O Bradesco (BBDC4) e o Banrisul (BRSR6) voltaram ao radar dos investidores que buscam dividendos após a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026. Os dois bancos apresentam características distintas: enquanto o Bradesco mantém uma trajetória de recuperação dos lucros, o banco gaúcho segue negociado a múltiplos considerados baixos, mas enfrenta maior dificuldade para elevar sua rentabilidade.
A discussão ganha força porque o Banrisul possui uma política formal de distribuição de resultados e aprovou para 2026 um payout equivalente a 40% do lucro líquido, após a dedução da reserva legal, por meio de dividendos e/ou juros sobre capital próprio.
Já no Bradesco, a melhora dos resultados vem aumentando a atenção sobre a capacidade futura de remuneração dos acionistas. O banco registrou no segundo trimestre o décimo período consecutivo de evolução do lucro recorrente.
A análise que serviu de ponto de partida para esta matéria destaca justamente essa combinação entre dividendos, preço das ações e rentabilidade dos dois bancos, embora parte das projeções apresentadas no material seja estimativa do analista e não guidance oficial das instituições.
Banrisul tem lucro de R$ 325 milhões e rentabilidade ainda pressionada
O Banrisul encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 325,4 milhões, crescimento de 46,8% frente aos R$ 221,6 milhões registrados nos três primeiros meses do ano.
Na comparação anual, entretanto, houve queda de aproximadamente 13,9%, já que o banco havia lucrado R$ 377,7 milhões no segundo trimestre de 2025.
No acumulado do primeiro semestre, o lucro chegou a R$ 547 milhões, abaixo dos R$ 619,2 milhões registrados no mesmo intervalo do ano passado.
A rentabilidade também exige atenção. O retorno sobre o patrimônio líquido médio, o ROAE, ficou em 11,4% no segundo trimestre, contra 7,9% no primeiro trimestre e 14,3% um ano antes. No semestre, o indicador foi de 9,6%.
Isso ajuda a explicar por que um valuation aparentemente barato não significa, isoladamente, que as ações estejam subavaliadas.
Uma instituição capaz de produzir retorno elevado sobre seu patrimônio costuma justificar múltiplos superiores. Quando a rentabilidade permanece relativamente baixa, parte do desconto pode refletir justamente a menor capacidade de criação de valor.
BRSR6 está barata?
No material analisado, o Banrisul aparece com uma relação preço sobre valor patrimonial, o P/VP, próxima de 0,48 vez. Esse dado corresponde ao momento retratado pela análise e pode mudar diariamente conforme a cotação das ações e o patrimônio contábil do banco.
Um P/VP inferior a 1 indica que o mercado atribui à companhia valor inferior ao patrimônio líquido registrado no balanço.
Isso não representa automaticamente uma oportunidade.
No caso do Banrisul, o desconto precisa ser confrontado com fatores como rentabilidade, qualidade da carteira de crédito, despesas, provisões para perdas e capacidade de expansão dos resultados.
A carteira de crédito do banco atingiu R$ 64,4 bilhões no segundo trimestre, enquanto os ativos totais chegaram a R$ 172,2 bilhões.
O comportamento do crédito rural merece acompanhamento especial, dado o peso dessa modalidade na operação do banco e o ambiente mais desafiador para determinados segmentos do agronegócio.
Dividendos do Banrisul continuam sendo parte importante da tese
Para investidores de renda, o principal atrativo do Banrisul continua sendo sua distribuição de resultados.
Na assembleia realizada em 28 de abril de 2026, os acionistas aprovaram a distribuição de 40% do lucro líquido ajustado pela reserva legal na forma de dividendos e/ou juros sobre capital próprio.
O banco já anunciou em junho juros sobre capital próprio referentes ao segundo trimestre de 2026, conforme documentação disponível em sua área de Relações com Investidores.
Uma nova distribuição, contudo, só pode ser tratada como confirmada depois de aprovação e comunicação oficial ao mercado.
Por isso, previsões de pagamentos futuros devem ser entendidas como estimativas, e não como proventos garantidos.
Bradesco mostra recuperação mais consistente
O cenário é diferente no Bradesco.
O banco encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 7,05 bilhões, avanço de 3,5% sobre o trimestre imediatamente anterior e de 16,2% frente ao mesmo período de 2025.
Foi o décimo trimestre consecutivo de crescimento do resultado recorrente.
O ROAE consolidado atingiu 16,2%, acima dos 15,8% registrados no primeiro trimestre e dos 14,6% observados um ano antes.
A carteira de crédito expandida chegou a R$ 1,137 trilhão, crescimento anual de 11,6%.
Entre pessoas jurídicas, a expansão alcançou 14,1% em 12 meses, enquanto a carteira de pessoas físicas avançou 8,4%.
Esses números reforçam a recuperação operacional do Bradesco, embora os indicadores de qualidade dos ativos ainda precisem ser monitorados.
Inadimplência do Bradesco exige atenção
A inadimplência das operações vencidas há mais de 90 dias ficou em 4,3% no segundo trimestre, aumento de 0,1 ponto percentual frente ao trimestre anterior e de 0,2 ponto em um ano.
Ao mesmo tempo, a despesa de provisões para devedores duvidosos expandida alcançou aproximadamente R$ 10 bilhões, avanço de 22,6% na comparação anual.
O crescimento do lucro, portanto, ocorre em um cenário no qual o banco continua ampliando receitas e margens, mas precisa administrar o impacto dos juros elevados sobre famílias e empresas.
Para o investidor, a evolução da inadimplência e das provisões nos próximos balanços será um dos principais indicadores para avaliar se a recuperação conseguirá manter o ritmo.
Dividendos do Bradesco podem crescer?
A expectativa apresentada no material-base é de uma evolução gradual dos dividendos à medida que o lucro do banco se recupere. Essa projeção, contudo, é uma avaliação do autor do conteúdo utilizado como referência e não constitui previsão oficial do Bradesco.
O ponto fundamental para os próximos trimestres será verificar se o banco consegue continuar aumentando sua rentabilidade sem provocar uma deterioração relevante da carteira de crédito.
Caso o lucro avance e a necessidade de provisões permaneça controlada, aumenta a capacidade econômica para remunerar os acionistas. Isso, porém, não significa que pagamentos futuros estejam garantidos.
Bradesco não está comprando a Amil
Outro assunto que entrou no radar dos investidores nos últimos dias foi uma possível operação envolvendo Bradesco e Amil.
Reportagem publicada pelo jornal O Globo apontou que o banco poderia disponibilizar aproximadamente R$ 12 bilhões para financiar os fundos Advent e Bain Capital em uma eventual aquisição da operadora de planos de saúde.
O Bradesco esclareceu em 25 de agosto que não existe documento ou contrato vinculante celebrado com as partes envolvidas.
O ponto é importante: a notícia não significa que o Bradesco esteja comprando a Amil.
O que foi mencionado foi uma eventual estrutura de financiamento aos potenciais compradores.
O próprio banco afirmou que discussões sobre estruturas de financiamento são naturais em operações de fusões e aquisições de grande porte e acrescentou que, mesmo se participasse de uma transação nos moldes noticiados, consideraria a operação parte do curso ordinário de seus negócios.
Portanto, não há atualmente uma aquisição da Amil pelo Bradesco confirmada.
Bradesco ou Banrisul: qual apresenta a tese mais forte?
Os números mostram duas teses diferentes.
O Banrisul combina valuation descontado e política relevante de distribuição de resultados, mas ainda apresenta rentabilidade mais baixa e maior oscilação dos lucros.
O Bradesco também passou por um período de forte desconto em Bolsa, porém conseguiu elevar gradualmente lucro e ROAE durante seu processo de recuperação operacional.
Para investidores interessados principalmente em dividendos, observar apenas o dividend yield passado pode ser insuficiente.
A sustentabilidade dos pagamentos depende da evolução do lucro, da qualidade do crédito, das provisões, do capital disponível e da política de distribuição adotada por cada banco.
No Banrisul, os próximos resultados serão importantes para verificar se a melhora observada entre o primeiro e o segundo trimestre consegue se consolidar.
No Bradesco, a atenção estará voltada principalmente para a inadimplência e para a manutenção da trajetória de crescimento da rentabilidade.
Em ambos os casos, dividendos projetados para períodos futuros não devem ser confundidos com pagamentos oficialmente anunciados.
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