A forte correção registrada pelo Ibovespa depois das máximas alcançadas em abril colocou novamente a bolsa brasileira entre os mercados acionários mais descontados do mundo. O índice chegou a se aproximar dos 200 mil pontos, mas perdeu força nas semanas seguintes e voltou para a região dos 170 mil pontos.
Com a queda, o Ibovespa passou a negociar próximo de 8,4 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses. O número está abaixo da média histórica de aproximadamente 10,5 vezes e indica que diversas empresas brasileiras são negociadas com desconto.
Entretanto, uma bolsa barata não representa necessariamente uma oportunidade imediata. O desconto também reflete os riscos econômicos considerados pelos investidores, como juros elevados, aumento da dívida pública, inflação resistente e incertezas sobre a política fiscal.
Tesouro IPCA+ disputa dinheiro com as ações brasileiras
O principal concorrente da bolsa brasileira não está necessariamente nos Estados Unidos ou em outros mercados emergentes. A maior disputa pelo dinheiro do investidor ocorre dentro do próprio Brasil, especialmente com os títulos públicos.
Em junho, o Tesouro IPCA+ 2032 voltou a oferecer rentabilidade superior a 8,5% ao ano acima da inflação em determinados momentos. Já os títulos prefixados se aproximaram de 15% ao ano.
Essas taxas aumentam o custo de oportunidade da renda variável. Diante da possibilidade de contratar retornos elevados em títulos públicos, muitos investidores deixam de assumir a volatilidade das ações.
A Selic foi reduzida para 14,25% ao ano na reunião de junho do Comitê de Política Monetária. Apesar do corte, a taxa permanece elevada e continua pressionando empresas endividadas, o consumo e os investimentos produtivos.

Risco fiscal mantém prêmio elevado no mercado
A situação das contas públicas é outro fator importante para entender o desconto das ações brasileiras. A dívida bruta do governo geral atingiu 80,4% do Produto Interno Bruto em abril, somando aproximadamente R$ 10,4 trilhões.
Nos 12 meses encerrados em março, as despesas com juros alcançaram cerca de R$ 1,08 trilhão, equivalentes a 8,35% do PIB. Quanto maior a percepção de risco fiscal, maior tende a ser o retorno exigido pelos investidores para financiar o governo ou comprar ativos brasileiros.
Esse movimento pressiona as taxas do Tesouro Direto, os juros futuros e o custo de capital das empresas. Companhias que dependem de crédito para crescer podem sofrer redução das margens e dos lucros.
Saída de estrangeiros ampliou queda do Ibovespa
O investidor estrangeiro teve participação relevante na valorização observada durante os primeiros meses de 2026. Até maio, o fluxo acumulado ainda era positivo em aproximadamente R$ 43,7 bilhões.
Entretanto, somente em maio, a saída líquida no mercado secundário foi estimada em R$ 13,28 bilhões. A retirada de recursos contribuiu para a queda de 7,22% do Ibovespa no mês e mostrou como o mercado brasileiro continua dependente do capital internacional.
Além dos riscos locais, investidores globais direcionaram recursos para empresas de tecnologia e inteligência artificial, principalmente nos Estados Unidos e na Ásia. Juros elevados nas economias desenvolvidas também reduzem o interesse por mercados emergentes.
Quais ações podem resistir aos juros elevados
Em um ambiente de juros altos, empresas endividadas ou dependentes do crescimento econômico precisam ser analisadas com maior cuidado. Setores defensivos podem apresentar mais resistência.
Empresas de transmissão e distribuição de energia possuem receitas reguladas e contratos de longo prazo, frequentemente reajustados pela inflação. Companhias como ISA Energia, Copel e outras elétricas podem oferecer previsibilidade de caixa e pagamento de dividendos.
Bancos também merecem atenção. Itaú, BTG Pactual e Bradesco apresentam modelos de negócios capazes de gerar lucros mesmo em períodos de juros elevados. No entanto, cada instituição possui riscos diferentes relacionados à inadimplência e à qualidade da carteira de crédito.
O Banco do Brasil negocia com múltiplos baixos, mas enfrenta pressão das provisões ligadas ao agronegócio. Por isso, o desconto de BBAS3 deve ser analisado juntamente com a evolução da inadimplência e da rentabilidade.

Bolsa barata pode continuar barata por mais tempo
O preço reduzido do Ibovespa cria oportunidades, mas não elimina os riscos. A bolsa pode permanecer descontada enquanto os juros reais estiverem elevados e não houver melhora consistente das contas públicas.
Para o investidor de longo prazo, o momento pode favorecer compras graduais de empresas lucrativas, pouco endividadas e com geração previsível de caixa. A diversificação entre renda fixa e ações também reduz a dependência de apenas um cenário econômico.
A recuperação da bolsa brasileira dependerá principalmente da trajetória da inflação, dos próximos cortes da Selic, da política fiscal e do retorno do capital estrangeiro. Até que esses fatores apresentem melhora, selecionar boas empresas será mais importante do que simplesmente comprar ações porque ficaram baratas.
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