12,2 vezes, bem acima da média histórica de cerca de 9 vezes. Para voltar à média, a ação teria que cair entre 30% e 40%. O preço sobre valor patrimonial está em 1,92, quase o dobro da média histórica próxima de 1.
Esse cenário não é exclusivo da Copasa. O setor de saneamento como um todo apresenta múltiplos elevados. Comparações com Sanepar e Sabesp mostram valuations acima das médias, além de dividend yields pouco atrativos após a forte valorização de 2025.
Oportunidade ou cautela?
A privatização da Copasa representa, sem dúvida, um marco histórico para o setor de saneamento em Minas Gerais e pode destravar valor no longo prazo. No entanto, no curto e médio prazo, a combinação de investimentos elevados, aumento da dívida, pressão sobre dividendos e múltiplos esticados faz muitos investidores adotarem uma postura mais cautelosa.
A pergunta que fica é inevitável: a privatização ainda é uma grande oportunidade ou o mercado já precificou esse cenário? A resposta pode depender do apetite ao risco, do horizonte de investimento e, principalmente, dos próximos capítulos dessa história que ainda está longe de terminar.
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