As ações do Banco Bradesco acumulam valorização superior a 76% em 12 meses, movimento que marca uma inflexão clara em relação ao período de forte deterioração observado entre 2022 e início de 2023. O banco, que chegou a ser visto como um dos elos frágeis do setor financeiro, passou a apresentar sinais consistentes de recuperação estrutural — e não apenas conjuntural.
A alta expressiva levanta uma questão central para 2026: o papel ficou caro ou o mercado ainda não precificou totalmente a virada operacional do banco?
A reestruturação da carteira explica a virada
O principal vetor da recuperação foi a reorganização profunda da carteira de crédito, com redução da exposição a segmentos de maior risco, revisão de políticas internas e maior foco em operações com garantias. O impacto foi direto sobre:
Redução gradual das provisões para devedores duvidosos (PDDs)
Estabilização da inadimplência
Melhora do custo de crédito
Recuperação da rentabilidade ajustada ao risco
Esse processo ganhou tração ao longo de 2024 e se consolidou em 2025, permitindo que o banco retomasse crescimento de lucro de forma recorrente.
Resultados confirmam retomada sustentável
No 3º trimestre de 2025, o Bradesco apresentou números que reforçam a leitura de recuperação estrutural:
| Indicador | 3T25 | Var. Trimestral | Var. Anual |
|---|---|---|---|
| Lucro líquido recorrente | R$ 6,2 bilhões | +2,3% | +18,8% |
| ROE | 14,7% | +0,1 p.p. | +2,3 p.p. |
| Margem financeira total | R$ 18,7 bilhões | +3,7% | +16,9% |
| Receita de serviços | R$ 10,6 bilhões | +2,8% | +6,9% |
| Seguros, previdência e capitalização | R$ 5,7 bilhões | +1,0% | +13,0% |
O ponto-chave está no lucro recorrente, que indica capacidade real de geração de caixa e sustenta dividendos mais previsíveis — algo fundamental para investidores de longo prazo.
Rentabilidade cresce sem aumento relevante de risco
Mesmo com a expansão da margem financeira, o banco conseguiu manter controle do risco, evidenciado pelo avanço do spread ajustado e pela melhora da qualidade da carteira. Isso indica que o crescimento não veio acompanhado de deterioração do balanço, diferentemente do que ocorreu em ciclos anteriores.
Além disso, as despesas operacionais seguem alinhadas ao guidance, com ajustes contínuos de eficiência e racionalização do footprint físico.
Ações BBDC3 ou BBDC4: diferenças importam
A escolha entre ações ordinárias e preferenciais ganhou relevância após a valorização recente.
| Indicador | BBDC3 | BBDC4 |
|---|---|---|
| Dividend yield (12m) | ~7,13% | ~6,74% |
| P/L | Mais baixo | Levemente superior |
| P/VP | Mais descontado | Próximo de 1,1x |
| Tag along | 100% | 80% |
| Liquidez | Menor | Maior |
Para o investidor focado em valor e longo prazo, BBDC3 tende a ser mais atrativa. Já BBDC4 oferece maior liquidez, o que favorece estratégias mais avançadas e facilita a entrada e saída do papel.
Dividendos, JCP e impacto da nova tributação
Com a elevação da alíquota do imposto sobre Juros sobre Capital Próprio (JCP) de 15% para 17,5%, o Bradesco decidiu reajustar os valores pagos, evitando perda de rendimento líquido ao acionista minoritário. A estratégia seguiu a linha adotada pelo Itaú Unibanco, reforçando a postura de preservação da atratividade do papel para investidores de renda.
É importante destacar que o dividend yield atual aparenta menor atratividade porque o denominador (preço da ação) subiu quase 80%. Para quem entrou antes da recuperação, o dividendo sobre o custo já supera com folga os dois dígitos.
Valuation: caro no curto prazo, ainda competitivo no setor
Mesmo após a disparada, o Bradesco negocia a cerca de 9 vezes o lucro, patamar ainda inferior à média histórica do setor bancário. O P/VP em torno de 1,1x reflete a reprecificação positiva, mas não caracteriza excesso quando comparado a ciclos anteriores.
| Métrica | Bradesco | Média do setor |
|---|---|---|
| P/L | ~9x | ~9,1x |
| P/VP | ~1,1x | >1,2x |
| ROE projetado 2026 | Acima da média histórica | Estável |
Modelos de valuation apontam preço justo acima de R$ 27, o que ainda sugere potencial relevante, especialmente se o lucro seguir crescendo conforme esperado.
Projeções e preço teto para 2026
Com lucro projetado em cerca de R$ 23,2 bilhões e payout estimado em 55%, o dividendo por ação (DPA) pode superar R$ 1,30.
| Dividend yield desejado | Preço teto estimado |
|---|---|
| 4% | R$ 32,80 |
| 6% | R$ 21,88 |
| 8% | R$ 16,41 |
| 10% | R$ 13,13 |
Esses níveis ajudam o investidor a calibrar entradas, especialmente após um rali tão intenso.
O que dizem Safra e Itaú BBA
O Banco Safra destacou que a valorização do Bradesco foi comparável à de uma small cap, algo incomum para um banco desse porte, mantendo visão construtiva com preço-alvo próximo de R$ 24.
Já o Itaú BBA chamou atenção ao afirmar que, entre os grandes bancos, apenas o Bradesco ainda justifica os níveis atuais de preço, com projeção de ROE em 2026 acima da média histórica — cenário que não se repete em concorrentes como o Banco do Brasil.
Bradesco mudou de patamar, mas exige seletividade
O Bradesco entra em 2026 como um banco mais eficiente, menos arriscado e com rentabilidade em recuperação, algo que o mercado demorou a precificar — e agora tenta ajustar rapidamente.
O papel já não é mais uma barganha óbvia como em 2023, mas ainda oferece valor relativo dentro do setor bancário, especialmente para quem pensa no médio e longo prazo. O principal risco passa a ser o timing de entrada, e não mais a qualidade do negócio.
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