A Cemig concluiu a maior captação de recursos de sua história ao levantar R$ 4 bilhões em debêntures incentivadas. O movimento marca oficialmente a entrada da companhia em um novo ciclo de expansão, com foco em ativos regulados e projetos de longo prazo, o que reduz o espaço para dividendos elevados no curto prazo.
O alongamento da dívida ocorre em um momento estratégico, diante da possibilidade de mudanças na tributação das debêntures a partir de 2026. Com isso, a Cemig garantiu recursos com custo extremamente competitivo, fortalecendo sua estrutura financeira para justificar o plano agressivo de investimentos previsto até o fim da década.
Captação saiu abaixo do CDI e reforça confiança do mercado
A demanda pela emissão foi tão elevada que a Cemig conseguiu captar os recursos a uma taxa de CDI menos 0,55%. Na prática, enquanto grande parte das empresas tem acessado crédito a custos entre CDI +1,5% e CDI +2%, a estatal mineira obteve financiamento com juros significativamente menores.
Esse nível de precificação confirma a percepção de baixo risco de crédito da companhia e sua forte capacidade de geração de caixa, mesmo em um cenário de Selic elevada.
Investimentos ficam concentrados em ativos regulados
A maior parte dos recursos será destinada aos segmentos de:
Distribuição de energia
Transmissão
Geração
Gás natural
Geração distribuída
Inovação e transformação digital
O foco nos ativos regulados garante previsibilidade de receita por meio da Receita Anual Permitida (RAP), o que reduz volatilidade e traz estabilidade ao fluxo de caixa da companhia ao longo dos contratos de concessão.
Plano de investimentos chega a R$ 39 bilhões até 2029
Entre 2025 e 2029, a Cemig prevê investir aproximadamente R$ 39 bilhões. Até junho de 2025, cerca de R$ 23 bilhões já haviam sido executados, indicando que a empresa precisa acelerar ainda mais o ritmo nos próximos anos para cumprir o cronograma.
Somente em 2025, os investimentos cresceram 17% em relação a 2024, totalizando quase R$ 5 bilhões, com forte concentração na área de distribuição.
Desde 2018, o capex da companhia já aumentou mais de seis vezes, refletindo a clara mudança de perfil estratégico.
Expansão operacional já impulsiona a receita da companhia
A execução dos projetos já começa a impactar diretamente o faturamento. Entre janeiro e setembro de 2025, a Receita Anual Permitida adicionada somou cerca de R$ 32 milhões, representando crescimento de 12% sobre os 12 meses de 2024, com ainda três meses para o fechamento do ano.
Nos primeiros nove meses de 2025, a Cemig entregou:
14 novas subestações
Mais de 5.000 km de novas redes
R$ 149 milhões em expansão e manutenção
R$ 200 milhões em leilões de geração
R$ 253 milhões em reforços na transmissão
R$ 30 milhões no Projeto Verona
R$ 180 milhões no Projeto Centro-Oeste
99 km de novos gasodutos pela Gasmig
À medida que esses projetos são energizados, a RAP cresce automaticamente.EBITDA, lucro e receita mostram avanço estrutural
Os investimentos não ficaram apenas no papel e já se convertem em resultados operacionais:
EBITDA saiu de R$ 3,7 bilhões em 2018 para cerca de R$ 10 bilhões atualmente
Lucro líquido avançou de R$ 1,7 bilhão para aproximadamente R$ 6,5 bilhões
Margem líquida ao redor de 15%
Receita passou de cerca de R$ 5 bilhões em 2009 para mais de R$ 40 bilhões nos últimos 12 meses
Esse crescimento explica por que o mercado continua vendo valor estrutural no papel, mesmo em um momento de transição no perfil de dividendos.
Endividamento segue confortável apesar do ciclo de expansão
Mesmo com o forte volume de investimentos, a alavancagem da Cemig permanece controlada. A relação dívida líquida/EBITDA gira em torno de 1,7 vez, patamar considerado bastante seguro para empresas do setor elétrico.
Recentemente, a companhia emitiu cerca de R$ 5,1 bilhões em dívidas, enquanto os investimentos somaram aproximadamente R$ 4,5 bilhões, mostrando que os recursos estão efetivamente sendo direcionados para expansão da operação.
Dividendos devem ficar mais modestos em 2025 e 2026
O dividend yield elevado observado em 2024 foi impulsionado por eventos não recorrentes, principalmente vendas de ativos. Esse cenário inflou artificialmente o retorno ao acionista.
Com a entrada no ciclo atual de investimentos, a expectativa é de payout ao redor de 55%, o que leva a um dividend yield projetado próximo de 7% ao ano nas ações preferenciais, bem abaixo dos números extraordinários do passado recente.
A Cemig mantém histórico consistente de pagamentos desde 1999, mas o mercado precisa ajustar a expectativa para um período de menor distribuição e maior reinvestimento.
Ações da Cemig ficaram para trás no rali das elétricas em 2025
Enquanto o índice do setor elétrico sobe cerca de 63% no ano, a Cemig avança apenas 2% em 2025. Outras companhias do setor registraram altas expressivas:
Copel: +67%
CPFL: +57%
Auren: perto de +50%
Taesa: cerca de +22%
ISA Energia: +21%
Esse descolamento cria uma leitura anticíclica de que a ação pode estar atrasada dentro do movimento de alta do setor.
Desempenho histórico da Cemig supera o Ibovespa com folga
Entre 2018 e agosto de 2025:
Ações ordinárias: +640%
Ações preferenciais: +485%
Índice de energia elétrica: +160%
Ibovespa: +78%
O papel superou o índice principal da Bolsa em mais de oito vezes no período.
Avaliação atual aponta atratividade moderada para novos aportes
Em modelos que combinam retorno sobre capital, preço, lucro projetado e dividendos, a Cemig aparece entre as ações relevantes do radar de renda e crescimento, ainda que fique atrás de nomes mais agressivos em dividendos.
O ROE elevado sustenta a permanência do papel no radar de longo prazo, principalmente para quem aceita dividendos menores hoje em troca de maior crescimento futuro.
Vale a pena investir na Cemig agora?
A Cemig vive um momento claro de transição: menos foco em dividendos extraordinários e mais foco em crescimento estruturado, previsível e de longo prazo.
Para quem busca renda explosiva no curto prazo, a ação deixa de ser protagonista. Para quem pensa em valorização sustentável, geração contínua de caixa e previsibilidade regulatória, a companhia segue como um dos ativos mais sólidos do setor elétrico brasileiro.
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