O forte vaivém da Bolsa brasileira voltou a colocar empresas negociadas abaixo do próprio valor patrimonial no radar dos investidores. Entre os nomes que chamam atenção estão Yduqs (YDUQ3), M. Dias Branco (MDIA3), Cogna (COGN3), Vitru Educação (VTRU3) e Banrisul (BRSR6).
A comparação costuma ser feita pelo indicador P/VP, que relaciona o preço da ação ao patrimônio líquido por ação. Um resultado inferior a 1 significa, em termos contábeis, que o mercado atribui à companhia um valor inferior ao seu patrimônio líquido.
Isso, porém, não significa que o investidor esteja necessariamente diante de uma barganha.
O desconto pode refletir expectativa de queda nos lucros, endividamento elevado, riscos regulatórios, problemas de governança ou deterioração do negócio. O recente pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia é um exemplo extremo de como uma ação aparentemente descontada pode continuar perdendo valor.
Bolsa se recupera depois de sequência de 11 quedas
O ambiente de mercado ajuda a explicar por que diversos papéis ficaram pressionados.
Em 18 de agosto, o Ibovespa completou 11 pregões consecutivos de queda, encerrando aquela sessão aos 166.334 pontos — a maior sequência negativa desde agosto de 2023.
Desde então, o movimento mudou. Nesta quarta-feira, 26 de agosto, o índice encerrou aos 174.586 pontos, em leve avanço de 0,01%, completando a sexta sessão consecutiva de valorização.
Ainda assim, o cenário continua marcado por juros elevados. Na reunião de 5 de agosto, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14% ao ano, corte de 0,25 ponto percentual. O Banco Central também destacou moderação gradual da atividade econômica e expectativas de inflação ainda acima da meta.
Outro fator de pressão foi a saída de investidores estrangeiros. Até 18 de agosto, o saldo negativo acumulado no mês já chegava a R$ 20,4 bilhões, segundo levantamento da Elos Ayta com dados da B3.
É nesse ambiente que empresas negociadas a múltiplos baixos voltam ao debate.
Yduqs combina geração de caixa com risco regulatório
A primeira empresa é a Yduqs (YDUQ3), grupo de educação responsável por marcas como Estácio e Ibmec.
A companhia divulgou lucro líquido ajustado de R$ 150 milhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 2,1% na comparação anual. Ao mesmo tempo, apresentou projeção de fluxo de caixa do acionista entre R$ 520 milhões e R$ 620 milhões em 2026, acima dos R$ 500 milhões registrados em 2025.
O ponto de atenção está no ensino digital.
Mudanças regulatórias no ensino a distância elevaram a percepção de risco sobre empresas educacionais. Cursos e formatos passaram a enfrentar novas restrições, aumentando a importância do ensino presencial e semipresencial.
Por isso, o desconto atribuído pelo mercado à Yduqs não deve ser analisado apenas como sinal de preço baixo. Parte dele representa a incerteza sobre como a companhia conseguirá adaptar sua operação e preservar crescimento e margens diante das novas regras.
M. Dias Branco: ação caiu mesmo quando lucro cresceu
A M. Dias Branco (MDIA3) oferece outro exemplo de como preço e resultado empresarial podem seguir direções diferentes no curto prazo.
Depois da divulgação do primeiro trimestre, em maio, as ações despencaram 13,76% em um único pregão, apesar de o lucro líquido ter aumentado mais de 50%, para R$ 106,3 milhões.
A principal razão foi a frustração com outras linhas do balanço. A receita líquida de R$ 2,22 bilhões ficou abaixo das estimativas acompanhadas pelo mercado.
O balanço mais recente, porém, trouxe um quadro diferente.
No segundo trimestre de 2026, a M. Dias Branco registrou receita líquida de aproximadamente R$ 2,7 bilhões, praticamente estável na comparação anual. O lucro líquido ficou em R$ 168,9 milhões, queda de 22%, enquanto volumes vendidos cresceram 4,4%.
A empresa permanece particularmente sensível aos preços de matérias-primas. O próprio material de Relações com Investidores destaca trigo e óleos vegetais como componentes relevantes de seus custos.
Assim, um valuation baixo precisa ser confrontado com a capacidade de repassar custos, preservar volumes e recuperar margens.
Cogna multiplicou de valor e depois devolveu parte da alta
A Cogna (COGN3) talvez seja o caso mais ilustrativo da diferença entre comprar uma ação barata e comprar uma empresa que efetivamente conseguirá entregar valor.
Depois da forte valorização registrada em 2025, o papel passou por correção relevante em 2026.
Ao mesmo tempo, os resultados operacionais continuaram avançando. No segundo trimestre deste ano, a Cogna registrou lucro líquido de R$ 148,9 milhões, aumento de 25,3% sobre o mesmo período de 2025.
No primeiro semestre, o lucro acumulado chegou a R$ 290,3 milhões, alta de 35,7%.
O endividamento, entretanto, continua sendo um fator que merece acompanhamento. Ao final do segundo trimestre, a companhia tinha mais de R$ 4,2 bilhões em empréstimos, financiamentos e outras obrigações financeiras, diante de aproximadamente R$ 1,43 bilhão em disponibilidades.
Além disso, assim como a Yduqs, a Cogna opera em um setor diretamente afetado pelas mudanças regulatórias no ensino superior.
O desconto, portanto, deve ser interpretado em conjunto com dívida, crescimento do lucro, geração de caixa e adaptação regulatória.
Vitru passa de 1 milhão de alunos
A terceira empresa de educação da lista é a Vitru Educação (VTRU3), dona da Uniasselvi e da UniCesumar.
A companhia encerrou 2025 com lucro líquido ajustado recorde de R$ 483,7 milhões, avanço de 61,2%. A geração de caixa livre atingiu R$ 571,3 milhões.
Os números continuaram crescendo em 2026.
No segundo trimestre, o lucro líquido ajustado alcançou R$ 159,9 milhões, alta de 31,5% sobre o mesmo período do ano anterior. A base total atingiu 1,031 milhão de estudantes, enquanto a geração de caixa livre acumulada no primeiro semestre chegou a R$ 410 milhões.
A companhia também reduziu a dívida líquida em aproximadamente R$ 630 milhões em 12 meses, levando a alavancagem financeira de 2,34 vezes para 1,36 vez.
O risco está justamente na característica que ajudou a Vitru a ganhar escala: sua elevada exposição à educação digital e semipresencial.
Mudanças nas regras do setor podem alterar custos, captação de estudantes e estrutura dos cursos. Assim, o mercado pode continuar exigindo um desconto mesmo diante do crescimento dos resultados.
Banrisul negocia sob risco de crédito e influência estatal
O último nome é o Banrisul, especialmente as ações preferenciais B BRSR6, classe mais líquida entre os papéis do banco.
Fundado em 1928 e controlado pelo Estado do Rio Grande do Sul, o banco registrou lucro líquido de R$ 325,4 milhões no segundo trimestre de 2026, aumento de 46,8% em relação ao trimestre imediatamente anterior.
No primeiro semestre, o lucro acumulado chegou a R$ 547 milhões.
Apesar da recuperação trimestral, investidores precisam acompanhar a qualidade da carteira de crédito, inadimplência e evolução das projeções do próprio banco.
Há também um componente estrutural: empresas controladas pelo poder público frequentemente negociam com desconto em relação a pares privados porque parte dos investidores incorpora ao preço o risco de interferência política ou decisões que não priorizem exclusivamente a rentabilidade dos acionistas.
Em contrapartida, o Banrisul mantém política relevante de distribuição de resultados. Na assembleia realizada em abril, foi aprovada a adoção de percentual equivalente a 40% do lucro líquido, descontada a reserva legal, para distribuição via dividendos e/ou juros sobre capital próprio em 2026.
P/VP abaixo de 1 significa ação barata?
Não necessariamente.
O indicador P/VP compara o preço da companhia na Bolsa com seu patrimônio líquido contábil. Quando fica abaixo de 1, significa que o valor atribuído pelo mercado é inferior ao patrimônio registrado no balanço.
Mas patrimônio contábil não equivale a dinheiro disponível para o acionista.
Imóveis podem valer menos do que o registrado, máquinas podem ter pouca liquidez, créditos podem não ser integralmente recebidos e determinados ativos podem não produzir retorno suficiente para justificar seu valor contábil.
Além disso, empresas podem destruir patrimônio ao longo do tempo caso continuem acumulando prejuízos.
Por isso, a análise precisa considerar pelo menos rentabilidade, dívida, geração de caixa, qualidade dos ativos, perspectivas de lucro e riscos específicos do negócio.
Casas Bahia mostra por que desconto sozinho não basta
O exemplo recente mais evidente veio do Grupo Casas Bahia (BHIA3).
Em 16 de agosto, a companhia protocolou pedido de recuperação judicial. Segundo documentos do processo, o grupo contabilizava aproximadamente R$ 17,3 bilhões em passivos. O pedido foi confirmado em fato relevante divulgado pela própria companhia.
O caso ajuda a mostrar uma diferença fundamental.
Uma ação pode parecer barata porque o mercado está exagerando na percepção de risco — situação em que existe potencial de reprecificação caso os resultados melhorem.
Mas também pode parecer barata porque o patrimônio, os lucros ou a capacidade de pagamento da companhia estão se deteriorando rapidamente.
O P/VP, sozinho, não permite diferenciar as duas situações.
O que observar antes de investir nessas ações
Yduqs, M. Dias Branco, Cogna, Vitru e Banrisul apresentam características muito diferentes, apesar de aparecerem em levantamentos de empresas negociadas com desconto sobre o patrimônio.
No setor educacional, o principal ponto de atenção está na nova estrutura regulatória e na exposição ao ensino digital. Na M. Dias Branco, entram na conta consumo, preços de commodities e margens. No Banrisul, qualidade do crédito e controle estatal ocupam posição central.
Portanto, o desconto pode servir como ponto de partida para uma análise, mas não como argumento suficiente para comprar uma ação.
Também é importante observar que indicadores como P/VP, P/L e dividend yield mudam conforme a cotação das ações e a divulgação de novos balanços. Valores vistos em determinado pregão não devem ser tratados como permanentes.
A queda de preço pode criar oportunidades, mas também pode simplesmente representar a forma como o mercado precifica um risco que ainda não desapareceu.
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